Terça-feira, Setembro 04, 2007

AS HORAS



"do you believe she said that? can you believe she repeated that? i said i hate myself and i want to die."
[cat power no tim festival já esgotou. eu não sossego até conseguir o meu. palavra de escoteira.]


.::. O momento me pedia, quase implorava, serenidade para escrever. Estruturar em palavras o que se passava aqui dentro, hoje. Pedia baixinho para causar vontade, mas não tinha sucesso e acabava berrando dentro de mim. Caía junto com as lágrimas, as risadas, os pontapés e os afagos mudos, todos ao mesmo tempo. Ensurdecia.

“Não, eu não estou louca.”
Eu costumava me consolar assim. Eu tinha medo das certezas e pavor do que eu não sabia. Tudo era sempre mais complicado do que eu supunha, do que eu tinha certeza. A felicidade era histérica sim, mas só na vida dos outros.

Aqui era silêncio. De doer, de rachar.

Me perguntava por que passavam, então, tão rápidos os dias. Quase batidos, quase como se eu realmente estivesse vivendo a minha vida. Esperando pelos segundos que viriam, pelas esperas que findariam, pela vontade de todas as coisas que tinha sumido junto com o meu tempo que passava acelerado.

Eu queria andar devagar, respirar a brisa, enxergar as flores. Mas parecia piada. Tudo passava na velocidade da luz, nada queria realmente permanecer. Os objetivos todos dispersos e você, lá, parado no final do túnel, esperando a corrida começar, com a bandeira da chegada na mão.

Quando é que sabemos que a adolescência acabou? Porque quando acaba a infância, e ela começa, a gente ganha algumas espinhas, um tanto de hormônios, outras vontades e ok, tudo fica explicitado o suficiente pra gente trocar os brinquedos de plástico por outros de carne e osso.

Mas e a maturidade? Quando é que ela chega?

Será que o fato de o dia parecer mais curto identifica a fase adulta? Será que o trabalho se vinga da gente, sempre sendo maior do que o nosso tempo, só pra mostrar que não demos valor pra uma infância cheia de sonecas à tarde e bolos de cenoura depois? Será que a vida vai, mesmo, ficando cada vez pior ou somos nós que usamos a nostalgia como forma de nos consolar dos problemas nos confortando em alguma coisa macia do passado?

Eu não sei.

Eu não sei a partir de onde foi que eu virei a mulher cheia de questionamentos repetidos, que sorri, anda, inventa, se molda, é forte, é segura, é madura, e elegante, e sorridente, e feliz, e tão incompleta. Quando foi que a felicidade deixou de bastar para me fazer – sim, o palpite está certo – feliz?

Mas não é só você. Não é só você e eu sei. Não são só as coisas que a gente diz e, muito menos, só aquelas que vivemos esperando. É muito mais do que isso, o meu vazio vai além. Porque eu me completo de pedaços, porque vivo num mundo desigual, porque o que era bom ontem, hoje já não é mais, e assim as coisas vão passando. O meu vazio está repleto de medos. Não seus, não nossos, mas de futuro, de mundo, de quem exatamente eu sou.

As horas passam batidas e eu bambeio fazendo contas de cabeça. Vinte e quatro vezes trinta e um, noventa e seis vezes doze, novecentos e cinqüenta e dois. Os múltiplos multiplicam o que eu não sei, o que me sufoca no calor do dia a dia, de todas as relações. Talvez eu não esteja apta a me relacionar com o mundo... nem com você.

Ele gira, eu giro, a verdade gira, rodopia e bate na minha cara.

As noites são pequenas pro meu sono, os dias grandes demais pras minhas dúvidas. Eu quero parar, eu quero fugir, eu quero voar pra onde haja cheiro de infância, o rosto da minha avó, as pernas grandes da minha mãe, onde eu me escondia tanto, tão protegida. Eu quero um mundo de verdades, que seja de mentirinha, pra eu me sentir confortável. Eu quero me sentar a mesa e esperar o meu banquete de felicidade, que não vai vir.

Não é quando a gente para de se importar com a gente, que a gente morre? A gente não morre quando estamos muito machucados, mas a vida não para de doer?

Mas ele me diz que não. Ele diz que a vida anda em frente, mas que sempre há dois lados. Ele me fala de força, de visão e de depois. Porque, segundo ele, sempre há um além, um horizonte, um movimento seguinte, mais claro.

Eu, tantas e tantas vezes, tinha medo de mim, da minha escuridão que me confundia, sozinha. Mas, ainda assim, - e por muita sorte - me restava você, a bandeira da chegada e toda sua claridade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, acreditem: não é introspecção o caso, é pura falta de tempo mesmo.
Um beijo.



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