Quinta-feira, Novembro 30, 2006

O MENINO DOS MEUS OLHOS



"Nobody said it was easy/ No one ever said it would be so hard"
[o dia sempre fica mais calminho com coldplay]


.::. Tantos rapazes passaram pela vida daquela moça que ela acabava indo e vindo, começando e terminando, rindo e chorando sempre, tudo junto e ao mesmo tempo. Acabava não aproveitando muito a emoçãozinha do durante porque sofria pensando no depois; mas aí na hora de chorar pelo depois ela já tinha chorado muito e partia pra mais algum durante assim, sem esquentar muito a cabeça.

Foi sempre assim. Desde que ela consegue se lembrar, ou contar, foi assim. Eles aqui ou ali, tanto fazia. Era sempre o mesmo desfecho sem graça para a mesma história repetida.

E ela tinha uns 16 anos quando ele apareceu na vida dela. Na época ela mal conseguia diferenciar aquele rapaz de todos os outros e, pra falar bem a verdade, ela só percebeu de quem se tratava dia desses, quando começou a fechar seus olhos antes de dormir e percebeu que a imagem dentro do escuro debaixo das pálpebras dela, era dele. Percebeu que há muito tempo era ele. Percebeu que todos os outros rapazes nunca seriam páreos pra ele porque ele não estava nas coisas que ela via somente, ele estava também - e principalmente - nos olhos dela quando estes estavam fechados. Ninguém competia com ele porque ele estava nela, dentro dela.

Só que a vida nunca foi uma grande amiga dessa moça, nesse sentido. Todas as vezes que ela pensava em abrir os olhos e libertar o rapaz especial de dentro dela, a vida insistia em a fazer continuar sonhando. Às vezes era bom sonhar e ela mesma não queria abrir os olhos, mas havia outras vezes que o sonho ia virando pesadelo, ele corria perigo, ela queria acordar, queria tirar ele dali... mas não conseguia.

De todos os homens do mundo, ele era o que ela mais admirava. Todas as coisas que ele fazia viravam estórias encantadas na cabeça dela, ele era o príncipe que escalava o castelo, o cavaleiro que ganhava a batalha, a coisa mais brega e mais bonita que ela conseguia pensar sempre, era ele. E ela descobriu que não é vergonha ser brega para ser bonito. Ela estava cagando pra quem a achasse brega.

O tempo foi passando e a distância entre ele e a realidade foi diminuindo. Às vezes ela abria os olhos assustada depois do sonho e era como se ele estivesse realmente lá, era como se ela pudesse mesmo sentir o cheiro, a presença. Tantas vezes ela foi dormir contorcida, apertada a si mesma, desejando fundo que no lugar dos travesseiros e das vontades, fosse ele. Ela só queria que fosse ele.

Mas não foi.
Não dessa vez. Não foi de novo.

E ela conta os dias, as horas e os problemas que faltam ser resolvidos pra eles conseguirem finalmente ter o final feliz do conto de fadas. Ela o guardou há muito tempo num lugar muito seguro, que nenhum dos seus namorados de papel da vida real vai conseguir chegar algum dia. Porque eles, os outros, estavam dos olhos pra fora: ela os enxergava, se divertia, tocava, sorria, mas em hipótese alguma os levava para dentro dos olhos dela.

De tanto implorar para acordar, então, foi exatamente isso que aconteceu. Só que, por hora, o príncipe cheio de defeitos encantadores ficou lá dentro, lutando pra sair, ainda. E o ritual sagrado segue de noite em noite, numa espera angustiante, mas que um dia vai passar, há de passar.

Às vezes uma pessoa ou outra diz a ela que não se pode viver assim, fechando os olhos pras coisas à sua volta. Mas a moça, agora tão esperançosa, não só fecha os olhos como também, tapa os ouvidos.

Tantas pessoas passaram por ela, tanta coisa foi dita, tantas promessas que jamais foram cumpridas e ela fica pensando sozinha que, se ela já perdeu tanto tempo com sentimentos de papel, vale a pena - e muito - esperar por alguém que há tanto tempo faz parte da parte mais íntima da sua vida: o seu sonho de ser feliz.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom final de semana, crianças.


