Quarta-feira, Julho 19, 2006

OS INJUSTOS VÃO MORRER DE CINTA-LIGA



"Seja o que Deus quiser, noite negra ou aurora; todas as fibras de meu corpo tremulante gritam"
[Baudelaire]


.::.Eu descobri numa manhã dessas que, ultimamente, viver não andava me emocionando muito. Tão triste a constatação que eu acabei não me dando conta que existiam ainda, pequenas coisas, inócuas no meio do quarto bagunçado e da cabeça desorganizada, que podiam me fazer mais feliz.

Um dia, de repente, a pessoa toda certa de si, acorda e descobre que em meio às suas tantas certezas, ainda restavam milhares de dúvidas perdidas nas pertinências acadêmicas. Sufocadas atrás da garganta apertada por um dia no caos da agência publicitária. Rezando baixinho pra que só aquele dia - e não todos os ante e posteriores - fossem caóticos.

E o caos se instala não só no meu mundinho bolha, egoísta e mimado. O caos está lá fora, junto com as crianças que morrem bombardeadas sem, ao menos, ter a mínima noção do que está acontecendo. Menos ainda do que está por vir. A cabeça dói de pensar que a cada rabugentisse minha aqui, algum dos meus, lá fora, corre risco de vida. Eu aqui esbravejando.

O telefone não toca nunca e dessa vez ele, provavelmente, não vai mesmo tocar. Eles bloquearam as linhas telefônicas e a gente que está neste, mas tem família no outro continente, fica sofrendo por telepatia. Tanto apelo emocional bonito em todos os veículos de mídia e quase nenhuma fartura de inteligência na cabeça doente daqueles que defendem a merda da guerra simplesmente pelo fato de não estarem nela. Quem tem cu, tem medo. Mas o cu deles é de ferro.

Acabo desejando com força a cena que passa pela minha cabeça agora. George W. Bush de cinta-liga fazendo seu discurso em prol dos - coitadinhos - refugiados israelenses e dos - mais coitadinhos ainda - soldados americanos. Ele choraria por compaixão aos seus irmãos de mercenagem e compatriotas, respectivamente, e o mundo riria fervorosamente das suas pernas não depiladas. A gravata combinando com a meia calça presa à cinta e todas as crianças que morreram por culpa dele, lindas, vivas e felizes rindo da cara do palhaço, texano, bêbado e ignorante que contava piadas sem graça na televisão.

Cansei de reclamar à toa do meu presidente que, ainda que bêbado, não bate na mulher e nem espanca os filhos. Ainda mais os filhos dos outros.

E eu, tristinha demais, num dia em que quase nada deu certo, chego em casa e deito fundo no sofá, enfio a cara no travesseiro. Quero minha mãe, quero meus quinze anos, quero assistir a todas aquelas sessões da tarde que eu dormi ao invés de prestar atenção. Quero tudo que faça a pontadinha aguda da frustração ir embora. Quero que a vida doa menos, porque eu sempre fui menininha super-protegida que não estava acostumada a sofrer.

Ligo a TV na busca estranha por tudo aquilo que me causa nostalgia boa. Saudade de alguma coisa que eu não sei bem o que é, mas que não está mais aqui, e é definitivo. A televisão, então, diz pra mim que Cortez morreu e eu, fico alguns minutos me perguntando qual parte do "Eu quero MUITO que o Bush morra.", Deus entendeu errado.

Fiquei triste pra caramba, mais do que eu já estava. Ele não era meu pai, não era meu tio, não era amigo da família, primo do meu avô e muito menos algum parente meu que está fugindo da morte lá no Líbano. Mas ele era um gênio e um dos artistas mais completos que eu pude ver. Ele me emocionou em momentos espaçados da minha vida e eu achei o cúmulo da injustiça ter sido ele no lugar de tanta gente escrota que tem por aí.

Fui dormir contrariada, mas não desisti da vida só porque, agora, ela está uma merda. Quantos anos vão passar até outro Cortez surgir de novo, eu não sei. Mas eu entendi que, nessa vida, as pessoas bacanas são raríssimas, mas que vale esperar por elas.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Silêncio por ele, porque ele merece, crianças.


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Quinta-feira, Julho 13, 2006

A VERDADEIRA CONCHINHA



"Sou o amor que não ousa dizer o nome."
[quantas vezes precisarei dizer que Oscar Wilde é fabuloso?]


.::.O menino olhava nos olhos dela com um misto de devoção e apreço. Era devoto a cada uma das curvas que o levavam ao deslumbre de saber o que era sentir as mãos na nuca de uma mulher, a de verdade, pela primeira vez na vida. Apreciava devagar cada forma, cada onda, cada curva e cada concha que fazia com que eles estivessem extremamente próximos. Extremamente porque a proximidade se restringia às extremidades frias do corpo dela. Ela que já não era, há algum tempo, mais coração. Ela que já não era menina dócil de pontas quentes. Ela que já era gelo. A pérola dentro das extremidades dela, petrificada e muda.

O menino olhava solene e quieto, porque cabia a ele olhar. Cabia a ele desfrutar de todas as lógicas que saiam da cabeça confusa dela, tão perdida no caos de amores e desafetos que seguiam no ritmo frenético que ela - mas não ele - estava acostumada. Cabia a ele respirar o cheiro doce que emanava da pele lúcida dela, tirando a lucidez dele. O cheiro tão doce, e ela tão amarga.

