Terça-feira, Agosto 30, 2005

ELA SABIA



"... Estar sozinha não muda nada, conheço bem esse estado e, de verdade, sei lidar até melhor com ele. O que me entristece, é ter visto em você o fim de uma história contada sempre com a mesma intensidade individual. Eu tinha visto na sua solidão uma excelente amiga para a minha solidão. Achei que elas pudessem sofrer juntas, enquanto a gente se divertia.
[Trecho de "Primeiro dia sem você", da Tati Bernardi]


.::. Ela quis porque quis olhar praqueles olhos de novo, dessa vez mais de perto, de um jeito estranho e gostoso com o qual ela nunca tinha fitado os dele. Ela teimou que seria correspondida e que não sofreria dessa vez porque o amor verdadeiro devia existir em algum lugar nessa vida maldita, e apesar de ela não acreditar em nem um milímetro de todas as suas próprias constatações, ela não era apaixonada por si prórpia o suficiente para se poupar de mais uma paixão por qualquer outra pessoa.

Ela amou e se entregou sem medo de preconceitos e sem medo de perder aquilo que ela guardou a vida inteira e percebeu que, agora, já não adiantava mais esperar. E aí ela perdeu a chance de não ter tido uma idéia de girico desse tamanho, mas aí já era tarde demais pra ela se arrepender e fechar os olhos pra verdade. No lugar dos olhos, então, ela fechou os punhos, fechou as pernas, fechou as mágoas e as feridas doloridas. Não durou uma semana a tristeza e ela já estava com os olhos abertos e com todo o resto aberto também.

Ela não sabia mais sofrer. Ela não sabia mais o que pensar e foi exatamente por isso que tomou a decisão de não ter mais que pensar em nada. Ela queria todos os prazeres dessa porcaria de vida, mesmo que estes prazeres viessem junto com todas as dores. Ela queria se amar um pouquinho mais e mandar pra casa do caralho as pessoas todas que não souberam a amar como ela merecia, bem naquela hora que ela estava curvada em sua vergonha enxergando o mundo de um ângulo estranho e tendo muito medo do escuro, do vácuo, e principalmente, da junção dos dois -- que era o que mais havia dentro dela.

Ela se apertou na quina da parede. Ela apertou qualquer outra pessoa no canto da parede. Eles se apertaram porque ambos precisavam daquele preenchimento momentâneo, e as quinas e os cantos das paredes serviam pra mostrar que a felicidade nem sempre é limpa e que o arranhão no escuro pode sarar mais rápido porque nada se vê. E ela nunca conheceu na vida ditado tão sábio quanto aquele do coração que não vê e não sente...

Eles se apertaram mais vezes e um dia ele pegou na mão dela. Ela teve medo de gostar da mão dele e querer segurá-la sempre, mas antes de se sentir tentada pelo pensamento, enfiou a mão dele dentro da sua calça e deu risada olhando pra baixo. Eles eram amigos e ela queria agarrar ele na primeira hora do dia, queria fazer dele o seu primeiro cigarro da manhã, mas ela não podia porque ela não queria que ninguém percebesse a fumaça que saía dos dois e da eterna paúra que ela tinha porque não podia gostar da idéia de gostar dele.

Ela ficou sozinha muitas vezes e muitas vezes ficou com ele. Ela dava risada, ela chorava escondida no banheiro, ela sentava de perna torta, ela tremia de forma ereta, ela beijava de olho aberto, ela fechava o coração à força, ela fugia da mão boba dele, ela escrevia estórias tristes e gargalhava a sua liberdade forçada. Porque por mais que as tardes fossem melancólicas, por seguirem as manhãs tão atarefadas, ela tinha descoberto as dores e as delícias de ser quem ela era.

