Domingo, Julho 17, 2005

NÃO É AMOR



"Eu me acho insuportável. Ok, e ao mesmo tempo a pessoa mais legal do mundo..."
[Trecho de "Manual de não-instrução", da Myla Verzola]


.::.Hmmm, eu tenho pensado em todas as coisas que me fazem pensar mais do que eu devo enquanto o tempo está oscioso de coisas legais pra fazer e deixa espaço pras divagações medíocres de um ego que é descontrolado dentro de um corpo que não tem como ser mais violado. Eu tenho pensado em coisas estranhas, em pessoas estranhas e tenho me sentido estranha nesse universo feminino tão meu, tão de todo mundo. Eu tenho pensado no inverno e em todo o gelo que endurece mais ainda o coração que, hibernando, ainda insiste em esperar o verão. Eu tenho pensado nos meus pés frios, nos meus seios quentes, e nas mãos daquela pessoa que não chega em volta da minha cintura.

Não é tristeza, mas também não é alegria. Não é definível porque todas as minhas definições caíram em desuso de uma hora para a outra. Eu vivi a manhã de espuma, eu vivi a tarde ensolarada, eu vivi o pôr-do-sol quente e vivi a noite fresca que resfriou meu dicernimento do que seria bom pra me aquecer. E eu não entendo por que diabos eu tenho que temer a infelicidade quando eu estou feliz, por que eu tenho que passar todos os minutos agradáveis da minha vida com a cabeça cheia de culpa por saber que o mau momento vem depois.

Não é dor, mas também não é prazer. Não me machuca, mas eu não gozo e as pessoas perdem a graça no exato momento em que eu me engraço pra elas e elas viram minhas. As minhas pessoas me tiram a graça porque eu fico tão feia por não querer o que é meu pra desejar tanto o que é dos outros. E a nuvem preta segue qualquer atitude porque ser feliz em excesso é proibido por lei, e, nesse quesito, eu sou uma cidadã exemplar.

Não é mentira, mas também não é verdade. E cada nova mentira que eu conto se torna instantâneamente uma verdade na minha cabeça doente. Cada pessoa que eu engano vira o meu próprio engano seguido de dor por não ser culpada de nada. Cada culpa que eu carrego me distancia da serenidade de boa moça que me disseram que eu preciso ser pra ter um relacionamento feliz.

Não é alheio, mas não é meu. A inveja começa pequenininha e cresce justamente porque eu sei que ela é encardida e me faz ficar ensebada presa nas minhas próprias palavras. A cabeça ordena que o corpo pare mas a marcha em retirada não acontece e bater continência pros fatos nunca foi tão difícil.

Porque é estranho pra mim ter a impressão de sentir coisas que eu não quero sentir, é estranho olhar pro lado e achar que no resto do mundo já é primavera e que, só aqui, a estação não mudou. E o espelho já não me conta segredos que eu não sei, a minha cara é repetida todo dia, e os dias são todos iguais no final. Eu corro em busca do sonho que eu já não sei se tenho porque talvez eu tenha perdido no meio do caminho enquanto corria atrás do improvável.

E é impossível não sonhar com as cerquinhas brancas, a casa de campo, os labradores e as crianças felizes; mas é perfeitamente fácil de entender que o meu mundo sem você não é ódio, mas definitivamente não é amor.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Beijos!


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Domingo, Julho 10, 2005

SE CHOVE LÁ FORA...



"And the people here are asking after you. It doesn't make it easier to be away."
[ "A plain morning", do Dashboard Confessional]


.::. Porque no inverno as pessoas ficam mais sensíveis e os corações congelados clamam por uma faísca de fogo vivo que os faça baterem quentes de novo. E eu fiquei pensando que se meu coração clamasse mais alto ele ensurdeceria meu dissernimento e eu não saberia mais ser eu mesma daquele jeito que eu sempre fui sem saber. Não foi de propósito que eu olhei para o namorado de qualquer outra menina e invejei a possibilidade, não foi de propósito que eu chorei de madrugada porque eu queria apenas um choro abafado por outro peito que não o da minha mão, não foi de propósito que eu fiz todas as burradas na vida e acabei congelada dentro das minhas idéias, junto com o inverno.

Eu tento voar leve porque se eu correr pesado você vai escorrer por dentre meus dedos, e eu não agüento mais perder pessoas por querer amá-las demais. Eu tento não olhar muito pra você pra sempre ter algum detalhe novo pra eu descobrir, eu tenho medo de te olhar muito e achar que sua beleza é a minha, e aí acabar gostando mais de você do que de mim. Eu tento não segurar na sua mão o tempo todo porque a minha mão é fria e você pode pensar que meu coração é assim também; e aí você pode acertar.

O amor deveria ser o mais sulbime dos sentimentos, mas tudo o que eu consegui amar até hoje se sublimou na minha frente. E por mais que eu diga pra você que não há resquícios de não-perdão dentro de mim, os dias frios ainda me fazem sentir a dor que outras pessoas me causaram, e me dóem os ossos por incômodo de saber que eu causei tantas outras dores em tanta gente. Eu olho pra você e às vezes é inevitável não ver ele, daí eu fecho os olhos até sentir que não dá pra apertar mais minhas lembranças incovenientes, e aí eu choro sem você ouvir porque se você me escutar chorando você pode achar que eu sou melancólica e isso vai levar você para as que sorriem até na frente do espelho. Eu planejo a minha vontade de não pensar em você porque me disseram que se eu planejar demais um futuro você vai embora; e eu fico altista em casa temendo sua partida porque você ainda nem chegou.

