Domingo, Agosto 10, 2008

AQUELE OCEANO AINDA EXISTE.



"There is no greater love than what i feel for you."
[ainda tentando avisar a Amy que ela não pode morrer.]


.:. O grande problema dela é que ela insistia em buscar a graça da vida em tudo. Tudo tinha que ter um propósito claro que levasse à felicidade, que fizesse ser mais fácil depois mesmo que agora fosse um caos. Ela sentou naquele banco meio mofado de transporte público e enquanto todas as células do seu corpo repeliam a sujeira, ela se concentrava na música do ipod e tentava analisar a vida dela naquela melodia. O indiano sentado no banco da frente tinha cheiro de azedo e cara de, hum, azedo. Ela antes teria raiva, teria ódio, teria preconceito, mas agora era ela o indiano. Agora ela era a pessoa que acorda cedo, dorme tarde, come errado. A pessoa que caminha no meio das outras e não enxerga nada porque não tem tempo, porque tem muita pressa e muito cansaço, porque tem muita fome mas não de comida.

As pessoas passam a vida inteira tendo medo de morrer, tendo medo de amar e guardando dentro de si tudo o que de ruim acontece pra poder depois então se culparem por não terem sido felizes.

Ela ligava para o namorado no meio da noite chorando e não dizia nada. A dor dela era tão confusa que não adiantava tentar explicar. Suas grandes emoções se mostravam em palavras pequenas. Ela tinha medo de tudo dar errado, tinha medo de o mundo separar o que o destino fingiou ser certo, tinha medo de pela quantidade de medo que ela sentia, ele simplesmente não achar que valesse mais à pena. E depois da briga, a cada toque que o telefone dava, sem resposta, era como se o coração dela fosse ficando menor, comprimido, amassando em um espaço curto todas as sensações que ela carregava ali pra viver durante uma vida toda. E era tão injusto com ela tudo se compactar tanto.

Mas ele também sentia. Sentia culpa porque não foi do jeito que planejaram, sentia vontade de resolver o que não estava ao alcance de suas mãos, sentia falta de um poder sobre sua própria vida que, agora, ele parecia ter perdido. E quando o seu telefone tocava ele não queria atender porque ele sabia que dalí viria o choro e, pra ele, era muito insuportável ouvir a única pessoa o fazia se sentir vivo morrendo.

Acontece que as noites passavam repetidas pra dar lugar aos dias que não se viam. Tudo acontecia rápido e batido. Os olhos no despertador, a escova nos dentes, os sapatos nos pés, os pés de lá pra cá o dia todo, as mãos no telefone, as palavras que não se deveria dizer, o choro que não encontrava outro caminho, a cabeça no travesseiro. O dia começou de novo.

E não importava se com compaixão ou com raiva. Não importava quantas coisas eles dissessem pra se machucar aos poucos com medo de um dia não ter mais volta. Não importava em que fuso estavam ou se o horóscopo disse que a única solução era acreditar. O que importava é que estavam cansados, estavam mudos e um pouco burros. Estavam com medo de escuro mas não tinha aonde acender a luz. O que importava é que descobriram que se vive de amor sim, mas que pra isso se sofre muito.

O grande problema dela é que insistia em buscar a graça da vida em tudo. E tudo o que ela tinha vivido antes, embora parecesse tão fácil, com certeza não a fez sorrir. E ela sabia que iria chorar mais, que iria chorar muito mais. Ela sabia que talvez não estivesse perto, que ainda não estivesse exatamente ao alcance de um abraço ou à facilidade de um beijo que explica tudo. Ela sabia que podia ter feito a escolha mais fácil e se poupado de tantas noites sem dormir com o peso do mundo inteiro separando ela do seu travesseiro, mas acontece que a cada vez que a voz dele respondia do outro lado da linha, a cada silêncio que preenchia todo o vazio de respostas e a cada fim de dia que, mesmo sem ele, ele estava com ela, ela sabia.

Escolher entre a paz e o amor é a decisão mais importante de uma vida, mas pensando bem, que espécie de paz seria essa sem as mãos dele na nuca dela, os pés esquentando uns aos outros, as guerras de ciúme que acabavam quentes e úmidas e sem nenhuma tropa inimiga por perto? O que seria da vida dela se não um marasmo não fosse a vida dele? E embora fosse difícil e doesse mais alto do que ela pudesse gritar, ela sabia que aquilo que eles tinham não se encontrava num bar, num restaurante ou nas piadas cheirando à cerveja e sacanagem que saíam da boca de qualquer outra pessoa por aí. O que eles tinham tinha a força de uma saudade até quando eles estavam juntos e, isso, risada nenhuma podia pagar. Rir só era tão pouco.

Talvez então, pensou, não valesse tanto a pena querer buscar só a risada. Lembrou então - fechando os olhos cansados de olhar em volta - que quando ela pensava nele não dava tempo de achar graça, não dava tempo de questionar mais e nem de pensar que era infeliz. Pensar nele era tanto sorriso. E aí ela finalmente então entendeu o que o mundo todo queria dizer quando explicou que sem a guerra não há a paz.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Vir aqui me faz tanta falta!
Saudade de falar com vocês, crianças!


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