Nem tudo era festa, mas nem tudo era funeral. Nem tudo era gozo, mas nem tudo era reprimido. Nem tudo eram terças-feiras à tarde, mas nem tudo eram segundas de manhã. Nem tudo era quente, mas nem tudo congelava. Não seria cômodo pra sempre, mas também não seria morno como tinha sido sua vida até agora. E ela sabia.
[Rani Ghazzaoui]


.::.De duas, uma: ou o mundo está voltando ao seu eixo de rotação normal, ou sou eu que estou me acostumando a girar um pouco torta também.
Um beijo, crianças.


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Segunda-feira, Agosto 22, 2005

PREMONIÇÃO



"Ele não pôde se entregar. E agora vai ter de pagar com o coração, olha lá. Ele não é feliz. Sempre diz. Que é do tipo cara valente. Mas, veja só. A gente sabe. Esse humor é coisa de um rapaz. Que sem ter proteção. Foi se esconder atrás. Da cara de vilão."
[ Cara Valente, do Marcelo Camelo]


.::.E a semana foi se arrastando difícil porque, até hoje, quando eu tive uma premonição, ela nunca falhou. Nunca me surpreendi com nenhum pé na bunda porque, quando eles vieram, eu sempre soube que eles viriam. A real é que homem que é homem faz de um tudo pra não terminar um relacionamento, e mulher que é mulher, cai no velho jogo que eles jogam "vou fazer um monte de besteiras e ela vai se irritar e terminar comigo primeiro".

Daí a gente vai lá e termina... e chooora feito um bando de condenadas. E faz um tempo que eu tenho tido raiva de homens que dizem coisas que não sentem e de mulheres que agem como tais homens porque pregam a igualdade dos sexos. Eu é que não quero ser igual à homem nenhum, e faz tempo que eu quero que se dane a igualdade dos sexos também!

E a minha bunda nunca esteve tão amortecida para um chute; a falta de exercícios de quatro no meio da academia nunca foi tão relevante: endurecendo ou não a bica viria e a bunda ia cair no chão de qualquer jeito. E a culpa foi toda minha porque eu tenho o péssimo hábito de achar que as pessoas são todas bonitinhas, e que a vida é coloridinha, e que amorezinhos de final de semana ultrapassam o tédio do domingo. Eu tenho mania de achar que tudo o que dizem pra mim é verdade e que se eu fechar os olhos e pedir pro papai do céu ele vai deixar que esse seja finalmente o dito cujo que vai me livrar dos pés na bunda pra sempre.

Eu devia ter sido mais grossa quando tentei explicar que me trocar por qualquer vadia que saiba trepar melhor do que eu jamais saberei não iria resolver o seu problema de baixa estima escondida no seu ego super inflado, mas eu sempre fui educada pra ser a moça de família que aprendeu a não falar coisas feias porque, afinal, se eu falar algum palavrão, Deus fode a minha vida. Eu devia ter feito um escândalo, porque fodida, fodida e meia e ninguém iria questionar os meus motivos antes de me julgar; ninguém os questiona nem agora que eu agi tão bonitinha lá de cima do meu pedestalzinho cor de rosa cheio de glitter e strass.

É, eu sou a burra, a troxa, a chutada da história. Eu sou a que esperou longos anos da vida pra fazer uma das escolhas mais importantes dela errada. E essa vida pode ser uma bosta e eu posso falar o quanto eu quiser que pra mim ela não importa mais, que eu sempre vou saber que é tudo mentira. Eu sempre vou dizer que desisti do amor até que qualquer outro idiota de barba na cara apareça me falando futilidades coloridas e me fazendo querer pular no colo dele. Eu ainda vou me contradizer muito. Ainda vou chutar muitas bundas e virar muitas vezes pra que chutem a minha. Assim é a vida.

Mas sabe o que é foda, rapaz?
Orgulho. Orgulho é foda.
Eu posso ouvir qualquer verdade incontestável e qualquer argumento idiota que você usou pra me dizer que "vai ser melhor assim, faço isso porque você é tão especial...". Eu posso fechar meus olhos praquela cara de galinha de última categoria dela e fingir que não ligo pra comparação direta que acabei tendo à ela, já que a fila andou assim nessa ordem, primeiro eu, depois ela. Eu posso me fazer de sonsa e deixar tudo isso passar pra assistir de camarote o dia que o seu pipi cansar de tanta piada por aí e resolver que é hora de parar de sassaricar.

