Terça-feira, Janeiro 31, 2006

SOCIAL DE CU É ROLA



"Quando a gente acha mais da metade do mundo babaca, a gente passa muito tempo sozinha."
[adaptado de um texto da Tati Bernardi]

"Todo o mundo sabe compadecer o sofrimento de um amigo, mas é preciso ter uma alma realmente bonita para se apreciar o sucesso de um amigo."
[aquele que dispensa comentários, Oscar Wilde]


.::. Meu namorado vive falando pra mim que qualquer coisa de cu, é rola; e eu parei bem pra pensar nisso e cheguei à conclusão de que ele nunca esteve tão certo ao dizer alguma coisa. Eu adoro a palavra cu, acho que ela tem um sonoridade explêndida e não consigo entender por que cargas d'água essa monissílaba não tem acento. Mas enfim, eu não vou me prolongar no cu porque se não vou ficar cagando em círculos e não vou parar em lugar nenhum.

As pessoas são estranhas, todas elas. Eu sou uma das mais estranhas de todas e sei disso, mas me contento em ficar com a minha estranheza no meu mundinho autista, eu não atrapalho ninguém. Eu não me penduro no pescoço do homem de niguém, eu não roubo a melhor amiga de ninguém, eu não faço propaganda pelas costas de nenhuma vaca que não tenha me feito nada só porque ela é vaca -- o que não é novidade hoje em dia e não afeta minha vida diretamente nem de leve --, ou seja, eu guardo as minhas excentricidades pra mim mesma, dentro da minha bolha, não saio espalhando tuberculose por aí só porque é uma doença tão bonitinha de ser proliferada.

Mas as pessoas são muito cretinas. Só tem gente burra no mundo e meu cu -- olha ele aí de novo -- pra quem está me achando o cúmulo da pessoa preconceituosa agora. Foda-se. Eu cansei de pensar em todo mundo com olhar de carinho e carinha de dó. Ninguém tem dó de ninguém quando é no seu calo que pisam. É muito fácil ser amigo e bom companheiro quando a outra pessoa tá na merda, atolado até as orelhas. Passar a mão na cabeça e dizer "eu te amo" é bem fácil, o duro é amar mesmo. As pessoas trocaram o "bom dia" pelo "eu te amo", e agora a frase bonita que dizia muitas coisas não diz mais nada a ninguém. Ser amigo é foda mesmo quando a outra pessoa tá feliz pra caralho e você percebe o quão difícil é lidar com a felicidade alheia.

E eu aprendi meio que entre tapas e tapas que quando alguma coisa está me fazendo mal é melhor cortar. Que quando você não tá nem um pouco afim de fazer alguma coisa é melhor dizer não. Que quando você está tão feliz que faz doer a presença de terceiros, é melhor você reavaliar quais terceiros você realmente quer por perto.

Eu nunca fui a menina que fez um monte de coisas pra parecer feliz pros outros. Eu nunca bebi, nunca fumei, nunca dei uns tirinhos, nunca tomei bala, nem doce e nem porra nenhuma. Eu nunca entorpeci minha mente porque a vida já faz isso bastante sem eu pedir e viver já me deixa bem louca sem que eu precise de aditivos. Eu nunca me maquiei de feliz quando eu não estava e é por isso que as pessoas sempre souberam quando eu estava triste.

Mas tristeza é fase e felicidade também. Se você vem e a gente se diverte junto, então você será bem vindo sempre. Mas se você se incomoda, então meu xuxu vai tomar no meio do olho do seu cu e deixe, por favor, o meu fora da reta.
[Rani Ghazzaoui]


.::>Não se assustem crianças! Texto sem grandes pretensões literárias, meramente informativo!
Saudades de muitos de vocês! E um beijo!


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Quarta-feira, Janeiro 18, 2006

A MENINA DANÇA



"Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível."
[o delicioso Nelson Rodrigues]


.::. Ela dançava no meio de um monte de gente que nunca tinha visto e carregava junto com seu vestido de xita o frescor de ser livre e despida de badulaques numa noite tão Bahia, tão quente de verão.

Mas ela morava em São Paulo e usava calça jeans e bota fina, roupa quente, fechada. Ela adorava viver no cáos, ela adorava a 25 de março e detestava a Paulista em greve de banco, protesto de estudantes e manifestação de crentes -- em algum jesus cristo popstar que ela desconhecia e desacreditava --, mas voltava a adorar em dia de passeata GLBT, porque ela adorava o colorido e, também, acabava rindo da cara das peruas com botóx e dos diplomatas engomados -- que de dia são homens de negócio e pais de família, mas comem os fortinhos na Alameda Santos de noite -- sempre tão perplexos com tudo, achando tudo uma vergonha -- ou uma falta de.

Ela saía cedo de casa porque gostava do ventinho frio da manhã, mesmo odiando acordar cedo desde que ela tinha uns três anos de idade e começou a ir à escola. Ela fugia do tio da perua e se escondia embaixo da mesa da cozinha achando que estava totalmente protegida do ensino que ela não queria ter, apesar dela sempre ter amado saber. Sempre abusou do esbanjar conhecimento maduro pra cima de um homem bem mais velho e despertar nele o bichinho da excitação que ela sabia que era culpada, e adorava.

Ela escrevia contos, lia livros fantásticos mas também gostava de axé music e era viciada em chaves e afins. Tinha amigos cult e trash, in e out. Ela era eclética e nunca tinha tido um grande amor na vida porque tratava todas as relações com a paixão da última mas sem o amor da primeira. Ela era muito complexa pra tão poucas rugas e muito pesada pra tão poucos quilos. E daí ela chorava todo dia as mágoas que ela ainda ia passar porque sofria repetidamente demais aquelas que ela já tinha passado.

Ela encontrou alguns milhões de príncipes encantados pelo caminho, mas nenhum que carregasse o sapatinho da Fiona com o seu exato número de calçar. E foi desistindo aos poucos e dando muito mais bola pras outras coisas da vida. Ela pegava sua bolsa e saía. Pegava sua dança e saía. Pegava o seu riso e saía. Ela simplesmente saía.

Mas por ironia do destino, foi num dia não tão festivo assim, que ela saiu com a certeza que deveria mesmo era ficar.

E foi nesse dia que ela percebeu que a única certeza nessa meleca de vida é, mesmo, só a morte. E que até mesmo uma noite fadada a muitas fodidas -- no mal sentido -- pode acabar se tornando uma noite de gentilezas, sutilezas, delicadezas e cadeiras puxadas, portas abertas, abraços sinceros. Percebeu que não se há certeza quanto ao amor e, tampouco, à amizade; mas que muitas vezes é plausível trocar um pelo outro, e pagou sua língua preconceituosa e tão cheia de certezas de outrora.

Ela resolveu jogar fora tudo o que lhe fazia mal e resolveu ser mais leve, mais solta, mais saia, mais cachos, mais pé no chão, mais amor, mais qualidade.Resolveu ser menos rímel, menos salto, menos estridente, menos forçada, menos quantidade, menos encenação. Mais Bahia, mesmo amando São Paulo. Ela finalmente descobriu o que é que a baiana tem, e adorou.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Feliz 2006 bonitos!
Muitos beijos.


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