Terça-feira, Junho 28, 2005

A FUGA



"Never there. You're never there. You're never, ever, ever, ever there."
[Cake - Never There]


.::.É sempre subjetivo.É sempre explícito. É sempre estranho. É sempre normal. É sempre a mesma babaquice decorada de sempre. É sempre a mesma corrida em busca daquela coisa que eu nem sei o que é.

As coisas passam dentro da minha cabeça e eu não tenho tempo de me fixar em uma só idéia tamanha é a rapidez que tudo acontece.Tenho que estar bonita, hoje era dia de ligar pra minha amiga, preciso voltar pra academia, meu Deus, tem trabalho de sociologia pra amanhã, olha ele tá de boné novo hoje, tenho uma festa sadabão, o cabelo dele tá crescendo e tá ficando do jeito que eu gosto, putz, não comprei o remédio do meu cachorro, marquei manicure hoje, acho que não vou chegar em casa a tempo, caraca, não tenho roupa pra sábado, ai o xerox vai fechar, preciso pegar a apostila nova de economia, acho que quero pintar a unha de vermelho, tenho que arrumar meus armários, não passa de hoje, não cabe mais nada, ele tá com a blusa do nosso primeiro beijo, merda, vermelho não combina com o sapato que eu quero ir, tenho que ligar pra minha mãe, deve fazer uns quatro dias que ela não me vê, ainda tenho que preparar a aula que vou dar amanhã, Jesus, olha o cabelo ensebado dela, a blusa do nosso primeiro beijo na cintura dela, meu celular não toca nunca, nem sei pra que eu tenho essa merda, o msn tá bombando hoje, quanta gente chata, quanto assunto gasto, ahhh, cansei dessa internet do inferno, esses computadores são tão lerdos, o photoshop não quer abrir, a mulher chata das pesquisas de opinião não pára de ligar no meu celular, tenho que mudar esse toque, ela é bonita, caralho, não posso ser despeitada, mas eu sou mais eu, alô?, não eu não quero pôr o meu nome em lista de danceteria nenhuma, abriu, abriu o photoshop, mãe?, tudo bem te ligo mais tarde, nossa, nem comecei a resenha dessa droga de matéria, amanhã já é quarta...quinta, sexta, sábado, caramba, ainda nem decidi a cor do esmalte, ixi, deu a hora da aula, tô atrasada, ele tá do meu lado e não me olha, filho da puta, agora fingi que não me nota, desliga computador do inferno, tá um frio do cão aqui nessa sala, levanto, será que meu cofre apareceu?, ele olha pra minha bunda de canto de olho, putz, preciso passar no xerox.

E é sempre assim: bagunçado, cheio de coisas, atordoado... e ninguém entende. E eu não entendo como pode ser tão difícil afastar um segundo sequer de pensamento dessa tua aura envaidecida que perambula do meu lado a todo momento. Fico à mil por hora pra fugir do pesadelo que fica comigo enquanto ainda estou acordada. Na verdade eu nem durmo mais, e quando eu durmo eu sonho com você, com feridas ou com qualquer outra nojeira que me levante antes do meu despertador tocar e me faça pensar no porquê de você ainda tirar o meu sono.

Aí eu fico irritada por ver meu desgaste físico e resolvo que vou odiar você. E aí saio falando pelos cotovelos e querendo demais que você ouça o que eu falo; mas você nunca olha, você tem o incrível poder de me emputecer com o seu desprezo forçado. Forçado por forçado, eu forço uma conversa que não vai levar a lugar nenhum: ouço o que não quero, falo o que eu não devia. Forcei tanto que fiquei ridícula diante de você, e você nunca me pareceu tão sóbrio em um ponto de vista.

E aí minha inspiração vai embora e eu fico escrevendo ao acaso como quem só tem palavras soltas em um espaço e nunca consegue juntar a frase pra se expressar. E eu reclamo que não há distância suficiente pra te esquecer, mas aí fico longe e quero morrer porque não sei se há alguém por perto. Quero morrer também porque você é patético, e mesmo assim eu não paro de comtemplar a tua idiotice alegórica. E se você é alegoria, eu não passo de hipérbole, eu não passo de despeito e falta de coragem em doses cavalares. Eu fico falando que não me importo quando na verdade tudo o que eu faço é me importar a cada droga de segundo que você está por perto.

