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UM TRIBUTO AOS NÃO MEDÍOCRES
"Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo."
[Oscar Wilde]
.::. Me lembro de ficar imóvel, ouvindo cada uma das palavras que, por algum motivo não matemático, eu conseguia entender, suspirar. Entravam dentro de mim se misturando com meu sangue, meus pensamentos, com o que eu era. Todas as coisas que eu era, e que por alguma coisa que até hoje não consigo explicar, se fizeram em mim. Assim, exatamente como olho no espelho hoje.
Tanto da minha infância eu devo a um livro, um só. Eram muitos os outros, eram muitas de mim nos outros, mas o livro que me fez ser quem sou hoje - sentada em qualquer cadeira rotatória, escrevendo estórias, pensando demais em tudo, sentindo que muitas vezes o mundo não vale muito, que as pessoas não valem nada - eu devo àquele livro de capa azul, branca e amarela.
" - Como ele não é mais bonito, não tem mais utilidade. - disse o professor de Arte da Universidade."
E muitas vezes curvada na minha feiúra eu sabia que não era exatamente por ela que eu estava inútil. Eu talvez, e por tantas vezes, me fiz feia justamente por me sentir sem utilidade. Não fazia idéia - assim como ainda não faço -, que a beleza está tão além das utilidades forçadas. Está tão aquém dos outros.
"Nas palmas das mãos da criança estavam as marcas de dois pregos, como havia marcas de dois pregos em seus pezinhos.
- Quem ousou te ferir? - perguntou o Gigante. - Dize-me, para que eu possa tomar minha grande espada para matá-lo.
- Não - respondeu o menino -, pois essas são as feridas do Amor."
Desde os meus seis anos, então - quando o Gigante Egoísta, me contou do seu castelo, do seu jardim onde não chegava nunca a primavera, onde o inverno doía, e onde o amor trazia felicidade, mas matava - eu aprendi. E algumas vezes fui eu o menino, mas tantas outras, eu fui o gigante.
"Mas o amor não está mais em moda, os poetas o mataram. Escreveram tanto a respeito que ninguém acreditou mais neles, o que não surpreende. O verdadeiro amor sofre, e cala.(...)O romantismo pertence ao passado."
Eu era tão pequena e já tive que entender. O passado dele não fazia nem em sonho, parte do meu passado, nem do mais remoto. O meu presente era o sonho mais alvo de futuro que ele poderia ter, um dia. E mesmo assim ele acertou. O romantismo era antigo até mesmo pra ele, que em 1888 disse. Ele disse e, imperceptivelmente, eu entendi. Podem passar cem, duzentos, mil anos. As feridas de quem sente, não mudam e , às vezes, eu tenho inveja dos fúteis. Não deve ser tanto gozo profundo, mas tenho certeza que dói bem menos.
Eu poderia listar tantas outras passagens, de tantos outros contos incríveis, que eu não sei se tantas outras crianças leram. Talvez se tivessem, pra mim, viver não seria tão solitário, olhar pros outros não seria tão preconceituoso, me relacionar não seria tão difícil. Ter parâmetros de imperfeição humana desde cedo fez de mim alguém tão capaz de ver as coisas feias em mim e nos outros que a vida não ficou mais tão bonita.
Os anos passaram, os livros mudaram, o jeito de se contar um coração partido se simplificou. Aliás, falar "coração partido" ofende os moderninhos que acham tudo babaca e emo. Eu sou um desses moderninhos.
Mas hoje eu acordei e vi meu velho livro, em cima da minha estante. Sujo de poeira, a capa meio esgarniçada, as folhas bem amareladas. O de fora não me importou porque eu sabia que, dentro dele, todas as minhas lembranças permaneciam. Depois de tantos anos e de tantas outras palavras, era pra essas que eu voltava sempre.
Tantas coisas disseram dele. Falaram da homossexualidade, dos textos provocativos, de imoralidade. Trancaram o criador dos meus sonhos numa prisão. Meu cu que ele era gay. O que isso muda, afinal de contas?
E ainda cismam todos em contar para as crianças sobre as chapéuzinhos, as rapunzéis, as brancas chatas e as belas drominhocas. Preferem proliferar o de sempre porque ser mais do que medíocre assusta desde sempre. Mas pra mim, entre todos os contos de princesas, eu fico com as "Histórias de fadas", do Oscar Wilde. As fadas são imperfeitas porque a vida não é perfeita e, no final das contas, nem sempre o príncipe chega para o final feliz.
Imoral não é ser homossexual, ou ser provocativo, ou ser inexoravelmente triste - mesmo em histórias para crianças.
" - Receio que o tenha irritado - respondeu o Pintarroxo. - O fato é que contei a ele uma história com moral.
- Ah! Isso é sempre uma coisa muito perigosa de se fazer - disse a Pata.
E eu concordo inteiramente com ela."
Imoral é a ignorância. Eu também concordo inteiramente com a Pata, e com Wilde.
[Rani Ghazzaoui]
.::. Uma análise saudosista para uma época não menos nostálgica: o Natal.
Aproveitem o de vocês, crianças. Papai Noel não existe, mas ainda existem as noites felizes.
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