E todas as vezes que se entrelaçavam os dois, era como se ele apertasse com força demais, por ter medo de vê-la fugir. Ele prendia o ar de tanta força e sufocava, também, o ar eufórico dela que era achatado na falta de trejeitos cafetões dele. Ela que fingia tão bem a vontade de não ter vontade de nada. Ele apertava os braços e comprimia os abraços dela, que não eram abraços de longevidade, mas eram abraços sinceros. Ela tinha ceticismo no amor, mas falsa ela não era. Não com ele.

E ele fingia acreditar que ela era só dele, mesmo que os olhos dela mostrassem sempre que não havia mais algum olhar no mundo que fizesse os dela se fecharem para o mundo em volta. Ela queria gostar, queria tentar, queria ficar. Mas ela só queria. E nas madrugadas que ela estava sozinha, ela morria de vontade dele. Mas nas madrugadas que ele estava com ela, ela morria de vontade de encontrar alguém novo, que suprisse com modos mais adultos e precisos as suas carências e medos, que eram postos pra fora como agressividade, mas existiam dentro dela alvos e mansos, sentados em algum canto escuro de um quarto triste.

A pose toda de mulher e o peso abrupto de carregar o semblante fixo de nunca mais sofrer na vida, na cara, viraram um grande dilema no meio do caminho. Ela jurou um dia pra si mesma, e quem jura não descumpre promessa. Mas tinha um menino no meio do caminho, no meio do caminho tinha um menino e sem se dar conta à primeira vista, ela parou.

Parou depois de um tempão rodando em círculos com medo de frear bem na possibilidade mais remota e acabar entupindo as artérias, que levavam ao músculo pulsante e involuntário chamado coração, de alguma coisa bonita e imatura, que ela não iria dar conta dos danos depois.

E assustado com os carinhos repentinos da menina de semblante esguio e comportamento difícil, ele achou que era justo afastar-se, ele mesmo então, porque sabia que o buraco era bem mais embaixo e que sua vontade de abraçar o mundo não comportava dentro de seus braços uma pessoa que destoasse as atenções pra longe dele, mesmo ela querendo que fosse só ele, sempre. Ele preferiu sofrer calado negando o impulso de desistir da perda do que sofrer ao lado dela o impulso da rejeição gritada todo dia.

Ela chorou suas lágrimas frias por algumas horas e abandonou os pensamentos que levavam a ele e, sem querer, fez com que ele virasse um monstrinho de coração frio, exatamente igual um dia, fizeram com ela.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Bom final de semana, crianças!


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Sexta-feira, Julho 07, 2006

A VACA



" Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem."

[Manoel Bandeira]


.::.Na maioria das vezes que eu reclamei por ter um problema, eu sabia - e nem precisava ir tão fundo assim par sacar - que aqueles problemas todos não eram exatamente perrengues que iriam me tirar o sono de verdade, me deixar doente literalmente e nem, tampouco, fazer de mim um ser humano infeliz e sem perspectiva de vida.

A verdade é que, na maioria das vezes, a gente reclama de barriga cheia. E eu quero que essa frase seja lida literalmente. De barriga cheia.

Ontem, depois do almoço, eu saí da agência com a minha amiga pra comprar um doce e reclamar da vida. Enquanto a gente retorcia a verdade convertendo a nossa futilidade em algo admirável e problemático, a cena do crime aconteceu bem na frente dos nossos olhos tantas vezes preconceituosos.

Aquela mulher, fazendo pose, dando ordens, se sentindo a própria Cleópatra com um escravinho negro à frente. Era a rainha da cocada preta, com o perdão do trocadilho ridículo e infame. Ela era infame, aquela vagabunda.

O menino era miúdo, pequenino, quase raquítico se comparado à voluptuosidade da gorda maldita que fazia ele carregar umas mil sacolas nos braços finos de criança que não come muito. Se ele pesasse vinte quilos, ele estava facilmente - ou dificilmente, no caso - carregando uns outros dez.

E a maldita, mal-comida, mal-amada era tão maldita que nem na cara do menino ela olhava. Ia andando bem na frente, com espaçamento que era pra não pegar carrapatos. Aposto eu que o poddle irritante dela, ela deixa lamber na boca. O menino meio penso, meio bamba, com a camiseta de cabo eleitoral já bem desgastada, meio mulambenta.

E era isso que ele era pra ela. Um menino mulambento a quem ela - na mente preconceituosa e mesquinha - estava fazendo um favor dando uns trocados em troca do trabalho de camelo a que ele se submetia sem ter muita escolha.

Eu olhava de longe e acabei perdendo a vontade de doce. A minha amiga marejou os olhos e a gente resolveu comprar o nosso doce sim, mas dar pra ele. Mas a gente não foi rápida o suficiente. E a gorda balançante foi indo embora, ainda com o espaçamento, fazendo o franzino ir atrás.

Depois daquilo, meu dia ficou uma merda. E eu parei pra pensar em todas as vezes que eu falei tanta coisa, reclamei de tanta coisa e fui tão preconceituosa com as pessoas que estavam em outra situação - diferente da minha - por simplesmente não terem outra escolha.

Eu fui dormir com o estômago embrulhado. Embrulhado pela comida que eu tinha para comer e não dava o mínimo valor. Eu fui dormir desejando que aquele menino tivesse tido uma noite feliz naquele dia, e que aquela vaca saltitante tivesse virado churrasquinho.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Sem mais.



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