E aí é fácil falar que eu me amo, porque amor próprio eu sempre tive e isso a sua imaturidade supersônica não abala. Eu vou continuar prepotente e convencida olhando de cima pra você e rindo da sua cara só pra te ridicularizar. Aí eu vou voltar pra casa e ver que ridicularizada estou eu. Aí vou desistir de você igual eu faço todos os dias e vou voltar pros meus pensamentos vagos que me fazem passar alguns minutos sem pensar na merda que é só pensar em você.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Beijos e se cuidem crianças!


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Quarta-feira, Junho 15, 2005

COM BOLOR E SEM COR: O NOVO



"I'd do anything to have her to myself. Justo to haver her for myself. Now I don't know what to do.(...) She isn't real. I can't make her real."
[Slipknot]


.::.Paralisada com a idéia fixa de ter você em algum momento da minha vida foi que acabei me tornando o objeto que uniu você mais ainda à quem te tirou de mim de vez. E eu paralisei não pelos seus belos olhos castanhos que todos os outros têm, ou pela barriga trincada e o corpo atlético que você nunca teve. Eu paralisei porque idealizei o romance perfeito, o homem perfeito, a situação perfeita, os sininhos e as borboletas no estômago que eu sempre senti sozinha esperando ansiosamente o dia em que você sentiria qualquer uma dessas coisas também.

Mas a merda do romance sempre fez parte da minha vida. E embora eu sempre tenha tido consciência de quantas horas do meu dia eu gastava pensando em tudo o que poderia ter sido e não era, nem sempre meu romance foi voluntário. Nem sempre eu acordo linda e penteada pronta pra viver a mentira cor-de-rosa que eu me pus vivendo dentro. Nem sempre eu sou só sorrisos, obrigadas e com licenças. Nem sempre tenho vontade de ser a boa samaritana e talvez a verdade é que eu nunca tenha sido boa de verdade. Nem sempre eu quero ser delicada e às vezes eu me sinto um cachorro com raiva espumando minha frustração na cara de todo mundo que me enganou.Nem sempre eu tenho saco pra ser poser porque às vezes por dentro não passa de lixo e isso o pankake não cobre e o photoshop não arruma.

Me fode a vida ver ela passar por mim tão rápido e sentir que o progresso ao meu redor é tão devagar. E dói pra caramba enquanto dentro cresce e não há por onde sair... e transborda. Dói mais ainda saber que nem sequer uma gota do meu suor adianta, que nem sequer uma das minhas lágrimas justifica e que nem sequer uma das minhas incertezas afetam nem sequer um pouco a quem eu quero que elas afetem. E eu também já não sei se quero, eu já não sei pra quem eu falo tanto, de qual presença eu tenho medo, já não tenho certeza nem do meu choro enrustido que às vezes vira soluço e eu boto a alma inteira pra dentro de novo.

E você é só mais um pretexto pra eu poder chorar em paz. Você é só mais um que entrou e saiu dessa vida e esse final só vai ser mais um dos meus finais, nem tão triste e não tão tranqüilo, bem assim como foram todos os outros. E no final das contas, os finais todos são só meus, e à cada um deles é um pouco de mim que se vai. E paradoxalmente a força se esgota enquanto eu me descubro o ser mais forte do universo; e a vontade vira frigidez ao mesmo tempo que os hormônios transpiram todos os meus desejos não realizados, todas as promessas não cumpridas. E eu não chorei a sua falta de caráter, eu chorei a minha falta de perspicácia. Eu olhei pro mural no meu quarto e percebi que a pessoa que participou dessa babaquice toda foi a menina de trança e uniforme escolar que está lá mesmo, no mural, e não a mulher de caneta na mão e agenda corrida que está na minha frente no espelho. Quem esteve com você foi a adolescente atordoada que assistia Dawson's Creek e não a jovem mulher que sonha em ser a Carrie do Sex and the City.

