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DE TUDO O QUE SERIA...
"...Intenções soltas e desejos desconexos. Esse mistério todo é uma violência contra a minha inteligência. Sejamos diretos para não sermos idiotas: eu te quero. Você me quer? Não sabe? Ah, então vá pra puta que te pariu. (E vá ser vago na casa da sua mãe porque embaixo da sua manga eu não fico mais!)..."
[Tati Bernardi]
.::. Eu sentei aqui hoje pra escrever esse texto com um pouco de medo do que poderia sair escrito nesse papel na minha frente. Às vezes as palavras gritam dentro de mim muito mais forte do que a minha própria razão e a minha própria lógica. Eu preciso escrever porque escrever me faz sentir viva e eu preciso parar de escrever tanto porque a cada palavra que eu cuspo pra fora da minha cabeça arrependida, tem alguma coisa muito bonitinha e muito inocente que vai morrendo dentro de mim. É por escrever demais que eu estou conhecendo esse bicho estranho que vive dentro desse corpo de menina e percebendo que, talvez, já não haja mais nada de menina por aqui.
Tem dias que eu acordo com uma imensa vontade de ser mais natural e pensar menos antes de dar qualquer passo ou responder qualquer e-mail ou dar um telefonema no meio da madrugada porque eu estava com vontade, porque eu estou com vontade, porque eu vivo passando vontade de fazer coisas que alguém por aí me disse que eu não podia fazer e eu, idiota, acreditei e fui levando a vida assim, só na vontade. Mas aí tem outros dias que eu acordo feia e quero enxer minha cara de pó pra esbranquiçar o encardido da liberdade, e de blush cor-de-rosa pra mostrar que eu sou sadia e ainda posso ser uma bonequinha quando eu quero.
Eu penso em cada milímetro das minhas atitudes porque se eu for despojada demais você vai fugir de mim com medo que eu fuja, antes, de você; e se eu for muito docinho-de-côco você vai fugir de mim antes que eu te deixe hiperglicêmico com tantos recadinhos, e carinhos, e "inhos" que vão fazer você querer que eu vá tomar no meu cuzinho, bem longe de você.
E você é muito vago, porque você não existe. Eu crio você todas as noites antes de dormir com seu cabelo ruivo, o peito do Daniel, os olhos Bruno, a pele alva, o cabelo castanho, os braços do Rodrigo e a barba mal feita do Felipe... Eu crio você em centenas de vocês diferentes porque a idéia da mesmice me assusta tanto que eu afugento todas as pessoas que se aproximam de mim para, depois, eu poder reclamar que estou sozinha.Eu impossibilito todas as possibilidades e fico agindo de forma repetida, persistindo nos mesmos erros e chorando o mesmo choro de quem não sente mais nada, mas continua fingindo muito bem.
E a minha veia artística se expressa muitíssimo bem nos dias em que eu quero fingir estar gostando, e fingir estar contente, e fingir que me divirto quando tudo não passa de uma noite e nada mais. Acontece que o romance vem se infiltrando pelas frestas mais pífias e quando eu me dou conta eu estou fugindo de novo da possibilidade e alegando que você não quis ficar comigo. A necessidade de ser amada entre o quente do beijo e o vácuo da separação das bocas se junta com o eterno medo que eu tenho de ser amada e aí eu tremo, e sinto frio, e minhas bochechas queimam porque o tesão é quente, mas a espera pelo acerto é torturantemente fria.
E eu acabo idealizando muito o passado, esperano muito do futuro e conseguindo viver pouco do presente, simplesmente pelo fato de que eu passo a maior parte do meu agora pensando em tudo o que seria e não é.
[Rani Ghazzaoui]
.::.Boa semana pra vocês, crianças!
Um beijão.
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