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Segunda-feira, Novembro 27, 2006

O QUE NÃO SE DIZ



"Levanta e te sustenta/ E não pensa que eu fui por não te amar"
[Los Hermanos]



.::. Fazia frio naquele dia e cada pelinho do braço, da nuca, das bochechas se arrepiavam. Fazia tanto frio que ficava difícil não pensar nas coisas que eram quentes, mas que de mornas gelaram num segundo no meio do caos de todo dia, no meio da confusão que estava tão organizada na minha vida há tanto tempo.

Fiquei pensando em quantas vezes eu mudei de expressão, quantas vezes precisava de lágrimas para aliviar, mas me vieram sorrisos para fingir estar tudo bem, para eu mesma acreditar que sim, estava. Quantas vezes era coração mas eu ficava repetindo o mantra de quem se faz de moderna, de quem se perdeu no caminho e acabou se contentado com as coisas que achou pela estrada. A minha estrada tão tumultuada, tanto trânsito, tanto sol do meio dia, com tantas desilusões e tantas vontades que ficavam lá no final dela, esperando eu conseguir chegar.

Tanto sentimento contraditório em uma história tão breve, por enquanto. Tanta gente diferente gritando a todos os pulmões suas vontades e segredos... e me dizendo sempre a mesma coisa. Depositando em mim um pedaço de si e querendo um pedaço meu em troca porque, para toda ação, há uma reação e ninguém é benevolente se não vai ter retorno. Má hora então, eu pensei, porque a fase da vida está mais para egoísmos do que para altruísmos. Não estou pra ninguém agora, não me incomode.

Mas me incomodam, e eu me incomodo de não conseguir ser a menina rosada que sorria depois de um beijo, que beijava de olhos fechados porque se entregava. Eu tenho medo de nunca mais conseguir me entregar a alguém porque me entreguei ao meu medo de gostar de alguém de novo. A eterna paúra de não conseguir caber o coração dentro de si, de esperar telefonemas, sorrisos sinceros e beijos na testa de respeito de verdade. Eu não sabia mais o que era respeitar de verdade.

Todas as mãos dadas juntas não serviam para a mão estendida que eu pedi na hora em que eu precisava, e eu juro que eu ainda precisava de você naquele dia que você resolveu não estar mais aqui. Me fez jurar em vão que não iria sofrer, porque eu sofri tanto, tanto. Mas pela primeira vez na vida foi em silêncio, um silêncio da boca pra fora - e dentro a ruptura do cheio, o vácuo, o estranho, o escuro, o nada. Eu deveria me sentir sem nada porque eu não tinha mais você, mas tudo o que eu conseguia sentir era medo de nunca mais ter ninguém por ter amargado muito e perdido a medida. Medo de não querer mais absolutamente nada perto da nossa cumplicidade que eu achava ser de verdade, mas não era. Medo de apostar de novo em tantas coisas que depois, não seriam.

Eu acreditei tanto em você. E o maior motivo da minha crença não eram as nossas risadas, os nossos carinhos, as nossas tardes de conchinha, as nossas noites de gordinhos, os nossos programas de índio, as nossas viagens de improviso, os nossos segredos contados pelos olhos, as nossas descobertas, o nosso amor. Nada disso era o meu maior motivo. Nenhuma briga resolvida, nenhum ciúme infundado, nenhuma discussão com final feliz, nenhuma manha de menina mimada, nenhuma pessoa que tentou atravessar nosso caminho e não conseguiu. Não era isso que me dava certeza de você. Eu acreditava em você, porque você foi a primeira pessoa que me fez acreditar em mim.

Mas você foi embora pra mostrar que as coisas especiais não eram só minhas e não seriam só da próxima também. O seu medo de amar alguém completamente só era vencido pelo seu medo de ficar sem amar ninguém. E isso você não fazia, nunca vai fazer.