Mas por favor, docinho, não me peça pra me fazer de relapsa e boa menina quando você despreza a importância de toda essa história pra ficar mais fácil pra você. Não me peça pra te sorrir aquele meu sorriso de menina que você dizia que gostava, que você, hoje, disse que ainda gosta -- na hora que você estava tentando me manter quente na sua, esperando você ter vontade de mim de novo. Espere qualquer coisa de mim, peça qualquer absurdo que eu posso até pensar no seu caso... mas burrice estampada?
Me desculpe, nunca tive vocação.
[Rani Ghazzaoui]


.::.É...
O mundo já está girando do lado contrário há algum tempo.

Bjos.


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Domingo, Agosto 14, 2005

EU TENHO MEDO DO ESCURO



"Não me deixe só. Eu tenho medo do escuro. Eu tenho medo do inseguro. Dos fantasmas da minha voz"
[Vanessa da Mata - Não me deixe só]


.::.Aí eu fechei os olhos e esperei a dor vir devagar... esperei ela consumir o meu corpo porque, com o corpo amortecido, a felicidade que viria depois seria aproveitada desde o começo e a cada polegada.O escuro ia ser atravessado pela claridade da felicidade possível e eu ia sentir a emoção latejar dentro de mim e corromper os meus medos tornando-os em sentimentos mais reais do que os de aflição.

Aí eu abri os olhos, e você continuava perto de mim, você continuava em cima de mim, do meu lado, ao meu redor... você pedia silêncio e eu prendia a respiração com medo de respirar muito você e não querer outro cheiro no mundo. Eu lutei feito menino de rua por comida, bloqueei todas as minhas emoções pra não virar dependente do gostar de você, travei meu coração com cadeado de ferro e esperei que ele enferrujasse sem que você tocasse nele.

Aí você foi delicado, e foi encantador, e foi tudo aquilo que eu queria que você não fosse porque eu não tinha nos meus planos me apaixonar por você. Você foi meu amigo pra depois eu não poder dizer que não confiava em você; você foi meu confidente pra no momento que eu resolvesse mentir que não sentia nada eu me lembrar que pra você a mentirinha repetida não resolveria...

Aí eu pensei em correr pra longe e espantar de perto de mim qualquer vontade besta que eu tivesse de ficar com você pra sempre; só que você foi muito mais rápido e me mostrou que eu fui muito mais besta tentando fingir não querer estar ali do que admitindo de uma vez que eu já estava ali fazia tempo. E eu fiquei chorosa e contente, do jeito que só eu sei fazer, fazendo drama demais pra estampar uma felicidade displicente.

Aí eu me joguei de cabeça, porque na minha vida nunca houve meio termo, nunca houve o morno, o ponto médio, o mais ou menos. Eu fui logo de uma vez correndo o risco de quebrar o pescoço na queda, de perder o fôlego no mergulho, de quebrar minha asa no salto. Eu fui de uma vez porque eu sabia que o meu dicernimento psicopata me mandaria assassinar o meu super ego e chutar com força minhas chances de borboletas no estômago e final feliz. Eu fui correndo e nem olhei pra trás pra não me lembrar das vezes que eu chorei e não acabar dizendo pra mim mesma, no meu monólogo interminável, que eu podia me dar mal.

Aí eu estou aqui, agora. Curvada na minha vaidade esperando o momento da queda, esperando que a queda não venha, esperando que as teses todas falhem e eu possa me sentir menos falha pra gostar de você. Eu me dobro na sua frente e fico quietinha vendo o egoísmo na altura do meu umbigo, e a desenvoltura que você tem em me deixar pequenininha perto do seu eterno altruísmo.

