Domingo, Abril 22, 2007

NA PRATELEIRA DE LÁ



"Só porque disse que de mim não pode gostar, não quer dizer que não tenha que reconsiderar."
[marisa que, aqui, não aparece faz tempo.]


.::. As coisas vêm e voltam. As coisas vão e ficam. E voltam. Não era à nada disso que eu me referia quando fui embora. Não era pra você voltar só porque, lá no fundo, eu acabei ficando.

Todos os dias, acordar é um parto. Sair do quente do meu inconsciente pra dar vazão à esse mundo aí de fora, todo cheio das coisas que eu não quero fazer, transbordado do que eu não suporto mais ver. Mas a gente continua. Continua porque desistir é muito feio, é fraqueza, e vamos combinar que num mundo desses, não dá pra ser fraco.

Só que alguma coisa aconteceu naquele dia. Eu desliguei o telefone e, dentro de mim, eu sabia que doía demais porque, depois daquilo, não ia doer mais. Eu não ia mais ter que medir todos os passos, todos os sentimentos, todos os choros, risos e gozos numa fôrma imaginária. Eu não ia mais ter que usar como base de comparação uma coisa que eu criei bonita, mas que estava fazendo de mim uma pessoa tão feia.

Mas não, é lógico que não foi assim. Não foi, porque as coisas todas sempre acabam por tomar rumos que eu duvido. Me pergunto quem não duvidaria. É uma tristeza que não cessa, junto com uma alegria que existe, mas lateja fraco, palpita baixinho, morna. A dor é sempre aguda.

Os dias continuam passando, as horas pesando, a nossa vontade de conseguir, de chegar lá e não sucumbir, sucumbindo. Todas as vezes na vida que eu falei em absolutismos eu sabia que estava mentindo porque, pra mim, tudo sempre é imediato, porque eu não tenho a mínima paciência de não ser mimada. É sem pensar, porque eu penso demais. É o fim do mundo, porque quem pensa muito só pensa em merda.

Mas sempre, sempre, cinco minutos depois, tudo passa. Nunca menos e raramente mais do que isso, cinco minutos, e tudo vai embora porque é assim, as coisas têm que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua, com ou sem qualquer um.

Só que esse sempre foi e ainda é o seu problema. Não ser o um que não faz falta, não ser a noite perdida num canto de um balcão qualquer, não ser o beijo de hálito gelado, tesão quente e vontade limitada. O seu problema, é ser problema sem solução. É ser vontade pra mais de anos, é ser virtude pra uma vida inteira, é ser idealizado porque há tanto tempo eu, você e o mundo que nos cerca, separados, esperamos tanto.

E, embora seja muito arriscado, não há como negar que a minha felicidade está vinculada a você, veiculada em você. Seja lá quando você vier trazendo-a à tira-colo.

Pra mim, é difícil aceitar e entender que eu tentei te deixar pra trás, como todo o resto, mas não consegui. É difícil olhar os fatos, comprovar as dificuldades, ter preguiça, sentir cansaço, doer, arder, ferver e, mesmo assim, não conseguir te colocar dentro de um prazo.

Seu prazo de validade não venceu em cinco minutos, mas por você, o meu gênio durão, egoísta, fugaz e sempre tão irritantemente unilateral, apodreceu faz tempo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boa segunda, boa semana. E alegria, alegria, crianças.


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Domingo, Abril 08, 2007

ELE FICOU POR LÁ



"...before i've arrived, i can see myself coming."
[é brega, mas eu gosto de robbie williams.]


.::. Pensando bem, não era exatamente à isso que eu me referia quando falava de amor. Não era à uma coisa doída, unilateral, pesada e ressentida. Não era, nem de longe, uma conversa sobre arrependimentos e, nem, nenhuma lágrima caía. Pensando bem, quando eu esperava tantas outras coisas do amor, eu, ainda e simplesmente, não compreendia.

As meninas estão aí. Estão aí todas elas como sempre, correndo, fugindo, ficando. Estão todas virando mulheres no meio do caos diário, da eterna vontade de não mais precisar correr por ter tanto medo de tudo, a eterna vontade de ficar onde as mentiras são para o bem de verdade, e as verdades só sabem fazer feliz.

Fazia um ano já. Um ano e ainda mais um pouco.

Eu passava segura e distante de tudo o que cortou um elo porque, se não havia mais conectividade, não havia, tampouco, motivo para se manter, então, qualquer espécie de relação. Mas as coisas na vida da gente voltam à qualquer momento. De repente, de sopetão, do nada, alguma coisa palpita forte lá embaixo, na boca do estômago.

Era pra eu estar rindo de tudo isso já. Era pra eu pensar que as coisas tinham se acertado e que isso tudo era certo.

Mas o caminho foi abrindo na minha frente: a reforma tinha acabado, a pista tinha crescido, fecharam o lugar das nossas confissões mais secretas, abriram um novo restaurante fantástico que nenhum de nós - sendo um nós - chegamos a conhecer. Eram muitas coisas juntas, ao mesmo tempo, contando pra mim vez após vez que a vida tratou de seguir seus rumos mesmo sem eu estar ali, perto de você.

A gente andou tanto aquele dia que o rumo se perdeu. Eu me perdi de você, mas as coisas todas estavam lá, eternizadas bregamente na minha cabeça - e tão somente nela.

Ainda estava lá a pracinha de bairro, com os cachorros todos, o guardinha, os bancos, as árvores, flores, cantinhos e tudo mais que fizesse dalí um lugar romântico ao qual eu nunca tinha prestado a mínima atenção antes porque, antes, o mundo lá fora não importava muito. Só que, agora, o mundo aí fora é tudo o que eu tenho pra me lembrar de tudo.

Ela chorou três litros de lágrimas tristes de verdade na minha frente e eu, simplesmente, não soube o que dizer. Fiquei parada tentando usar alguma eloqüência pra explicar que ela não precisava chorar por ele. Ele não mereceia, ele não sabia, ele era só mais um babaca, só mais um cara que mente, que some, que liga pra manter quente, pra não perder a possibilidade sempre que tiver vontade. Tentei falar que ele era só mais um homem, como são todos os outros, e que, um dia, ela acharia alguém que não ia mais fazer ela se sentir assim.

Quando eu percebi, éramos as duas babacas em prantos. Chorando por todos os fantasmas do passado que não mais estão aqui mas que, também, nunca vão embora de vez.

A pracinha, a avenida, as ruazinhas, as lanchonetes, os lugares de segredo, o meio fio, os cachorros, tudo tão diferente. Mas tudo continuava lá.

E dessa vez, quem foi embora fui eu. Porque, afinal de contas, se a vida andou sem mim, não faz sentido nenhum eu parar por alguém que eu, em algum momento, resolvi deixar pra lá.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom dia do chocolate amanhã, crianças.


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