Já não é uma questão de tempo, agora é uma questão de sorte; pra mim, a partir de agora, amor é loteira.E até hoje não conheci ninguém que realmente tenha tido o ganho total.E foi nessa hora de pensamentos vagos que me ocorreu que a vida era muito mais complexa do que essa relação inexistente, eu sempre fui muito mais complexa do que qualquer tipo de relação que eu tenha tido com qualquer pessoa. Minha complexidade sempre me afastou de você, e de todos os outros também. E eu não vou ficar me explicando porque um dos preceitos básicos da minha complexidade é me complicar mais a cada vez que tento a proeza de me decifrar.

Sempre me disseram que só os mais fortes sobrevivem e você me fez decidir abandonar minha postura otimista, a partir de agora eu vou com o fluxo. E hoje eu lembrei da frase que eu usava naquela adolescência -- que você estava presente -- para descrever esse sentimento de nada sentir, e acredite, ela nuna fez tanto sentido: O amor é uma mentira, agardeço à todos aqueles que me enganaram. Obrigada.
(Rani Ghazzaoui)


.::.Simplesmente estou adorando as manifestações de vocês! Os e-mails, os scraps, os comentários no meu flog. MUITO OBRIGADA!
E vale ouvir Vermillion Pt2 do Slipknot. a única deles que não faz meus ouvidos doerem.
E beijo!


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Quarta-feira, Junho 08, 2005

A PUREZA DO AMOR INFANTE



"Manhã
Abro os olhos, abro as janelas
Deixo o sol entrar
Deixo minhas mágoas na varanda
Pro orvalho levar
Me espreguiço, me levanto
Deixo o vento soprar
Deixo minhas feridas expostas
Para um anjo beijar
Abro os braços num vazio abraço
Deixo o tempo passar
Deixo o despertador sempre ligado
Pra ver o dia começar
Nuvens formam desenhos surreais
Deixo o café esfriar
Deixo esse vazio entre meus braços
Pra quando você chegar"

[Poesia do Bruninho Monstro, meu amigo querido.]


.::. E é com leveza sublime e felicidade religiosa, de quem muito acreditou num milagre, que olho nos seus olhos hoje em dia. É com maquiagem adulta e salto fino de mulher que depois de tantos anos fui virar sua menina. É estranho, e delicado, e prazeroso, e engraçado. É tão intimista e complusivo ter você, finalmente, a meio centímetro de mim.

E dói a barriga, dói a cabeça, dói o peito. Dói, dói, dói, dói tudo a cada vez que eu tento pensar em você. Dá um nó no estômago de pensar que o mundo deu tantas voltas e foi parar de novo bem aqui, nesse ponto mal acabado da nossa história. Essa história louca que não tinha tido um fim pelo simples fato de que nunca tinha tido um começo.

E o começo começou bem no começo do meu desprendimento. Finalmente eu pude ver o final das coisas que finalizavam qualquer hipótese de um dia haver um final feliz com você. Porque eu era criança, eu era lilás, eu sorria de peito aberto pro mundo. E você era marmanjo, era irmão mais velho, era primo postiço achando que meu amor era adolescente. Eu sentava no chão da escola e olhava o jeito que você olhava todas aquelas meninas que nunca me olharam. Você sentava do meu lado e fraternalmente me abraçava. O meu coração explodia, mas minha alma nunca gozava.

E aí você namorou, e namorou, e namorou... E eu sempre fiquei namorando a hipótese de um dia namorar você. Procurando em todos os namorados que tive a delicadeza que era sua, o carinho fraterno que moveu a minha admiração adolescente durante todos aqueles anos confusos de auto-conhecimento e baixa auto-estima. Por mais distante que fosse a minha lembrança, nada nunca arrancou do meu coração calejado a infância cor-de-rosa que eu tive com você.

Pode parecer estranho, e meloso, e piegas. Pode parecer mentira, e exagero, e perfeição demais. Pode parecer carência, e ilusão, e passado. Pode parecer rápido, e confuso, e futuro. Pode parecer tanta coisa junta que pra mim já não faz diferença. Pode parecer tanta coisa e todas essas coisas serem mentiras separadas que formam a minha verdade universal.