Aí eu fiquei calada e pedi pra você me abraçar forte, deitar do meu lado e nunca apagar a luz... afinal de contas, eu ainda tenho medo do escuro.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Bjo na pontinha dos narizes, crianças!


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Sexta-feira, Agosto 05, 2005

FINALMENTE AS BORBOLETAS



"Seja eu. Seja eu. Deixa que eu seja eu. E aceita. O que seja seu. Então deita e aceita eu."
["Beija Eu" da Marisa Monte]


.::.Um dia eu falei pra você que eu ia te contar direitinho como eu era, que ia falar assim, tin-tin por tin-tin, de como era ser eu da hora que eu acordasse até a hora em que eu conseguisse dormir. Eu falei que ia ser sua melhor amiga e que você seria meu conselheiro, meu cavaleiro alado que me ajudaria nos problemas sentimentais e me protegeria com unhas e dentes da raiva do mundo. Eu falei que eu queria ficar com outra pessoa e que queria que você estivesse lá a cada momento que eu sentisse que a pessoa que eu te disse não era certa. Falei tantas coisas pra você e quando me dei conta falava mais com você do que com todas as outras pessoas idealizadas de quem eu falava pra você.

Um dia me disseram que as maiores histórias de amor saem das mais belas amizades, e isso me fez pensar em como seria amar alguém de quem eu já gostava tanto. Mas a minha imaturidade me deu medo de sobra e atitude de menos pra dizer isso pra você desde a primeira vez que eu senti a pontadinha aguda na boca do estômago; a minha compulsão adolescente acabou me dizendo que tudo poderia não passar de mais um caso Joey e Dawson e que eu poderia machucar você, e à mim também. Então eu sentei minha insegurança na cadeira e esperei pacientemente pelo dia em que eu ouvisse da sua boca que não era só amizade; e nesse meio tempo eu fui me convencendo de que, realmente, não poderia passar disso... de que jeito, Rani?

Aí um belo dia, em que eu nem lembrava do quão boba eu era por idealizar tantas coisas e sofrer tanto depois com as conseqüências delas, você olhou pra mim com outros olhos e o meu olhar desacostumado teve um trimilique eufórico que nem bem eu mesma consegui entender na hora. E depois daquela, as outras horas foram passando rápido demais pra ser inverno, e os milagres do verão foram chegando sem que eu tivesse tido tempo de, ao menos, pegar o meu protetor solar. Você queimou minhas inseguranças e cegou minha córnea para as baboseiras falsamente bonitas que eu tentava enfiar na minha cabeça que eram o que eu queria pra mim. E eu me esquentei de longe nesse seu verão fora de época, eu fui me esquivando pelas beiradas, mas quando me dei conta você tinha acertado em cheio o centro de tudo.

E não, agora já não é inverno... agora já não sou eu com emoções plastificadas, sorrisos forçados, vontades inventadas, amores simulados. É, eu estou dissimulada e a culpa é sua; você virou tudo de ponta cabeça e os hormônios clamam pra você chegar mais e mais perto, até a gente virar um só. E te ter tão longe dói não mais onde eu tive a pontada, dói um pouco mais pra cima, num lugar do meu corpo que eu achei que tivesse manifestado falência de órgãos. E é aí que meu medo volta a existir, eu tenho medo de amar você porque eu sei que se não for amor de verdade, a queda vai ser grande dessa vez. Mas aí você vem suave e amortece as pancadas que a vida me dá, e é nessa hora que você não tem defeitos e nem o seu gosto musical duvidoso me incomoda mais.

Dos dois ditados populares eu tirei a seguinte lição: a amizade pode virar amor e a dama vai acabar sempre ficando com o vagabundo, sabe por quê?
Porque os opostos se atraem, e ainda não me mostraram nada que fosse melhor nessa vida do que essa atração doentia que eu estou sentindo por você; bem aqui, bem agora.
[Rani Ghazzaoui]


.::. A gente ainda se vê muito por aqui esse semestre!
Bjões!


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