Segunda-feira, Agosto 14, 2006

A FALTA DELA



"...quem sabe de tudo não fale, quem não sabe nada se cale."
[Marisa Monte]



.::.Está vazio.

Todo o a redor, o meio, o fim, o começo, o errado, o certo, o meu, o dele, o nosso, o avesso, o de ninguém, o que ninguém quer, o que nem mesmo eu sei se quero.

Estou vazia.

Todas as certezas, as dúvidas, os medos, as seguranças, as esquinas, os travesseiros, as gavetas, as entranhas, os abraços, as noites, os dias, as tardes e a eterna sensação de sentir o mundo.

E não é uma questão de desamor, ou de amor demais, ou de matéria física preenchendo um espaço que está ali para ser preenchido por alguém mesmo. É um vácuo estranho mostrando que falta alguma coisa tão inerente a mim que é capaz de preencher o buraco que nem o ar preencheu. Ele correu pra vida, mas eu corri de mim mesma e não achei o caminho de volta. Fazendo sempre muita força para não demonstrar minha fraqueza.

E eu encho todas minhas partes vazias de pessoas que não inflam o suficiente nem para me fazer mais macia. Além de vazio e escuro, está seco. Ressacada de tanto vazar por um dia ter pensado que as escolhas todas já haviam sido feitas e que a minha parada final era bem ali, no sofá vinho, com a pizza do lado e você no meu colo.

Todas as coisas que eu fiz com você, pra você, por você. Todas as vezes que eu não dormia pensando no tanto que a gente ia ser feliz quando a porta do corredor, as escadas da casa e os sensores de luz - mostrando que tinham pessoas acordadas perambulando - não nos atrapalhariam mais.

Estamos vazios.

Eu fui obrigada a cuspir fora todo o delicado que existia dentro de mim quando você resolveu trocar a roupa de cama, a cueca usada, as fotos do mural, o porta retrato da sala e a namorada da vez.

E eu acabei indo embora sem conseguir olhar pra trás, olhar direito pra você e tentar entender onde foi que tanta coisa se perdeu, onde foi que eu depositei aquele amor maluco por você, onde foi que eu esqueci o meu coração, porque agora eu estou sem ele.

Eu fiquei intragável e a culpa é da sua mania quase que delinqüente de ter alguém por perto, e da minha vontade quase que psicopata de grudar no seu pescoço e arrancar de você, à força, tudo o que você levou de mim no dia que resolveu não ser mais meu.

Eu queria montar em você pra te fazer sentir o peso de estar frígida diante da vida. Eu queria socar a sua cara quadrada pra você entender que a falta que eu sinto não é sua, é minha. Eu queria resgatar a minha fé no bom senso para não odiar tanto o que eu não consigo mais amar. Queria não me importar com as coisas que me lembram dos toques, dos cheiros e das vontades que não precisavam ser abafadas para existir, elas apenas existiam.

Mas o que eu queria mesmo, e muito, era juntar meus pedaços perdidos em você, para que eu pudesse continuar andando por aí inteira e para que esse vazio que me enche de coisas ruins, passasse.
[Rani Ghazzaoui]



.::.Tardo mas não falho. Ótima semana, crianças!


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