Sábado, Março 31, 2007

A MAIOR PARTE DE MIM



"... and it's not hard to grow when you know that you just don't know."
[cannonball do damien rice. só porque é muito bonitinha a música.]


.::. Os anos passaram pela minha janela.

Essa seria uma boa frase pra começar um texto saudosista, de um dia de aniversário onde as coisas todas magicamente mudam de lugar, onde os problemas se resolvem e as dúvidas não existem mais.

Infelizmente, não é assim.

As coisas não passam pela nossa frente, pela nossa vida, macias e imperceptíveis. Muitas vezes, e normalmente, ir além delas machuca e, na hora, a gente não entende exatamente o porquê.

Hoje eu faço vinte e um anos. Vinte e um. E fico repetindo esse número mentalmente como um mantra sem fim de um iógue numa cachoeira de incertezas qualquer. Vinte e um. Quanta coisa aconteceu nessas duas décadas e um, quantas vezes eu gritei de tristeza, sorri de alegria, me confundi no gozo e no pranto e virei essa mulher inteira dos meus pedaços, cheia dos meus vazios. Virei essa mulher que ri e chora muito de tudo, porque vive até a última pulsação das coisas, porque sempre bebe até o último gole.

Tantas foram as vezes que eu superestimei tanto tudo, que eu achei que não dava mais, que já tinha vivido tudo o que era pra mim. Quanta bobagem.

Bobagem porque de todas as minhas tragédias de um dia, o máximo que me ficou foi a lição de que ser hiperbólica como só eu sei, pode, no máximo, me render um estilo, jamais um final. Nada acaba só porque pra mim sempre é um caso de vida ou morte.

Mas os meus exageros me fazem bem, me fazem escrever, me dividem com as pessoas que, por um motivo ou outro, lêem as babaquices que eu prolifero mundo à fora. Ter coragem de falar o que muitos pensam no quartinho escuro seguro da consciência me rendeu grandes amigos, me fez conhecer pessoas incríveis. É inexplicável.

Os vinte, esses sim, passaram voando por mim. Sabe aquelas brisinhas boas que despenteiam, mas não a ponto de descabelar? Passaram gostosos, cheios de informação pra eu absorver de um só vez. E acabaram rapidinho porque tudo o que é bom dura pouco pra caralho. Os vinte passaram inteiros e a minha mania de boca suja não foi embora junto com eles.

Tanta coisa, tanta gente, tanto medo acumulado esperando a maturidade finalmente chegar e, quando ela finalmente chega, eu ainda me sinto imatura e quero o colo da minha mãe, o abraço da minha amiga, o beijo na testa do meu primo, o amor do cara que foi embora há três anos e nunca mais voltou.

E enquanto eu espero por tudo isso, por um mundo cheio de certezas onde acordar vai render uma gargalhada e nada mais vai valer uma tristeza, a vida vai passando. Sem perceber, eu vou passando junto com ela porque, felizmente, apesar de eu esperar a felicidade, eu nunca deixo de ser feliz. E nem vou.

Eu continuo sendo essa menina boba, que descobre todo dia que não sabe da missa a metade, mas que se joga, e se fode, e, no final, se diverte. O meu inferno astral acaba hoje, porque hoje começa a minha nova primavera. E eu olho pros lados procurando motivos pra uma felicidade de festa, de hoje, momentânea, mas percebo que as minha maiores razões de sorrisos estão bem aqui, comigo: do meu lado e dentro de mim.

A verdade é que a minha maioridade já começou e, apesar de tudo, não poderia haver sensação melhor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Parabéns pra mim e tra la la.
E sim, hoje sou eu mesma na foto.
Beijos, crianças.


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Sábado, Março 10, 2007

O MELÔ DA CARETINHA



"... life, it thought me to die. so it's not hard to fall, when you float like a cannonball."
[é uma pena que fizeram essa música do damien rice virar tão bunda. mas ainda assim, vale à pena.]