Eu tenho medo de amar você. Tenho medo dos seus olhos que dizem tantas verdades pra mim e que me fazem sentir a menina de vestido rodado que comeu chocolate antes do jantar. Tenho medo das suas mãos que conhecem cada polegada das minhas curvas e deslizam por elas acabando sempre na minha nuca me fazendo um cafuné. Tenho medo da sua boca que não me diz muita coisa, mas consegue com perfeição divina calar a minha que diz tantas coisas desnecessárias. Eu tenho medo de amar você, porque amar você é me questinar se você ama à mim também.

A vida toca meus braços e eu não tenho vontade de deixar ela passar. O frio lá fora congela os cadáveres do meu passado e aqui dentro não poderia estar mais quente esperando o bebê da vida nova. Posso estar louca, e inconseqüente, e imatura, e impulsiva, e hiperbólica, e atirada, e infantil; posso estar fingindo, estar forçando, estar idealizando, estar correndo por algo que não me deu segurança nenhuma. Eu posso até achar que esse sentimento bom não existe fora da minha cabeça de garota interrompida, mas eu não vou deixar que nenhuma receita de amor que nunca funcionou leve você de mim dessa vez.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Brigada por tudo o que vocês dizem. Aproveitem o frio e vão namorar!
Um beijo.


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Domingo, Julho 03, 2005

FÉRIAS FELIZES MODO ON [OFF]



"Porque hoje eu vou fazer. Ao meu jeito eu vou fazer. Um samba sobre o infinito."
[Marisa Monte]


.::. E foi cansada de tantos papéis, e letras, e telas de computador, e pessoas repetidas na minha frente que eu me arrumei cuidadosamente e fui trabalhar um outro lado de mim que há muito estava esquecido: o da badalação. Não, não era uma badalação qualquer, eu não estava indo à guerra e nem tampouco saindo para ferver horas seguidas em uma pista fumacenta de dança e voltar pra casa fedendo a cigarro e pessoas fúteis. Futilidade por futilidade eu me contendo já com a minha.

Saí do aconchego do meu lar em uma terça feira fria não pra mostrar meu decote pros babacas de bíceps 45 e cérebro -30. Levantei minha bunda gorda da cadeira amassada onde eu passo horas escrevendo bobagens para ir à um lugar calmo, com amigos que eu não via há tempos, pelo simples e jenuíno prazer de estar com pessoas que me faziam bem pelo simples fato de existirem. Tudo naquela terça feira era simples, e eu não estava com a mínima vontade de começar a complicar...

A primeira surpresa da noite foi me sentir prefeita em um lugar onde eu supunha não conehcer ninguém; há dias em que, simplesmente, você não quer forjar sorrisos e ser simpática para a multidão, mas incrivelmente, naquele dia os meus dentes estavam querendo se mostrar pra qualquer pessoa. Qualquer mesmo. Havia uma felicidade sussinta e ao mesmo tempo que eu me assustava eu não sentia a menor vontade de me questionar sobre a minha súbita troca de humor -- enquanto eram risos e não lágrimas não havia motivo para nem ousar um questionamento filosófico; foi por filosofar demais que acabei amargando alguns doces momentos da minha vida.

Depois veio o cara boa pinta, bem educado, simpático, lindo, lindo, lindo; o genro que minha mãe pediu à Deus. Deus por Deus eu prefiro os de carne e osso e, pela primeira vez em muito tempo, eu não tive medo de acreditar no que uma pessoa -- com uma coisa que eu não tenho no meio das pernas -- me disse na primeira conversa, num balcão de bar praiano por horas à fio. Lá no fundo o meu anjinho chato dizia pra eu ter cuidado, mas aqui mais perto da derme o diabinho dizia que se fosse tão ruim assim ele ficava com o bofe pra ele; aí resolvio mandar os medinhos pra puta que os pariu e me jogar nas coisas boas que estavam na minha frente sem ter medo de quebrar a cara de novo.

A realidade era explícita e a ilusão não conseguiu passar perto da minha cabeça naquela noite de inverno: o cachecol esquentava minhas palavras e os afagos aqueciam meu coração. Eu era menina feliz como há muito tempo eu não conseguia, eu era boa companhia como talvez eu nunca houvesse sido, eu era simplesmnte eu mesma, sem máscaras, sem fingimentos, sem as mentiras expansivas que tentavam enganar tão somente à mim, sempre. Eu era uma pessoa sem esquizofrenias na frente do espelho, eu era o próprio espelho da minha alma, eu era tudo o que me faltava ser diante de alguém que eu quisesse que fosse meu. E não é que eu era feliz pra sempre porque eu cansei de longividades inventadas e finais felizes de mentirinha; mas eu era feliz naquele momento e você era tudo o que eu queria ter pra poder escrever na minha redação de boas férias.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Boa semana! Bjos.


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