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A CANTIGA DE VOCÊ
"Tonight I'm tangled in my blanket of clouds, dreaming aloud."
[walking after you, do foo fighters, merecia ser ouvida, pelo menos, uma vez ao dia.]
.::. E a vida continuou correndo segura só pra eu não ter motivos gritantes para uma mudança de destino repentina. Vai tudo bem no trabalho, tudo bem nos estudos, tudo bem em casa, tudo bem com os amigos, os amores, as faltas de amor e os dias de chuva. Chove dia sim, dia não. Mas, por mais que chova quase sempre, há do "dia não" de respiro. Eu tenho brechas largas no meio do meu sofrimento, pra eu não sofrer constantemente e não alegar a morte da coitada. Minha vida boa me impede de ser coitada o tanto que eu queria.
Eu queria, na verdade, conseguir jogar todos os meus vínculos doces com esse lugar amargo e correr pros seus braços frescos que me esperam tanto, há tanto tempo. Mas a grande verdade é que por mais turvo e oprimido que esteja sendo tudo por aqui, foi aqui que tudo se fez, foi onde eu marquei meus espaços, minhas manias, meus medos, minhas certezas, minhas mentiras, minhas verdades.
É aqui o meu dia-a-dia sem muitas máscaras porque viver mascarada o tempo todo transpira demais e transborda pelos cantos quem eu sou. Eu acabo me entregando ridiculamente por ai, mesmo não estando em lugar algum.
Tantas vezes eu dormi vazia e me enchi de você por tantos respiros frenéticos, contidos num espaço de segundo, na etapa curta do sono em que os sonhos acontecem e nada é tão grande que consiga separar a minha boca da sua, a nossa verdade da frieza simétrica do mundo. Tantas outras eu dormi cheia de esperanças e acordei com azia da vida por ter me empanturrado de sonhos e por não terem inventado ainda sal de frutas contra realidade.
Mas você continua em mim. Eu posso desligar o computador, posso quebrar a televisão, nunca mais ler jornal, fechar os olhos, apertar os punhos, tapar os ouvidos, encher minha boca de tantas outras palavras, de tantos outros cantos que não falem de você.
Mas não, nada adianta.
Não te cantar não significa não te escrever nas minhas entrelinhas, tapar os ouvidos não significa não te ecoar o tempo todo dentro de mim, no escuro do que é ser eu. Murros ao vento não impedem a dor, olhos fechados também conseguem chorar sua ausência. Jornal, Internet, televisão, fax, rádio, código Morse, sinal de fumaça... como se a nossa sintonia dependesse, mesmo, disso.
É como naquele clipe do Foo Fighters: todas as certezas da minha vida bem na minha frente, depois da parede de vidro.
Incontável o quanto eu prometi a mim mesma não te sofrer, não te desesperar, não te lutar, não te falar à quatro ventos pra não te gastar em palavras. Mas você continua latente bem na minha frente, todos os dias, todos os minutos, em cada suspiro de alegria, tristeza ou vazio que saia de mim. Todas as manifestações de vida, na minha, são você. Toda a vida que eu guardei e gastei em porções mínimas, sobraram pra durar em você.
Eu que não sei de tantas coisas, continuo crente no que, pros outros, parece incerto. Eu que sempre fui tão imediatista e fugaz, sento agora no cantinho mais confortável de mim, sem aquele desespero do começo, pra esperar você.
Eu sei que você vem.
[Rani Ghazzaoui]
.::. Bom resto de semana, crianças queridas!
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