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A MENINA DANÇA
"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível."
[o delicioso Nelson Rodrigues]
.::. Ela dançava no meio de um monte de gente que nunca tinha visto e carregava junto com seu vestido de xita o frescor de ser livre e despida de badulaques numa noite tão Bahia, tão quente de verão.
Mas ela morava em São Paulo e usava calça jeans e bota fina, roupa quente, fechada. Ela adorava viver no cáos, ela adorava a 25 de março e detestava a Paulista em greve de banco, protesto de estudantes e manifestação de crentes -- em algum jesus cristo popstar que ela desconhecia e desacreditava --, mas voltava a adorar em dia de passeata GLBT, porque ela adorava o colorido e, também, acabava rindo da cara das peruas com botóx e dos diplomatas engomados -- que de dia são homens de negócio e pais de família, mas comem os fortinhos na Alameda Santos de noite -- sempre tão perplexos com tudo, achando tudo uma vergonha -- ou uma falta de.
Ela saía cedo de casa porque gostava do ventinho frio da manhã, mesmo odiando acordar cedo desde que ela tinha uns três anos de idade e começou a ir à escola. Ela fugia do tio da perua e se escondia embaixo da mesa da cozinha achando que estava totalmente protegida do ensino que ela não queria ter, apesar dela sempre ter amado saber. Sempre abusou do esbanjar conhecimento maduro pra cima de um homem bem mais velho e despertar nele o bichinho da excitação que ela sabia que era culpada, e adorava.
Ela escrevia contos, lia livros fantásticos mas também gostava de axé music e era viciada em chaves e afins. Tinha amigos cult e trash, in e out. Ela era eclética e nunca tinha tido um grande amor na vida porque tratava todas as relações com a paixão da última mas sem o amor da primeira. Ela era muito complexa pra tão poucas rugas e muito pesada pra tão poucos quilos. E daí ela chorava todo dia as mágoas que ela ainda ia passar porque sofria repetidamente demais aquelas que ela já tinha passado.
Ela encontrou alguns milhões de príncipes encantados pelo caminho, mas nenhum que carregasse o sapatinho da Fiona com o seu exato número de calçar. E foi desistindo aos poucos e dando muito mais bola pras outras coisas da vida. Ela pegava sua bolsa e saía. Pegava sua dança e saía. Pegava o seu riso e saía. Ela simplesmente saía.
Mas por ironia do destino, foi num dia não tão festivo assim, que ela saiu com a certeza que deveria mesmo era ficar.
E foi nesse dia que ela percebeu que a única certeza nessa meleca de vida é, mesmo, só a morte. E que até mesmo uma noite fadada a muitas fodidas -- no mal sentido -- pode acabar se tornando uma noite de gentilezas, sutilezas, delicadezas e cadeiras puxadas, portas abertas, abraços sinceros. Percebeu que não se há certeza quanto ao amor e, tampouco, à amizade; mas que muitas vezes é plausível trocar um pelo outro, e pagou sua língua preconceituosa e tão cheia de certezas de outrora.
Ela resolveu jogar fora tudo o que lhe fazia mal e resolveu ser mais leve, mais solta, mais saia, mais cachos, mais pé no chão, mais amor, mais qualidade.Resolveu ser menos rímel, menos salto, menos estridente, menos forçada, menos quantidade, menos encenação. Mais Bahia, mesmo amando São Paulo. Ela finalmente descobriu o que é que a baiana tem, e adorou.
[Rani Ghazzaoui]
.::. Feliz 2006 bonitos!
Muitos beijos.
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