Terça-feira, Maio 17, 2005

AS PESSOAS SÃO MENTIROSAS, E AS VERDADES SÃO DISTORCIDAS.




"Everybody's empty and everything's so messed up..."
[Puddle of Mudd]


.::.Mesmo as pessoas que tentam parecer o mais normais que conseguem, mesmo os burocratas engravatados do fórum, mesmo as mães de família com sorriso no rosto e avental na cintura, mesmo eles, esse povo plastificado de mão no bolso e sorriso amarelo no rosto cheio de botox pra esconder a verdade, mesmo eles têm os seus momentos psicopatas.

E eu não sou lá o que se pode chamar de senhora do bom senso e, menos ainda, de rainha do auto-controle. Eu sou e sempre fui a escandalosa que grita, a desajeitada que senta de perna aberta, a sem noção que fala o que pensa na cara de quem não quer nem saber. E é óbvio que o meu jeito agrada a muitos e desagrada a vários; e que, eu, como uma moça da sociedade -- puritana de meia tigela com orgias à lá franciscanas -- devo carber-me dentro de mim a cada vez que um impulso convulsivo de voar no pescoço do qüinquagésimo filho da puta que me engana corre por dentro de mim. Eu devo ficar estática e nula, esperando pacientemente que o próximo palhaço de ombros largos venha fazer piada comigo de novo.

E não importa se as unhas cortam a palma da minha mão de tanto que eu fecho o punho. Não importa se o choro prende minha garganta e eu fico roxa asfixiada por tanto cinismo. Não importa o quente do meu rosto que me sua as costas e me faz mijar nas calças.

Só o que importa é o corpo duro e imutável, a minha eterna espera por alguma coisa que, no fundo, eu sei que não vem. Mas daí eu paro e me pergunto: e a minha vontade incomensurável de socar essa sua boca cheia de beijos falsos e de mentiras bonitas? E o sangue pisado nos meus olhos de querer arrancar devagar de você cada dor que você causa a outras pessoas? E a minha raiva irritante que me tira o sono por eu simplesmente ter que ser a menina normal e não poder vomitar meu ódio em você?

Porque todos vocês são iguais e não é justo que eu tenha que ser igualmente imbecil esperando que um dia vocês cresçam e parem de falar asneiras. Não é justo que eu tenha que envelhecer vendo que vocês simplesmente não envelhecem um mísero ano, ou uma semana, em vocês não envelhece nada. Não é justo ver que a porra das brincadeiras sem graça envelhecem tão somente a mim. Não é justo ter que ver cara de pau atrás de cara de pau e ainda fingir que sou uma simpatizante da peroba.

Eu odeio essa sociedade machista do caralho que fode com a vida de meninas que querem falar. Mas eu odeio mais ainda essa porra de feminismo que simplesmente acabou com o romantismo e o cavalheirismo dos homens. Eu odeio querer berrar os meus pulmões cansados e só poder sussurrar as minhas verdades enlatadas. Mas eu odeio mais ainda a sensação de frustração que é saber que por mais que eu odeie, que eu soque, que eu xingue e que eu grite, nada nessa merda de cabeça infantil de vocês vai mudar, e a minha única saída vai ser mesmo continuar brincando de estátua enquanto eu vejo a vida passando por mim.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Post de fúria yeah, yeah, yeah. Ouçam Blurry do Puddle of Mudd, é bem bacana.


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Quarta-feira, Maio 04, 2005

PRA BORRAR O BATOM E LIMPAR A ALMA



"Disse adeus e chorou, mas sem nenhum sinal de amor. Ela se vestiu e se olhou, sem luxo, mas se perfumou..."
[Paralamas do Sucesso]


.::.Eu fui pra frente do espelho e espalhei o batom vermelho do meio da boca pro começo das bochechas. Fui esfregando, apertando e seguindo um ritmo tão frenético que as pessoas que passavam por detrás deviam achar que eu estava louca. Eu despenteei o cabelo e soltei o sutiã que levantava meus peitos mas oprimia meu coração.

Lavei o rosto cansado, e sujei as rosas maçãs do meu rosto com um preto encardido que saia do rímel dos meus olhos. Eu peguei meu sobretudo de couro, e tirei meu scarpin rosa choque. Eu pisei no chão gelado e úmido e fui pra casa orgulhosa de ter agido como gente pelo menos uma vez na vida.

E fui andando devagar, e dessa vez eu não queria taxi. Fui andando no chão frio, com dor de estômago e frio no pé. Sozinha. Fui andando devagar embora eu soubesse que o certo mesmo seria tentar voar. Arranquei os brincos de strass, e amarrei na cintura o cachecol de seda. Tentava acreditar que aquela auto destruição me faria mais feia, e não via que feia eu fui em todas as vezes que fingi naturalidade ao ter me fantasiado de uma pessoa bonita.

Abri a porta e pisei devagar como que pra não acordar ninguém. Esqueci que eu estava sozinha em casa. Esqueci de todas as partes da minha casa, e de como eu me sentia sozinha nas noites frias em que todos os beijos e carinhos ficavam da porta da danceteria pra dentro. Esqueci que eu tinha medo, e que eu tinha tanta fome de jantar alguém pra não me sentir insegura e vazia à noite.

Esqueci de todas as coisas que sempre me ensinaram que eu devia lembrar. Esqueci que eu tinha vergonha da barriga que eu quase não tinha, e do meu cabelo enrolado.
Esqueci que precisava ser amada por alguém, e percebi que quem devia me amar era eu. Esqueci que devia ter uma alma escura coberta por mentiras, e lavei a minha no banho de chuva às quatro da manhã.

E eu tentava pensar em amor, em amizade, em família...mas tudo o que vinha à minha cabeça era o meu ego inflado que preenchia todos os vazios que todos os outros tinham deixado. E eu não queria me sentir egoísta, mas só pensava em quão bem a solidão me fazia de vez em
quando. Eu sentei no jardim e chorei o verde molhado da noite de outono. Eu engolia soluços atravessados e sentia meu peito esvaziando o catarro de uma vida tão falsa.

E o sol começou a nascer. E eu tentei pensar em você. E a minha mão andou sozinha pra um lugar que eu tinha esquecido que existia...eu fechei os olhos. Viazualizei todas as coisas que a gente sempre falava e, pra mim, nada mais daquilo fazia sentido. Levei a outra mão pro meio das pernas...de conchinha comigo mesma. E dormi.

O meu primeiro sono tranqüilo. A minha primeira noite digna. A primeira vez que eu fui tão importante pra mim, que não tive tempo de pensar em você.
[Rani Ghazzaoui]


.::.Beijos e cuidem-se!


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