Meu subconsciente não entendeu muito bem e você aparece noite sim, noite não para assombrar as expectativas de futuro e remexer no que acabou mas está bem mal resolvido. A dúvida da rejeição passa pelas frestas largas da minha certeza que já foi e voltou tantas vezes que nem eu mesma consigo mais dar crédito. Você foi o filho da puta e quem ficou sem perspectiva fui eu. Tão ridículo fazer a coitadinha, mas tão injusto eu me sentir assim por você.

E me perguntam em tom de casualidade e com certo olhar de piedade por que diabos você, de uma hora pra outra, resolveu ser assim, tão cuzão. Eu respiro fundo e penso comigo: é, eu também não sei.
[Rani Ghazzaoui]



.::. Crianças, a Tati Bernardi lançou um livro e rola uma agradecimento especial pra mim lá. Aviso mais qdo chegar perto do lançamento.
E beijo.


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Sexta-feira, Novembro 17, 2006

MEU MINUTO DE SILÊNCIO



"Debaixo dos caracóis dos seus cabelos/ Um soluço e a vontade/ De ficar mais um instante."
[Caetano Veloso]

"Quando você me deixou meu bem/ Me disse pra ser feliz e passar bem/ Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci/ mas depois como era de costume, obedeci."
[Chico Buarque]

"O que me importa seu carinho agora/ Se é muito tarde para amar você?"
[Marisa Monte]



.::. Era uma noite estranha e ela ficou se perguntando por que será que as coisas todas dela que iam embora, acabavam voltando hora ou outra. Não sabia se era insistência de quem foi e se arrependeu no meio do caminho ou se eram as portas da casa, sempre abertas, destrancadas dando vez pra uma mágoa do passado voltar, sem nem ter que bater na porta. Achava estranho as viradas e invertidas que ela dava nas coisas, nos sentimentos, nas pessoas. Achava um saco ser tão volúvel quando tudo o que ela mais queria era menos vulnerabilidade. Achava injusto demais a sensação ruim de nunca ter achado aquilo que ela tanto procurava.

E eu fiquei ali, bem paradinha no meu canto, olhando a garota bonita se lamentar por tantas coisas que ela, por mais que quisesse muito, não tinha. Fiquei pensando nas horas que eu mesma já passei fazendo isso, num passado não muito remoto. As lágrimas que eu sequei sozinha, os abraços que viraram buraco, as risadas rompidas num silêncio que eu demorei pra entender que poderia sim ser benéfico pra mim de algum jeito. Sempre tem algum jeito.

Talvez ser triste atraia muito mais olhares - como foi atraído o meu - do que simplesmente optar pelo não ligar, pelo nada fazer, pelo mandar se foder, literalmente. Eu nunca fui uma pessoa do, literalmente, foda-se. Sempre muito preocupada com todas as coisas que viriam de todas as coisas, sempre querendo entender os porquês de todos os tudos. Sempre no plural, nunca compacta.

Mas os anos passaram por mim nada sóbrios e não foram macios os dias no meu rosto. Eu não tive tempo de cantar alguma música do Caetano enquanto acordava embaixo dos caracóis do cabelo de ninguém. Tudo pra mim sempre foi muito mais "olhos nos olhos" e "o que me importa". Tão Chico e Marisa, tão doído que dava dó. Uma coisa.

Só que aí eu acabei mudando. E foi mudança aos poucos, porque até hoje me dou conta de coisas minhas que já não estão mais lá e, quem roubou, eu jamais vou saber. O sorriso mudou e a vontade de sorrir pra qualquer pessoa também, graças a Deus. Foi por sorrir tanto de graça que eu paguei tão caro por todas as coisas que me aconteceram.

Às vezes me pego olhando ao meu redor e vendo tanta menina parecida comigo. Tanto sentimento gritando de bocas caladas e escorrendo de peles secas. Tanta coisa acontece com a gente. Tanta gente passa pela gente, mas tão pouca gente realmente fica. E eu sei que, talvez, eu tivesse que ficar triste. Talvez eu tivesse que continuar secando lágrimas, abraçando o vento e rindo no vácuo, mas o fato é que eu não consigo. Eu não consigo mais ser triste só para mostrar que um dia eu fui - ou achei que tivesse sido - feliz.