.::. Eu ando em círculos tortos tentando achar o equilíbrio que eu preciso pra não desmoronar no meio fio, sozinha. Ficando tonta por tentar entender, pela milésima vez, o que me segura tão fundo no chão, que deposita vinte toneladas nas minhas costas e eu não consigo voar.

Tento achar culpados, xingar os meus e os seus medos, reprimir todos meus impulsos assassinos por todas as pessoas que eu sou obrigada a odiar simplesmente por não poder amar. Tento sofrer menos por tudo no mundo, mas a vida me envolve de verdades o tempo todo e é difícil sorrir pras desgraças quando a sobriedade é parte inerente do meu todo. Encarar a vida de frente, com todas as merdas que cagam gostoso na minha cabeça todo santo dia, não é fácil. Viver não é fácil, nem bonito e nem me dá tesão muitas vezes.

E eu choro sem saber o porquê enquanto a vida acontece lá fora. Tanta gente desgraçada por coisas de verdade e eu, ainda presa às dúvidas atrasadas de tudo que não se explica, não consigo definir porque tudo fica tão aguado ao meu redor. Eu fico parada olhando tudo acontecer comigo, tudo acontecer com os outros. Eu choro sabendo que o mundo não é bom, que crianças morrem arrastadas por sete quilômetros presas a um carro em movimento. Choro pensando que é um adulto, que provavelmente nunca foi criança, que dirige esse carro. Choro sabendo que muitas outras crianças vêem seus pais morrerem numa guerra de adultos e que elas não pediram pra estar lá, mas estão.

Os meus problemas são tão pequenos. As minhas dores são tão precisas.

Mas olhar ao meu redor me perturba e dói saber que viver machuca. Só que viver é tão bom, apesar de tudo isso, que mesmo no dia mais difícil de muitos, de todos, de tantos, eu não consigo entender, nem por um instante, a coragem do suicida.

Ter coragem de ser covarde.

Nunca mais ver o sol nascendo, nunca mais sentir o cheiro do mar, nunca mais acordar amassado porque perdeu a hora, nunca mais trocar o almoço saudável por um chocolate bem grande e gorduroso, nunca mais ter medo de altura, nunca mais abraçar um amigo, nunca mais olhar nos olhos da sua mãe, nunca mais se apaixonar, nunca mais sentir o quente da boca de outra pessoa na sua nuca, nunca mais sofrer, nunca mais querer tanto uma coisa com tanta força que o universo conspire, mesmo, a seu favor, nunca mais errar, nunca mais amar, nem odiar, nunca mais escrever o que sente, nunca mais sentir.

Desistir da vida é olhar de frente pro nunca mais.

E por mais que doa, por mais que seja injusto, por mais que eu chore e que a minha sensibilidade excessiva cause em mim muitas outras coisas que não só alegria ou amor, eu não quero desistir das sensações - as boas, as ruins e as idiotas - nunca. Eu não quero desistir dos finais definitivamente felizes ainda, mesmo que, esses finais tenham vindo, até agora, só pela metade.

Eu ando em círculos tortos tentando achar um jeito de enxergar as coisas com menos precisão pra eu não precisar tanto de motivos exatos pra continuar caminhando. E, ainda que, minha vida titubeie aqui ou ali, tudo o que eu posso fazer por mim mesma, no final das contas, é fingir que a vertigem não enjoa, e seguir em frente.

Pra mim, espertos não são os suicidas de póstuma, aqueles que maquiam a realidade com seus entorpecentes-amigos, e matam a vida de pouquinho em pouquinho só porque não têm coragem de fazer isso de uma vez, como os de véspera.

Sábio, mesmo, é Johnnie Walker, que há anos mata um mundo de covardes, mas continua andando.
[Rani Ghazzaoui]


.::. No inferno astral dos trinta dias que antecedem o aniversário.
Acho que o meu lance é não ficar velha, crianças.
Uma beijoca.


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