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ELA SABIA
"... Estar sozinha não muda nada, conheço bem esse estado e, de verdade, sei lidar até melhor com ele. O que me entristece, é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual. Eu tinha visto na sua solidão uma excelente amiga para a minha solidão. Achei que elas pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia.
[Trecho de "Primeiro dia sem você", da Tati Bernardi]
.::. Ela quis porque quis olhar praqueles olhos de novo, dessa vez mais de perto, de um jeito estranho e gostoso com o qual ela nunca tinha fitado os dele. Ela teimou que seria correspondida e que não sofreria dessa vez porque o amor verdadeiro devia existir em algum lugar nessa vida maldita, e apesar de ela não acreditar em nem um milímetro de todas as suas próprias constatações, ela não era apaixonada por si prórpia o suficiente para se poupar de mais uma paixão por qualquer outra pessoa.
Ela amou e se entregou sem medo de preconceitos e sem medo de perder aquilo que ela guardou a vida inteira e percebeu que, agora, já não adiantava mais esperar. E aí ela perdeu a chance de não ter tido uma idéia de girico desse tamanho, mas aí já era tarde demais pra ela se arrepender e fechar os olhos pra verdade. No lugar dos olhos, então, ela fechou os punhos, fechou as pernas, fechou as mágoas e as feridas doloridas. Não durou uma semana a tristeza e ela já estava com os olhos abertos e com todo o resto aberto também.
Ela não sabia mais sofrer. Ela não sabia mais o que pensar e foi exatamente por isso que tomou a decisão de não ter mais que pensar em nada. Ela queria todos os prazeres dessa porcaria de vida, mesmo que estes prazeres viessem junto com todas as dores. Ela queria se amar um pouquinho mais e mandar pra casa do caralho as pessoas todas que não souberam a amar como ela merecia, bem naquela hora que ela estava curvada em sua vergonha enxergando o mundo de um ângulo estranho e tendo muito medo do escuro, do vácuo, e principalmente, da junção dos dois -- que era o que mais havia dentro dela.
Ela se apertou na quina da parede. Ela apertou qualquer outra pessoa no canto da parede. Eles se apertaram porque ambos precisavam daquele preenchimento momentâneo, e as quinas e os cantos das paredes serviam pra mostrar que a felicidade nem sempre é limpa e que o arranhão no escuro pode sarar mais rápido porque nada se vê. E ela nunca conheceu na vida ditado tão sábio quanto aquele do coração que não vê e não sente...
Eles se apertaram mais vezes e um dia ele pegou na mão dela. Ela teve medo de gostar da mão dele e querer segurá-la sempre, mas antes de se sentir tentada pelo pensamento, enfiou a mão dele dentro da sua calça e deu risada olhando pra baixo. Eles eram amigos e ela queria agarrar ele na primeira hora do dia, queria fazer dele o seu primeiro cigarro da manhã, mas ela não podia porque ela não queria que ninguém percebesse a fumaça que saía dos dois e da eterna paúra que ela tinha porque não podia gostar da idéia de gostar dele.
Ela ficou sozinha muitas vezes e muitas vezes ficou com ele. Ela dava risada, ela chorava escondida no banheiro, ela sentava de perna torta, ela tremia de forma ereta, ela beijava de olho aberto, ela fechava o coração à força, ela fugia da mão boba dele, ela escrevia estórias tristes e gargalhava a sua liberdade forçada. Porque por mais que as tardes fossem melancólicas, por seguirem as manhãs tão atarefadas, ela tinha descoberto as dores e as delícias de ser quem ela era.
Nem tudo era festa, mas nem tudo era funeral. Nem tudo era gozo, mas nem tudo era reprimido. Nem tudo eram terças-feiras à tarde, mas nem tudo eram segundas de manhã. Nem tudo era quente, mas nem tudo congelava. Não seria cômodo pra sempre, mas também não seria morno como tinha sido sua vida até agora. E ela sabia.
[Rani Ghazzaoui]
.::.De duas, uma: ou o mundo está voltando ao seu eixo de rotação normal, ou sou eu que estou me acostumando a girar um pouco torta também.
Um beijo, crianças.
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