Segunda-feira, Junho 25, 2007

AQUELE BRILHO QUE OFUSCA, É MENTIRA.



"once i wanted to be the greatest/ no wind or waterfall could stop me/ and then came the rush of the flood/ the stars at night turned you to dust."
[um vício muito justificável na voz macia de chan marshall. cat power vale à pena.]


.::. Aquele dia eu tive medo. De verdade, de cair.

Eu despenquei no meio dos fatos porque as pernas cediam já havia um tempo. Já passavam algumas fases que a minha crença ia indo, fundindo com os atos, as conseqüências, as faltas de medida. Desmedido estava o pavor em mim, de ver você daquele jeito, bem na minha frente.

Não era falta de compreensão. Eu juro que queria entender. Havia anos que a minha vida, pra mim, era simples, líquida, transcorrente pelos meus dedos.

Ok. Não no sentido de simplicidade, não neste. Mas, pelo menos, eu sempre soube que as confusões, misturas, sensações, tumultos, revoltas, amores, bagunças, enfim, tudo existia ali por um porquê, por um - ou vários - motivos que eu mesma criei de um jeito ou de outro, agora, ontem ou depois. Por mais que estivesse difícil, eu sempre tinha estado no controle. Era eu, meu egocentrismo, o meu lado narcizo e a minha coragem de estampar, pro mundo, os meus medos.

As nuvens andaram tortas e se confundiram de estação. O céu resolveu escurecer em cima das nossas cabeças mostrando que egoísmo, agora, não ia ajudar muito, não ia resolver o problema, os problemas, os lapsos de sanidade que existem nas vidas das pessoas todas. Nós fazemos parte, ao menos disso.

Eu ria, mas tremelicava toda por dentro. Eu queria chorar até alagar todas as burradas pra afundar o que foi e ser a partir dalí. Não dava. Latejava estranho por todas as partes do meu corpo os pecados que eu não cometi. Os joelhos continuavam ralados e sangrando, aquele sangue que não era meu, nem dela, mas seu. E ele precisava jorrar.

E o céu já não era mais azul, era vermelho como no filme onde nada se via, de luz apagada pra sempre. Como se num minuto tivessem roubado todas as nossas certezas e só uma permanecesse. Eu continuava lutando por ela, de mãos fechadas, dentes cerrados e olhos entre abertos.

A gente não podia exergar tudo porque era a incerteza do muito que confortava de certa forma. Era o medo de um futuro errado que empurrava pra frente. Eu precisava caminhar. Certas ruas ficaram estreitas, algumas estrelas perderam o brilho. A minha música preferida já não dizia muitas coisas porque o meu conceito de amor mudou, e muito.

E eu já não quero brilhos. Percebi, só agora, que a luminosidade me cansa. É na penumbra que os medos se descobrem, se roçam e se encaixam. É na sede de querer se salvar que a gente bebe o outro, gelado ou quente, tanto faz. As sombras, que não têm feição mas sim formato, me mostraram que eu errei tanto quanto você.

Vou deitar quente no seu peito até o dia chegar, mas aí eu vou fechar as cortinas e ficar. Só mais um pouco, eu juro.

E você vai fugir de você, porque assim há de ser. Mas eu, vou estar aqui, no escurinho da sua única certeza, te esperando com o amor que eu nunca duvidei poder te dar.

Feche a porta.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E qual universitário no mundo tem tempo de escrever em final de semestre?
Mas eu sempre volto, crianças, vocês sabem.
Um beijo grande.


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Domingo, Junho 03, 2007

ALGUNS MILHÕES DE METROS RASOS



"tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio."
[tão macia a voz da fernanta takae que até dá nervoso. sobre o tempo, pato fu.]


.::. Eram horas distantes aquelas. Pareciam tão longe de mim, inquietas por não poderem passar logo e juntar o que eu sonhava com o que eu queria, numa coisa só, bem na minha frente. Um ano tem 365 dias. Um grande múltiplo de cinco que ia ficando menor a cada cinco minutos a menos que nos separavam. O relógio podia não ser exatamente ágil, mas era nosso amigo.

Alguma coisa não está certa aqui. Passa longe de ser visível aos meus ou a quaisquer outros olhos, mas existe. Lateja forte durante a noite e eu me recolho, me encolho, me embrulho, como se procurasse um jeito de, em mim, encontrar um pedaço de você. Mas não dá mais, e dói.

Nos sonhos é como se eu corresse, gritasse, esmurasse o mundo sem que, entretanto, nada acontecesse. Parece que há, em mim, uma verdade tão escancarada que se torna ridícula. E riem, e blefam, e se intutilam profetas do meu, do nosso destino. Quanta bobagem, quanta cretinisse, quanta e tanta chatice.

Mas não me importo. Não me iludo mais com promessas fáceis de amores eternos. A vida me mostrou vez após vez que nada do que vem correndo, acaba por sossegar e se manter parado, não existe a possibilidade. Não existe possibilidade de amor sem história, sem derrotas, sem sangue pisado no coração, sem garganta trancada e meleca no nariz de tanto chorar. Amar não é só bonito e, pra ser hora ou outra, é feio demais no caminho.

Cansei de viver num mundo onde temos que ser perfeitas: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes culinários, a inteligência, a meiguisse, as amigas, os respeitos, os beijos na testa, as pernas cruzadas. Mas cansei mais ainda de viver no mundo onde temos que ser vadias insaciáveis: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes dos decotes, o pouco cérebro, o sex appeal, as amigas, as dissimulações, os beijos de pornochanchada, as pernas esguias, compridas e abertas, sempre.

Eu não faço parte. Me falta quietude pra ser serena e impetuosidade pra ser agressiva.

Me falta vontade.

Acaba que me tornei o morno que engasga na goela, que não desce nem regurgita. Acaba que acabo me questionando muito, esperando muito do mundo, das mudanças, do que vem depois de você. Acaba que acabo com meu sossego pensando que está errado, que não era pra ser assim, que a vida é uma merda fedida. Acaba que acabo comigo e com tudo o que faz parte de mim, mesmo externamente.

As pessoas correm e todas elas passam junto com as horas que também se vão. Eu arrumei um banquinho escondido que me deixa ver tudo, ver tanto, até me cegar. Eu fecho meus olhos e respiro grande, deixo invadir os vasos, quero que exploda tudo. Eu não falo mais em primeira pessoa, porque agora somos terceira.

Você aqui, eu aí. Vocês sendo nós. Pluralidade que é pra não correr o risco de eu me esquecer. Eram mesmo distante as horas, mas elas iriam sempre estar lá, assim como nós mesmos aqui, ou lá, de novo.

Fiquei pensando - do meu banquinho inventado - que podiam mesmo correr todas as pessoas, e passar. Pra você, que importa, finalmente permanecer, não tem outro jeito, só esperar.

Que passem os outros então. Que corram, que se atropelem, que dancem músicas sem melodia té o sol raiar, que comam comida sem gosto até se empanturrar, que vivam mentindo como foi até hoje até não se reconhecerem mais. Que se danem.

Temos metros múltiplos de cinco suficientes pra vida inteira. Vamos caminhar.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Que saudade, crianças! Desculpem a desnaturação, se cuidem e muitos beijos.


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