Aprendi com os meus próprios erros que sofrer não torna mais poético, chorar não deixa mais aliviado e implorar não traz ninguém de volta. Aprendi também que por mais que você queria muito alguém, ninguém vale tanto a pena a ponto de você deixar de se querer.

Eu que gritei para tantas pessoas ficarem, hoje só quero mesmo é que elas sumam de uma vez por todas. E em silêncio, que é pra ninguém ter porque se lamentar.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Juízo no feriado, crianças!



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Sexta-feira, Novembro 03, 2006

COM UMA PITADA DE BOM GOSTO



"Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar."
[Chico e Vinícius. Dispensam comentários.]

"Eu vou dar o meu desprezo pra você que me ensinou, que a tristeza é uma maneira da gente se salvar depois."
[E Cazuza? Tem como falar?]



.::. Era manhã sem madrugada porque essa outra tinha secado chata por não ter sido consumada. Era súbito e direto o sol no seu rosto, seu nariz fazia curvas engraçadas pela bochecha, na sombra que desfigurava e fazia a menina franzina ser tão maior do que ela era. Era estranho, mas era bom ao mesmo tempo. Assim fácil, assim completamente incompleto.

A vida dá umas voltas estranhas e no final das coisas elas podem acabar exatamente no começo delas. Mas ela precisava de alguma coisa menos inacabada para poder seguir em frente. Precisava ser completa para poder completar os buracos e as vielas no meio do caminho. Ela precisava chegar ao meio do caminho inteira.

E foi sem querer que alguma coisa, naquela noite estranha, disse pra ela que por mais errado que pudesse parecer, estava certo. Ela quis muito e quem quer muito faz força demais e, mesmo que doa, consegue. Não foi na primeira, nem segunda e nem na décima. Não foi florido, nem corrido, nem demorado demais. Não foi fácil porque se assim fosse ela dificilmente se interessaria.

Tantas vezes falou pra si mesma que não ia mais ser assim. Tantas vezes chorou por horas em ombros diferentes na esperança de, numa dessas, achar o ombro certo e esquecer de todos os outros, de todas as coisas, de tanta coisa molhada e inacabada. O sol desfigurou a verdade de sonho, mas a noite trouxe de novo a estória que ninguém contou pra ninguém, por ser dela e de mais ninguém, pela primeira vez.

Muitas vezes acreditou no óbvio e teve medo de olhar pra frente com um olhar menos apreensivo que pudesse, talvez, fazer ser a vez dela de voar. É verdade que vieram os bacanas, os interessantes, os bonitos, os babacas. É verdade que vieram as crenças, as esperanças, os sorrisos, os desapontamentos. É bem verdade, também, que ela vivia jurando de pé junto que ia parar por ali, pra sempre, por esse ano, por um mês, por hoje.

Só que não houve fórmula infalível dessa vez, dessa vez não dependia dela e muito menos do empenho dela - embora mesmo assim ela tenha se empenhado só para não perder o eterno costume de carregar tudo nas costas para depois dizer que foi sofrido. Achava bonito sofrer. Achava poesia nas coisas idiotas. Achava que um dia isso ia valer à pena.

E a gente não vai saber, ainda, se dessa vez valeu. Ninguém vai saber, nunca, por completo por onde andaram dadas com outras, as mãos dela. Não dá para adivinhar quando ela sente e quando ela finge e quando ela simplesmente não tem controle do que passa por ela turbulento ou calmo.

Mas vale à pena - pra ela, pra mim e pra você - olhar direto e sempre pra frente. Vale à pena fechar os olhos para o que não serve e abrir assim, só quando der mesmo vontade. Vale à pena agredir as morais questionáveis da vida e, definitivamente, não passar vontade. Valeria à pena, inclusive, se empenhar em algum final bonito, poético e pensável para esse texto. Só que eu acho que para ela, às vezes, falta vontade.

E chame egoísta se quiser, mas acho que muito certo faz a pessoa, de guardar o motivo dos seus sorrisos, só para ela.
[Rani Ghazzaoui]



.::. Aproveitem o feriado. Se joguem na diversão, minhas crianças!


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