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A FUGA
"Never there. You're never there. You're never, ever, ever, ever there."
[Cake - Never There]
.::.É sempre subjetivo.É sempre explícito. É sempre estranho. É sempre normal. É sempre a mesma babaquice decorada de sempre. É sempre a mesma corrida em busca daquela coisa que eu nem sei o que é.
As coisas passam dentro da minha cabeça e eu não tenho tempo de me fixar em uma só idéia tamanha é a rapidez que tudo acontece.Tenho que estar bonita, hoje era dia de ligar pra minha amiga, preciso voltar pra academia, meu Deus, tem trabalho de sociologia pra amanhã, olha ele tá de boné novo hoje, tenho uma festa sadabão, o cabelo dele tá crescendo e tá ficando do jeito que eu gosto, putz, não comprei o remédio do meu cachorro, marquei manicure hoje, acho que não vou chegar em casa a tempo, caraca, não tenho roupa pra sábado, ai o xerox vai fechar, preciso pegar a apostila nova de economia, acho que quero pintar a unha de vermelho, tenho que arrumar meus armários, não passa de hoje, não cabe mais nada, ele tá com a blusa do nosso primeiro beijo, merda, vermelho não combina com o sapato que eu quero ir, tenho que ligar pra minha mãe, deve fazer uns quatro dias que ela não me vê, ainda tenho que preparar a aula que vou dar amanhã, Jesus, olha o cabelo ensebado dela, a blusa do nosso primeiro beijo na cintura dela, meu celular não toca nunca, nem sei pra que eu tenho essa merda, o msn tá bombando hoje, quanta gente chata, quanto assunto gasto, ahhh, cansei dessa internet do inferno, esses computadores são tão lerdos, o photoshop não quer abrir, a mulher chata das pesquisas de opinião não pára de ligar no meu celular, tenho que mudar esse toque, ela é bonita, caralho, não posso ser despeitada, mas eu sou mais eu, alô?, não eu não quero pôr o meu nome em lista de danceteria nenhuma, abriu, abriu o photoshop, mãe?, tudo bem te ligo mais tarde, nossa, nem comecei a resenha dessa droga de matéria, amanhã já é quarta...quinta, sexta, sábado, caramba, ainda nem decidi a cor do esmalte, ixi, deu a hora da aula, tô atrasada, ele tá do meu lado e não me olha, filho da puta, agora fingi que não me nota, desliga computador do inferno, tá um frio do cão aqui nessa sala, levanto, será que meu cofre apareceu?, ele olha pra minha bunda de canto de olho, putz, preciso passar no xerox.
E é sempre assim: bagunçado, cheio de coisas, atordoado... e ninguém entende. E eu não entendo como pode ser tão difícil afastar um segundo sequer de pensamento dessa tua aura envaidecida que perambula do meu lado a todo momento. Fico à mil por hora pra fugir do pesadelo que fica comigo enquanto ainda estou acordada. Na verdade eu nem durmo mais, e quando eu durmo eu sonho com você, com feridas ou com qualquer outra nojeira que me levante antes do meu despertador tocar e me faça pensar no porquê de você ainda tirar o meu sono.
Aí eu fico irritada por ver meu desgaste físico e resolvo que vou odiar você. E aí saio falando pelos cotovelos e querendo demais que você ouça o que eu falo; mas você nunca olha, você tem o incrível poder de me emputecer com o seu desprezo forçado. Forçado por forçado, eu forço uma conversa que não vai levar a lugar nenhum: ouço o que não quero, falo o que eu não devia. Forcei tanto que fiquei ridícula diante de você, e você nunca me pareceu tão sóbrio em um ponto de vista.
E aí minha inspiração vai embora e eu fico escrevendo ao acaso como quem só tem palavras soltas em um espaço e nunca consegue juntar a frase pra se expressar. E eu reclamo que não há distância suficiente pra te esquecer, mas aí fico longe e quero morrer porque não sei se há alguém por perto. Quero morrer também porque você é patético, e mesmo assim eu não paro de comtemplar a tua idiotice alegórica. E se você é alegoria, eu não passo de hipérbole, eu não passo de despeito e falta de coragem em doses cavalares. Eu fico falando que não me importo quando na verdade tudo o que eu faço é me importar a cada droga de segundo que você está por perto.
E aí é fácil falar que eu me amo, porque amor próprio eu sempre tive e isso a sua imaturidade supersônica não abala. Eu vou continuar prepotente e convencida olhando de cima pra você e rindo da sua cara só pra te ridicularizar. Aí eu vou voltar pra casa e ver que ridicularizada estou eu. Aí vou desistir de você igual eu faço todos os dias e vou voltar pros meus pensamentos vagos que me fazem passar alguns minutos sem pensar na merda que é só pensar em você.
[Rani Ghazzaoui]
.::.Beijos e se cuidem crianças!
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