Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

RETRATO: AUTO, REFLEXO, INVERSO, COMPLEXO E DUVIDOSO



.::. -- Prazer, meu nome é Rani.
E já começo assim, sendo diferente pelo nome; fugindo do senso comum e caindo nos olhos escancarados e nos grunidos de "Ahn???", daí vem a resposta manjada :"Sim, Rani, R-A-N-I.".

E apesar do meu nome não ser manjado, os rumos que minha vida andam levando são, e muito.

Sozinha, sozinha, sozinha. Em solidão é que começo a história de uma vida tão badalada. Uma vida de amigos presentes, de sonhos cumpridos, de sorrisos de madrugada. Sozinha, cá estou eu agora. Já não sei exatamente a quem devo chamar de amigo, e também já não é tão evidente a quem eu dedico minha amizade.

Outro dia estava conversando com uma amiga de infância sobre os nossos outros tempos. Uma conversa caduca de quem sabe que sente saudade do passado simplesmente porque o passado não é o presente. E não é que o passado tenha sido maravilhoso, completo e bonito...é que simplesmente ele é passado, e nós, como nostálgicos declarados, temos mais é que engrandece-lo -- ainda que de grande ele só tenha as teias de aranha empoeiradas do passado.

Tão engraçado me sentir uma velha ranzinza de 80 anos quando, na verdade, não tenho nem um quarto disso. É o ciático que dói, a cabeça que falha, o coração que está petrificado. Quem foi que disse que as coisas da cabeça não se manifestam no corpo? Aqui estou como prova de que é verdade. Aliás sou a prova viva de todas as constatações que foram necessárias para se criar a lei de Murphi. É, eu sou exagerada.

Outro sintoma da minha velhice mental é o esquecimento. Comecei o texto falando de amizades, de estar sozinha...e agora estou aqui quase fazendo uma encomenda de fraldas geriátricas por e-mail. Desculpem...

Voltando...
Fico meio tonta de me ver tão abandonada quando já fui o alvo de tantos sorrisos em minha direção. Tão patético ver como as pessoas tomam rumos diferentes na vida conforme o tempo vai passando. Mais patético ainda me sentir estagnada enquanto, aparentemente, todo o resto do mundo está andando.

Chegou a hora de andar então. De amor ou de ódio, pra mim tanto faz. Sentimentos maiores não mais vão me mover. Eu prometi -- e o anjo bom do lado direito da minha cabeça diz: "Raniii, você prometeu!", o diabinho do outro lado desesperado. Faculdade, superficialismo, movimentos milimetricamente calculados, atos contidos, choros forçados, risadas de canto de boca. Sem decote, sem unha comprida, sem chiclete na boca, sem naturalidade. Vou virar a menina que todo mundo chama de normal e dar adeus a criatura libidinosa, egocêntrica, questionadora e complexa que criei dentro de mim. Padrões comprados pra que um dia, diploma na mão, papai e mamãe orgulhosos, casa própria e carro do ano eu possa dizer que "Hoje é meu dia!".

Vamos começar de novo?
-- Prazer, meu nome é Maria.
Afinal até na TV andam dizendo que Hoje é dia de Maria.
[Rani Ghazzaoui]



.::. Um beijo, meninos.


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Sábado, Fevereiro 05, 2005

JUREI QUE NÃO IA MAIS. MENTI.



"...Ele saiu do carro envolto numa atmosfera de cervejas e fumaças já digeridas e outros tantos desejos que não iríamos mais digerir. Eu fui embora, tendo certeza mais uma vez de que nunca sou eu que vou embora."
[Tati Bernardi]



.::.E eu posso ficar aqui horas e horas falando. E eu posso fingir que sou descolada e que a solidão não me amedronta. e eu posso criar um universo paralelo cheio de sonhos para fugir da realidade. É, eu posso me enganar o quanto eu quiser, o quanto eu conseguir, o quanto for possível. Eu posso falar pra mim mesma, contar aos meus amigos, gritar para todo mundo ouvir. Eu posso, eu posso, eu posso.

Tanta posse de alguma coisa que não tenho, e que por mais que engane à todos -- e que engane à mim mesma -- não vou passar a ter.

E não é de hoje que me preocupo, e que em contrapartida não faço nada para mudar. É medo de ficar sozinha, de viver sozinha(...), amar sozinha como tantas vezes amei. Amor de perdição, amor de mutação, amor de doação, doação e pouca volta. De amar tão depressa, e dar logo o nome de "amor"; paixões platônicas e dorezinhas crescentes se instalaram em mim.

Uma malária sentimental. Tuberculose das idéias. E que se dane o romance besta!Não sei amar...paradoxo na minha cabeça. E sair a cada dia com um, na esperança de achar um pouco de você nele. Te procurando em cada bíceps, em cada barriga lisa, em cada cabelo jogado, em cada beijo ousado que não é seu. Fico eu aqui procurando em outras bocas, todas as palavras que eu quis ouvir você dizer.Tento achar nos filminhos patéticos o romance que tivemos e você nunca soube.E para me sentir menos usada, romantizo até o jeito dautônico que você me olhava -- sem enchergar minha cor --, aquele olhar de cansaço que eu, deitada no seu peito, insistia em fantasiar que era amor.

Você é um idiota. É um babaca cretino e sabe disso. Você frustra todas as expectativas que eu já tive em relação à alguém pra mim. E mesmo assim é em você que eu penso, é de você que eu lembro, é pra você que eu volto...sempre. Volto, eu, toda vulgarizada, de quatro. de cara, de corpo -- tão mais corpo -- e alma pra você.

E você? Você grune uma palavra, esboça um tesão, engasga um gemido. E eu com esperanças achando que posso mudar você. Você com sua típica cara de quem pouco se importa.

Tão simples é você. Tão previsível sou eu...

A vergonha que me dá de assumir que cair por alguém tão pífio, é oprimida no apertão que você me dá sem cerimônia assim que me vê. E o romancezinho cinematográfico, que em sempre sonhei pra mim, vai embora no bater de portas, na madrugada de verão, no tereré pela metade, no lençol amassarocado, aquela mancha no colchão.

E você, meu romance ideal, é tanta futilidade, é tanto egocentrismo, é tanta habilidade, é tanta idiotice, que me odeio a cada madrugada, a cada abrir de olhos, a cada suspiro mais longo, a cada toque no meu corpo que ainda me remete à você.

Por que você não sai de mim?
[Rani Ghazzaoui]



.::. Beijos!


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