Sábado, Julho 28, 2007

CORRE, COTIA: DIA E NOITE, NOITE E DIA.



"said i many times, love is illusion, a feeling result of confusion (...) i feel so sure, so positive, so utterly unchangeably certain. though i never was aware of loving you, 'til i suddenly realised there was love in you."
[um dos vícios da vez é jamie cullum inteiro: a voz, as canções e ele dançando 'don'tcha' no palco.]


.::. Só sei que começou devagar pra não ser descarado. Queria todas as partes que restavam de discernimento e conseguiu, é só olhar. Nunca houve a certeza tão concreta da necessidade de mudanças tão extremas pra ficar junto de alguém. Tão junto.

Era engraçado à medida que acontecia, porque ia acontecendo sempre igual, os dias repetiam as sensações daqueles dois que sonhavam, daquelas almas que ficavam pedindo acalanto, sossego, mas só brigavam. Quem grita precisa de muitas iras entaladas, eles só tinham uma. E bastava.

Quando o dia começava de manhã, era como se a esperança se renovasse junto com o sol que, assim como eles, também ontem se deitou. Mas eles se deitavam em horas diferentes e o sol deles nunca concordava a hora certa de estar em paz. À medida que o dia esquentava, esquentavam também os ânimos, os desânimos, e a raiva que sentiam do mundo, da vida e do outro por nada poderem fazer. Doía.

Só sei que se passaram as horas. Sem jeito, sempre em frente: os sentimentos incandescentes, sempre em brasas vermelhas.

Quando o sol sossegava e começava a querer fugir do que causou, vinham então as estrelas, tão espertas. Propunham brilhar-se todas e entreter os dois, fazê-los amolecer com o frio da noite e dizer bobagens quaisquer pra esquecer o que se passava. Não dava.

As estrelas deles vinham separadas, também. Por oceanos, terras, mares, rios, plantas, ventos, tudo. Era muito longe. Ele cá, ela lá. Doía de novo.

A noite propunha sacanagem e desgosto de estar só. Mas ao final só sobrava o segundo e a certeza de que era mesmo a maior sacanagem da história estarem sem poder se tocar, daquele jeito.

Quando o quente esfria com as brisas noturnas, então, vem o refresco ruim que não pediram. Vem a censura pessoal, os questionamentos em dupla, e as discussões infindáveis que realmente não vão sair dali, em círculos.

Só sei que choravam. Cada qual ao seu modo, cada um com o que tinha para lavar a alma. Ela os olhos, ele as risadas sem graça de quem está muito mais desesperado do que aparenta.

Aí pensavam em largar tudo, em largar trabalho, escola, família. Em se largar em nome do outro. E desistiam. Doía.

A voz ao telefone quase sempre tremia. Não havia mais estabilidade nesse mundo que conseguisse conectar essas vontades tão latentes. Até porque, enquanto um amanhecia, o outro adormecia e seguiam os dias com essa bricadeira de gato e rato que nunca se encontram.

Ficavam assim, então: sobrevivendo a cada dia e esmorecendo a cada noite. Lutando contra o medo do mundo e o medo deles mesmos, por estarem em mundos tão diferentes por hora, agora, pra sempre, quem sabe? Não sabiam.

Tentavam acreditar numa mudança, num descaso do destino que insistiu em manter-lhes assim. Um descuido que deixasse um deles passar, fugido. Tentavam fugir da verdade e se encontrar um no outro, mas se perdiam. Estavam perdidos. Nos dias quentes, nas noites longas, na espera fria.

Só sei que doía.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, que saudade que eu tava de tudo por aqui!
Beijos, crianças.


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