E você pode ser de uma delas, você pode ser só dela, você pode ser só seu. Nós podemos ser o que nós quisermos e podemos continuar sendo um do outro. Eu posso escrever um livro, virar redatora, virar gente grande de verdade. Nós podemos ser o que sempre fomos e só nós dois sempre soubemos. Você pode ser o doutor para todos os outros, mas pra mim você nunca vai deixar de ser o moleque que me arranca o bico da cara e me tira a pose do corpo. Nós podemos fingir que não estamos tocados e seguirmos nossas vidas paralelamente só pra não variar o nosso conhecimento mútuo. Mas ainda que isso aconteça nada tira da minha cabeça que valeu a pena esperar esse tanto, e que, se fosse preciso, eu esperaria tudo de novo.
[Rani Ghazzaoui]


.::.E beijo né? Porque é de graça.


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Quarta-feira, Junho 01, 2005

SUPER EGO DESCONTROL



"Hate to love her and love to hate her."
[Maroon Five]


.::. Quer saber? Eu não dou a mínima pra tudo o que a gente disse até hoje. Eu não dou a mínima pro seu jeito de se vestir, e nem tampouco pras merdas que você fala pra mim toda vez que sente a necessidade de provar pra você mesmo, que embaixo da sua masculinidade forçada, eu ainda sou sua. Não dou a mínima pros desentendimentos que você causa nos meus sentimentos já antes mal entendidos, e nem pra vontade que eu tenho de agarrar teu pescoço sangüíneo e beijar tua boca macia que destila veneno pra dentro das minhas veias.

Quer saber? Eu vou deixar de ser boazinha. Eu vou cuspir na sua cara toda vez que eu olhar pra ela e sentir que ela ainda me perturba, eu não vou mais envaidecer você. Eu vou fechar meus olhos com força, fechar os ouvidos, fechar minha boca... eu vou fechar meu coração toda vez que você passar por perto de mim e ousar pensar em entrar lá de novo. Vou fechar as pernas pro meu desejo de você.

Quer saber? Eu vou passar na sua frente pomposa, empinando a bunda, encolhendo a barriga. Eu vou passar fingindo ser quem eu não sou só pelo fato de que conheço tão bem sua previsibilidade que sei que isso vai te excitar e você vai querer morrer por sentir que eu não olho mais pra você. Conheço tão bem minha previsibilidade que sei que depois disso vou pensar na hipótese de te conquistar de novo, e até sentir borboletas no estômago por isso.

Quer saber? Eu vou fazer coisas com pessoas que atinjam sua inatingibilidade e depois vou embora saltitando a sua humilhação. Vou fingir que que não pensei em você, e sair de lá assoviando a melodia melancólica das noites em que eram só eu e a sua ausência na cabeceira da minha cama. Eu vou rasgar o meu orgulho e enfiar suas mentiras goela abaixo, fazendo delas as minhas, e mentindo tudo de volta pro meu espelho distorcido, pros meus meninos-passatempo, pra todos os ouvintes que ocupam seu lugar e não são você.

Quer saber? Eu vou chorar meu amor contido, vou amar minha contenção gritada. Vou olhar fixamente pra você até a hora que o seu olhar encontrar o meu. Aí eu vou desviar, vou me fazer de difícil, vou ficar patética dizendo repetidamente que eu quero mais é que você se dane, e me danar por ver que não há saída porque os meus olhares voltam sempre pra você. E vou te xingar de um milhão de nomes, e vou parecer despeitada, e vou ficar feia por querer demais uma coisa que esperneio não querer.

Quer saber? Eu vou parar de falar todas essas coisas, eu vou parar de tentar me explicar, eu vou tentar entender o porquê da minha breve felicidade ser tão breve e do meu martírio de solidão contínua ser tão intenso. Eu vou parar de escrever bobagens, e não vou ler mais as primeiras linhas. Vou começar do fim pra ver se um dia consigo acertar o começo. E vou tentar não remexer em erros do passado, e também não mais fazer com que esses erros voltem a fazer parte do meu presente.

Quer saber? Eu vou abrir meus poros e deixar sair o cinza desgastado de um amor amargurado e vou deixar o branco novidade entrar e preencher os espaços esburacados. Deixao o cheiro de brisa aliviar o quente do gozo contido e das emoções reprimidas. deixar a água fria entrar e atenuar o quente morto na minha garganta, desatar o nó de todas as palavras não ditas.

Quer saber? Eu vou largar mão de bobagem e vou tentar ser feliz.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Um bjo crianças, se cuidem.


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