Sábado, Fevereiro 24, 2007

MINHA CERTEZA NÃO É CERTA



"...Pois tudo o que se sabe do amor/ É que ele gosta muito de mudar/ E pode aparecer onde ninguém ousaria supor..."
[adriana calcanhoto, na voz de marisa. é de apertar o repeat. incrível.]


.::. Na minha frente havia dois caminhos. E eram, os dois, floridos.

A vida inteira não me faltou despudor e desprendimento de abandonar a metade do que quer que fosse, para me completar do que quer que me enchesse mais por aí a fora. Não me faltou coragem de tentar de novo, mesmo quando ardia por dentro e aquilo que batia sozinho, no escuro, pedia pra eu parar, por favor.

Fantasiada de carência, a minha liberdade passeava folgada por toda parte.

Ouvindo Marisa Monte em notas doídas e compassadas. Comparadas a Chico Buarque, tristemente profundo, desafinado e verdadeiro. Se Chico fosse afinado, seu samba seria a perfeição, e há de se convir que muita gente já derrama litros de emoções com a imperfeição, imagine então, com o contrário. Chico emociona porque tem a verdade errada das coisas; Marisa dói, porque é bonito e, beleza demais, machuca.

Procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem.

E tanto tempo passou desde quando era fácil depositar as culpas e os fracassos na vontade de ter afago de quem quer que fosse. Afago pra chamar de seu. Faz tempo que a minha vontade de cafuné virou vontade de quebra cabeça, sem frestas, sem furos, nem espaços por onde pudesse fugir a minha metade torta.

Enquanto o tempo passava, a minha certeza de uma só metade ficou perdida no meu quebra-cabeça completo de peças sem encaixe.

Mas eles são dois. Dois, e apenas dois, de tantos que falam comigo todos os dias, dentro do meu cérebro apressado nas ruas de São Paulo. São eles que andam comigo nas ruas arborizadas dos Jardins e pelo fedor calorento da yakisoba da Avenida Paulista. Andam comigo - e em mim - aonde quer que eu vá, de lá pra cá. Andam de fora pra dentro de mim, e saem de mim ainda mais fortes gritando paródias pelo mundo.

O poeta é um fingidor.

E da hora que eu acordo, até o último frame de segundo em que meus olhos se mantém abertos, o radar sensível que - por alguma razão - se instalou dentro de mim, capta as nuances e armazena. Sou um arquivo ambulante de coisas pela metade, mas a verdade é que, mesmo em pedaços, a minha mágoa é inteira porque, quando o mundo inteiro grita as desilusões de todas as pessoas no seu ouvido, acaba-se sofrendo um pouco por cada uma delas, também.

Sofrer vocês é sofrer a minha eterna dúvida de não saber o que é melhor pra mim.

Começo coisas e paro pela metade não porque eu não queira ver o final feliz se estampar no meu rosto desacreditado. Interrompo o gozo no meio porque, pra mim, a aflição dos novos começos atropela a calmaria do que já é meu.

Não é que eu não ame você, é só que eu não tenho certeza.
Os Strokes têm razão.

Mas a minha racionalidade se perdeu justamente onde eu a encontrei. Naturalidade demais me rendeu infelicidade, mas quando resolvi ser simetricamente certeira, perdi a emoção.

Finjo, então, ser dor. Aquela que sinto de verdade.
E vou.

No estreito do meio das decisões, esperando não haver escapatória, ignorando a visão das laterais, curvada, escondida, cardiacamente apressada por um final que, nem eu mesma, poderia palpitar.

Na minha frente há dois caminhos. E são, os dois, floridos.
Eu continuo sem buquê.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E o carnaval passou pra vida poder voltar ao normal, crianças.
Welcome aboard de novo!


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Domingo, Fevereiro 11, 2007

ELA NÃO VAI PARAR



"Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino prá lá ..."
[devia ter uma lei no mundo, obrigando todos os homens terem, ao menos, um "quê" de chico buarque.]


.::. Felicidade é uma coisa estranha.

Estar feliz, eufórica, fora de si por alguns minutos gigantescos do dia, sorrir pro nada, ficar linda com qualquer roupa. Deus, como é estranho.

Ela olhou pro espelho encantada com a imagem refletida e fez força. Tanta que quase chorou de verdade. Mas nem mesmo a força conseguiu fazer com que ela enxergasse a si mesma naquela imagem marcada por lápis, rimeis e sombras. Era por debaixo das cores vibrantes que se escondia a mulher que ela guardava tanto no colorido pra poder desabrochar um dia, sem cor, no romance preto e branco que ela sonhava quando fechava os olhos de supercílios.

Dançava desleixada de propósito, pra forjar a emoção inata aflorando por todas as células do seu corpo penso, no meio da multidão de mulheres padronizadas, dançando pé direito-pé esquerdo, suas blusas balonê, suas pulseiras exageradas, seus sorrisos precisamente moderados até a vodka subir pra cabeça arrependida das meninas perdidas.

Ficou pensando, por um tempo, que talvez ela fosse a única das mulheres a gastar muito mais do que as 24 poucas horas de um dia pensando em bobagens. Mas descobriu que, por mais bem resolvida que seja a mulher, por mais pose, por mais que o salto seja quinze e agulha, por mais que o decote não esconda nem a emoção, por mais que o cabelo seja tão liso que deslize os medos, por mais que os olhos sejam tão marcantes que deixem as inseguranças pra depois, enfim, por mais que fossem lindas, seguras e bem decididas, eram ainda assim, mulheres.

