Quinta-feira, Novembro 01, 2007

CAFÉ DA MANHÃ SEM AÇÚCAR.



"hay milonga de amor. este tango es para vos."
[algo de inexplicável acontece quando começa a tocar o gotan.]


.::. Acabou o jejum.
E depois de alguns meses sem conseguir desenhar as palavras com perfeição, minha sintaxe veio ambiciosa, querendo mostrar serviço, impressionar, ganhar o lugar que tinha perdido para o tempo. Fazia tempo que o que era sentido estava confuso e sem nome. Risada, amor.

Voltei. E percebi que dei pra pensar que, com os anos, alguns sentimentos de outrora se tornaram estranhos. A leveza de muitas coisas foi embora, assim como fomos nós, saindo por todas as portas que não soubemos manter entreabertas. Mas o que eu não entendo, mesmo que tente muito, é como delimitamos o limite da verdade, onde fica mesmo a linha imaginária que dá um basta no querer? Por que será que sempre o outro lado é o que se pode, o paupável, o certo e bonitinho. Será que só é assim porque está, enfim, do outro lado da faixa de segurança da vida?

Uma menina se apaixonou por um peixe. Ela queria ter, então, nadadeiras, barbatanas, uma grande cauda azul-anil, queria poder respirar embaixo d’água. A história continuou romântica e com espírito de aventura por alguns capítulos, mas no final a menina, tão humana, se afogou.

Assim acontece com todas as pessoas todos os dias. Misturamos as linhas do possível com o provável, acenamos em direções contrárias aos ventos que sopram a nosso favor, corremos pro mergulho no mar da sorte quando poderíamos ter, logo aqui, um riachinho xôxo de amor certeiro. Ninguém quer amar certo, porque amar certo, sem fugas, sem medos, sem ânsias de corpos inteiros se perdendo em pedaços não dá tesão. E ser humano, de carne, osso e sêmem, precisa de um tantinho de tesão.

Um menino se apaixonou por uma princesa. Ela era bonita demais pra ser verdade, era educada demais pra existir, cheirava à damas-da-noite com jasmim, recitava poesias sem muito açúcar, era azeda e ardida na medida, queria casar com um príncipe, mas não de véu, grinalda e buquê. A princesa gostava muito de cerveja, mas não arrotava porque era polida demais pra ser humana. Tinha a voz mais linda do mundo, mas cantava pouco porque era comedida como jamais outra mulher tivera sido no mundo. A princesa, do menino que pode ter de quinze a quarenta anos, não existia.

As realidades eram várias, as estações passaram sem eu perceber porque, quando me dei conta, eram quarenta graus escorrendo em pleno outono. Mas quem ficou pra trás? As horas passaram por mim, ou fui eu que, sem acreditar nas circunstâncias, me despedi delas?

E a vida continuava engraçada. As pessoas continuavam se apaixonando não por quem estava ali, na frente, mas sim por quem estava lá, do lado de dentro delas. As músicas continuavam tocando, Paris ainda inspirava um amor vintage e comédias românticas pretendiam alguma esperança, também, ao amor. O mundo ainda era gigante o suficiente para um amor em cada porto, e um cais pra cada caos. A bagunça ilimitada de sentir tudo o que se pode, com quem se está, onde estivermos.

A vida é mesmo um pouco disso. Falamos muito de amor, porque ele assim, cheio de acertos mágicos, não existe. No fundo todos sabemos.

Acabou o jejum.
Chega de peixes encantados e princesas presas às suas torres. Quero falar pouco de mim e pensar menos em amor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E pode passar o tempo que for, eu sempre volto pras minhas crianças.


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