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OS INJUSTOS VÃO MORRER DE CINTA-LIGA
"Seja o que Deus quiser, noite negra ou aurora; todas as fibras de meu corpo tremulante gritam"
[Baudelaire]
.::.Eu descobri numa manhã dessas que, ultimamente, viver não andava me emocionando muito. Tão triste a constatação que eu acabei não me dando conta que existiam ainda, pequenas coisas, inócuas no meio do quarto bagunçado e da cabeça desorganizada, que podiam me fazer mais feliz.
Um dia, de repente, a pessoa toda certa de si, acorda e descobre que em meio às suas tantas certezas, ainda restavam milhares de dúvidas perdidas nas pertinências acadêmicas. Sufocadas atrás da garganta apertada por um dia no caos da agência publicitária. Rezando baixinho pra que só aquele dia - e não todos os ante e posteriores - fossem caóticos.
E o caos se instala não só no meu mundinho bolha, egoísta e mimado. O caos está lá fora, junto com as crianças que morrem bombardeadas sem, ao menos, ter a mínima noção do que está acontecendo. Menos ainda do que está por vir. A cabeça dói de pensar que a cada rabugentisse minha aqui, algum dos meus, lá fora, corre risco de vida. Eu aqui esbravejando.
O telefone não toca nunca e dessa vez ele, provavelmente, não vai mesmo tocar. Eles bloquearam as linhas telefônicas e a gente que está neste, mas tem família no outro continente, fica sofrendo por telepatia. Tanto apelo emocional bonito em todos os veículos de mídia e quase nenhuma fartura de inteligência na cabeça doente daqueles que defendem a merda da guerra simplesmente pelo fato de não estarem nela. Quem tem cu, tem medo. Mas o cu deles é de ferro.
Acabo desejando com força a cena que passa pela minha cabeça agora. George W. Bush de cinta-liga fazendo seu discurso em prol dos - coitadinhos - refugiados israelenses e dos - mais coitadinhos ainda - soldados americanos. Ele choraria por compaixão aos seus irmãos de mercenagem e compatriotas, respectivamente, e o mundo riria fervorosamente das suas pernas não depiladas. A gravata combinando com a meia calça presa à cinta e todas as crianças que morreram por culpa dele, lindas, vivas e felizes rindo da cara do palhaço, texano, bêbado e ignorante que contava piadas sem graça na televisão.
Cansei de reclamar à toa do meu presidente que, ainda que bêbado, não bate na mulher e nem espanca os filhos. Ainda mais os filhos dos outros.
E eu, tristinha demais, num dia em que quase nada deu certo, chego em casa e deito fundo no sofá, enfio a cara no travesseiro. Quero minha mãe, quero meus quinze anos, quero assistir a todas aquelas sessões da tarde que eu dormi ao invés de prestar atenção. Quero tudo que faça a pontadinha aguda da frustração ir embora. Quero que a vida doa menos, porque eu sempre fui menininha super-protegida que não estava acostumada a sofrer.
Ligo a TV na busca estranha por tudo aquilo que me causa nostalgia boa. Saudade de alguma coisa que eu não sei bem o que é, mas que não está mais aqui, e é definitivo. A televisão, então, diz pra mim que Cortez morreu e eu, fico alguns minutos me perguntando qual parte do "Eu quero MUITO que o Bush morra.", Deus entendeu errado.
Fiquei triste pra caramba, mais do que eu já estava. Ele não era meu pai, não era meu tio, não era amigo da família, primo do meu avô e muito menos algum parente meu que está fugindo da morte lá no Líbano. Mas ele era um gênio e um dos artistas mais completos que eu pude ver. Ele me emocionou em momentos espaçados da minha vida e eu achei o cúmulo da injustiça ter sido ele no lugar de tanta gente escrota que tem por aí.
Fui dormir contrariada, mas não desisti da vida só porque, agora, ela está uma merda. Quantos anos vão passar até outro Cortez surgir de novo, eu não sei. Mas eu entendi que, nessa vida, as pessoas bacanas são raríssimas, mas que vale esperar por elas.
[Rani Ghazzaoui]
.::.Silêncio por ele, porque ele merece, crianças.
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