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ALGUNS MILHÕES DE METROS RASOS
"tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio."
[tão macia a voz da fernanta takae que até dá nervoso. sobre o tempo, pato fu.]
.::. Eram horas distantes aquelas. Pareciam tão longe de mim, inquietas por não poderem passar logo e juntar o que eu sonhava com o que eu queria, numa coisa só, bem na minha frente. Um ano tem 365 dias. Um grande múltiplo de cinco que ia ficando menor a cada cinco minutos a menos que nos separavam. O relógio podia não ser exatamente ágil, mas era nosso amigo.
Alguma coisa não está certa aqui. Passa longe de ser visível aos meus ou a quaisquer outros olhos, mas existe. Lateja forte durante a noite e eu me recolho, me encolho, me embrulho, como se procurasse um jeito de, em mim, encontrar um pedaço de você. Mas não dá mais, e dói.
Nos sonhos é como se eu corresse, gritasse, esmurasse o mundo sem que, entretanto, nada acontecesse. Parece que há, em mim, uma verdade tão escancarada que se torna ridícula. E riem, e blefam, e se intutilam profetas do meu, do nosso destino. Quanta bobagem, quanta cretinisse, quanta e tanta chatice.
Mas não me importo. Não me iludo mais com promessas fáceis de amores eternos. A vida me mostrou vez após vez que nada do que vem correndo, acaba por sossegar e se manter parado, não existe a possibilidade. Não existe possibilidade de amor sem história, sem derrotas, sem sangue pisado no coração, sem garganta trancada e meleca no nariz de tanto chorar. Amar não é só bonito e, pra ser hora ou outra, é feio demais no caminho.
Cansei de viver num mundo onde temos que ser perfeitas: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes culinários, a inteligência, a meiguisse, as amigas, os respeitos, os beijos na testa, as pernas cruzadas. Mas cansei mais ainda de viver no mundo onde temos que ser vadias insaciáveis: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes dos decotes, o pouco cérebro, o sex appeal, as amigas, as dissimulações, os beijos de pornochanchada, as pernas esguias, compridas e abertas, sempre.
Eu não faço parte. Me falta quietude pra ser serena e impetuosidade pra ser agressiva.
Me falta vontade.
Acaba que me tornei o morno que engasga na goela, que não desce nem regurgita. Acaba que acabo me questionando muito, esperando muito do mundo, das mudanças, do que vem depois de você. Acaba que acabo com meu sossego pensando que está errado, que não era pra ser assim, que a vida é uma merda fedida. Acaba que acabo comigo e com tudo o que faz parte de mim, mesmo externamente.
As pessoas correm e todas elas passam junto com as horas que também se vão. Eu arrumei um banquinho escondido que me deixa ver tudo, ver tanto, até me cegar. Eu fecho meus olhos e respiro grande, deixo invadir os vasos, quero que exploda tudo. Eu não falo mais em primeira pessoa, porque agora somos terceira.
Você aqui, eu aí. Vocês sendo nós. Pluralidade que é pra não correr o risco de eu me esquecer. Eram mesmo distante as horas, mas elas iriam sempre estar lá, assim como nós mesmos aqui, ou lá, de novo.
Fiquei pensando - do meu banquinho inventado - que podiam mesmo correr todas as pessoas, e passar. Pra você, que importa, finalmente permanecer, não tem outro jeito, só esperar.
Que passem os outros então. Que corram, que se atropelem, que dancem músicas sem melodia té o sol raiar, que comam comida sem gosto até se empanturrar, que vivam mentindo como foi até hoje até não se reconhecerem mais. Que se danem.
Temos metros múltiplos de cinco suficientes pra vida inteira. Vamos caminhar.
[Rani Ghazzaoui]
.::. Que saudade, crianças! Desculpem a desnaturação, se cuidem e muitos beijos.
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