Dançava ao ritmo da melodia que desconhecia, mas se entregava às vibrações dentro dela dizendo que, se estava feliz, que assim fosse, que assim estivesse, que não procurasse tanto pêlo em ovo porque, uma hora, acabaria por achar, mesmo, uma peruca inteira. E não era por medos inteiros que, agora, ela estava feliz.

O sem cor, não necessariamente, significava a felicidade - pensava ela -, apoiada pelo blues da tristeza que ela ouvia todas as noites. O azul das vozes doídas e profundas. Ela não agüentava mais sofrer profundo esperando o dia do escuro quentinho chegar.

Dançava por horas seguidas dentro da sua cabeça amargurada pela falta de ritmo das coisas, pela melodia apagada das pessoas, pelos sons perdidos nos silêncios que faziam o mundo girar ao contrário e as pessoas se olharem torto, tanto.

E foi no canto da pista, olhando ao redor dela mesma que ela descobriu que viver não emocionava sempre, mas emocionava muito. E que o importante não era o espetáculo central, as grandes luzes e os passos simétricos. Simetria demais era chato e ela precisava de emoção à flor da pele para continuar rodando.

Dançava circulando sua alegria fugaz, então. E agradecia baixinho dentro de si que os frios na barriga fossem, assim mesmo, atípicos. Viver de borboletas no estômago poderia causar enfarto do miocárdio, e ela, ela ainda precisava rodopiar muito.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, boa volta às aulas. E bem vindos, bixos casperianos.


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Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

SINTO MUITO, MAS NÃO SINTO NADA.



"Já não sei mais porque/ Em ti eu consigo encontrar/ Um caminho, um motivo, um lugar/ Pra eu poder repousar meu amor"
[los hermanos. eles sim sabem o porquê.]


.::. Não tem sido fácil.

Nenhuma das coisas que eu faço, por fazer, por continuar, por não poder parar de escrever uma história, mesmo que picada, para poder chegar onde é fresco e, no final do dia, você vem. No final do dia você vem de verdade.

É no trânsito sempre que você aparece pra mim. Aparece no metrô, na escada rolante, no caos dos restaurantes no horário do almoço, no meu banho pela manhã, na festa, no bar e na novela das oito.

Tanta gente, tanta confusão, tanta coisa. Eu deixei de sentir tanta coisa por aí à fora porque, lá fora, é feio, fedido e sujo, e juro, já deu no saco ter que me sentir um saco de lixo fazendo a caridade de recolher entulhos por ai. Não dá mais tesão sentir tesão fugaz.

Os dias passam lerdos pela necessidade que a gente tem, agora, de se arrastar, também, para o final das escolhas que vão deixar de ser um monte de vontades misturadas e acumuladas para se tornarem funcionais, pontuais e palpáveis, finalmente. A gente se esfrega forte no chão que é pra não ter que voltar pro fundo do poço nunca mais. A superfície está rasa e cheia de oxigênio esperando pelo respiro, de qualquer forma.

Mas é estranho acordar de manhã e conviver, todo santo dia, com o reflexo me contando que, aquilo que se vê, é uma casca vazia. É difícil manter uma conversa de mais de três frases com alguém que exala testosterona, quando nenhuma virilidade do mundo é capaz de vencer a batalha contra os super-poderes, as super-habilidades e o super-espaço do super-homem, não o da capa azul marinho e sunguinha vermelha bem a la babado-bee, mas sim aquele que cresceu devagar dentro de mim, durante todos esses anos.

Difícil seria explicar pra mim mesma tantas certezas abafadas pela lucidez de uma vida regrada, linear e sem emoção. Tantas vezes tentei abrir a boca pra explicar pra meio mundo o porquê de o meu mundo ser melhor agora, ainda que com essa metade de mundo entre a gente. Acabava de boca mole e garganta seca porque a felicidade não é exatamente uma coisa bem recebida por quem não vai desfrutar dela.

Os dias têm sido chatos, as noites longas, os banhos frios, o olfato nulo, a visão turva, o tato preciso... e sozinho.

As coisas passam coloridas por mim, mas não conseguem brilhar o suficiente pra ofuscar o que berra fosforescente lá no fundo. Colorido por colorido, escolho o bom e velho preto e branco que, inclusive, encaixa melhor com a melancolia. Se for pra sofrer, que sofra bonito.

Deixo que eles passem todos por mim, então. Deixo meus olhos se fecharem , meu coração estancar um pouco do sangue, minhas mãos se aquietarem onde eu possa pensar melhor em você. Deixo meu semblante de gargalhadas exageradas se acalmar num sorriso breve e lateral, tristemente esperançoso.

Sofrer a falta de você dói tanto que me anestesia da dor.

Não tem sido fácil, eu sei. Mas - sem sentir nada por te sentir tanto - eu decidi esperar por aquele dia em que, no final, você vem. De verdade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, a minha falta de tempo!

Crianças, preciso agradecer todo mundo que tem posto texto meu nos profiles de orkut, nos blogs, nos flogs...
Enfim: à todos, muito obrigada, voltem sempre, uma beija e tchá!


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