Domingo, Agosto 10, 2008

AQUELE OCEANO AINDA EXISTE.



"There is no greater love than what i feel for you."
[ainda tentando avisar a Amy que ela não pode morrer.]


.:. O grande problema dela é que ela insistia em buscar a graça da vida em tudo. Tudo tinha que ter um propósito claro que levasse à felicidade, que fizesse ser mais fácil depois mesmo que agora fosse um caos. Ela sentou naquele banco meio mofado de transporte público e enquanto todas as células do seu corpo repeliam a sujeira, ela se concentrava na música do ipod e tentava analisar a vida dela naquela melodia. O indiano sentado no banco da frente tinha cheiro de azedo e cara de, hum, azedo. Ela antes teria raiva, teria ódio, teria preconceito, mas agora era ela o indiano. Agora ela era a pessoa que acorda cedo, dorme tarde, come errado. A pessoa que caminha no meio das outras e não enxerga nada porque não tem tempo, porque tem muita pressa e muito cansaço, porque tem muita fome mas não de comida.

As pessoas passam a vida inteira tendo medo de morrer, tendo medo de amar e guardando dentro de si tudo o que de ruim acontece pra poder depois então se culparem por não terem sido felizes.

Ela ligava para o namorado no meio da noite chorando e não dizia nada. A dor dela era tão confusa que não adiantava tentar explicar. Suas grandes emoções se mostravam em palavras pequenas. Ela tinha medo de tudo dar errado, tinha medo de o mundo separar o que o destino fingiou ser certo, tinha medo de pela quantidade de medo que ela sentia, ele simplesmente não achar que valesse mais à pena. E depois da briga, a cada toque que o telefone dava, sem resposta, era como se o coração dela fosse ficando menor, comprimido, amassando em um espaço curto todas as sensações que ela carregava ali pra viver durante uma vida toda. E era tão injusto com ela tudo se compactar tanto.

Mas ele também sentia. Sentia culpa porque não foi do jeito que planejaram, sentia vontade de resolver o que não estava ao alcance de suas mãos, sentia falta de um poder sobre sua própria vida que, agora, ele parecia ter perdido. E quando o seu telefone tocava ele não queria atender porque ele sabia que dalí viria o choro e, pra ele, era muito insuportável ouvir a única pessoa o fazia se sentir vivo morrendo.

Acontece que as noites passavam repetidas pra dar lugar aos dias que não se viam. Tudo acontecia rápido e batido. Os olhos no despertador, a escova nos dentes, os sapatos nos pés, os pés de lá pra cá o dia todo, as mãos no telefone, as palavras que não se deveria dizer, o choro que não encontrava outro caminho, a cabeça no travesseiro. O dia começou de novo.

E não importava se com compaixão ou com raiva. Não importava quantas coisas eles dissessem pra se machucar aos poucos com medo de um dia não ter mais volta. Não importava em que fuso estavam ou se o horóscopo disse que a única solução era acreditar. O que importava é que estavam cansados, estavam mudos e um pouco burros. Estavam com medo de escuro mas não tinha aonde acender a luz. O que importava é que descobriram que se vive de amor sim, mas que pra isso se sofre muito.

O grande problema dela é que insistia em buscar a graça da vida em tudo. E tudo o que ela tinha vivido antes, embora parecesse tão fácil, com certeza não a fez sorrir. E ela sabia que iria chorar mais, que iria chorar muito mais. Ela sabia que talvez não estivesse perto, que ainda não estivesse exatamente ao alcance de um abraço ou à facilidade de um beijo que explica tudo. Ela sabia que podia ter feito a escolha mais fácil e se poupado de tantas noites sem dormir com o peso do mundo inteiro separando ela do seu travesseiro, mas acontece que a cada vez que a voz dele respondia do outro lado da linha, a cada silêncio que preenchia todo o vazio de respostas e a cada fim de dia que, mesmo sem ele, ele estava com ela, ela sabia.

Escolher entre a paz e o amor é a decisão mais importante de uma vida, mas pensando bem, que espécie de paz seria essa sem as mãos dele na nuca dela, os pés esquentando uns aos outros, as guerras de ciúme que acabavam quentes e úmidas e sem nenhuma tropa inimiga por perto? O que seria da vida dela se não um marasmo não fosse a vida dele? E embora fosse difícil e doesse mais alto do que ela pudesse gritar, ela sabia que aquilo que eles tinham não se encontrava num bar, num restaurante ou nas piadas cheirando à cerveja e sacanagem que saíam da boca de qualquer outra pessoa por aí. O que eles tinham tinha a força de uma saudade até quando eles estavam juntos e, isso, risada nenhuma podia pagar. Rir só era tão pouco.

Talvez então, pensou, não valesse tanto a pena querer buscar só a risada. Lembrou então - fechando os olhos cansados de olhar em volta - que quando ela pensava nele não dava tempo de achar graça, não dava tempo de questionar mais e nem de pensar que era infeliz. Pensar nele era tanto sorriso. E aí ela finalmente então entendeu o que o mundo todo queria dizer quando explicou que sem a guerra não há a paz.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Vir aqui me faz tanta falta!
Saudade de falar com vocês, crianças!


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Sábado, Maio 17, 2008

TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA.



"So he tries to pacify her, but what's inside her never dies."
[alguém avisa a Amy que é muito talento concentrado pra se estragar assim?]


.::. E, na verdade, ela só queria saber quando foi que tudo virou isso, desse jeito confuso e pesado que é agora, que dói de respirar, de comer, de pensar. Acordar com vontade de voltar a dormir porque encarar a vida se tornou uma tortura que se repete. Os dias se repetem esfregando na cara tudo o que ela tenho de bom na vida, mas não dá valor.

E vai ver que aquela outra, que olha tudo com olhos grandes, esteja certa. Vai ver que a vida desta seja mesmo tão sem graça que é melhor querer a da outra. Vai ver que a explicação que ela vai dar é que, melhor do que sofrer sem amor, é sofrer por causa dele. Porque enquanto pra uma é tanto vazio, pra outra é tudo o que se tem de máximo, misturado. Sabe a sensação de gostar tanto, de querer tanto, de precisar tanto que chega a sufocar? Sabe ir dormir à noite com medo do que vai sonhar e acordar de manhã tateando o nada, até encontrar o que quer e ter certeza de que ele ainda esta lá?

Ela sentia. Sentia até cortar as linhas da sua racionalidade. Ela sabia até sangrar sem ninguém ver, justamente pra doer sem sentido nos olhares do mundo.

Pra querm sempre amou de pouquinhos, porque nunca iria se entregar inteira, amar de verdade machuca porque exige demais. Exige mais paciência do que ela parece ter, mais companheirismo do que consegue dar, mais amor próprio porque quando ela ama, ela ama muito e é fiél demais. Não dá pra amar igual duas pessoas ao mesmo tempo.

É como se tudo o que ela sempre disse estivesse se voltando contra ela mesma, por vingança ou qualquer coisa, por vontade de fazer não ser tão fácil agora que é alguma coisa de verdade. Como uma punição por ela ter sempre sido tão dramática com coisas pequenas, com as bobeiras e as pessoas de meias horas. Vai ver sofrer assim agora era uma maneira de sempre lembrar de quando ela sofria de mentira, pra mostrar qualquer coisa pro mundo que ela tinha certeza que a enxergava, pra provar qualquer coisa pra alguém que, até hoje, ela nao conseguiu descobrir quem é.

Só que está ficando feio. E a sujeira vai transbordando dela em direçào à ele. O amor que ele sente por ela se quebrando em pedaços pequenos porque o que existe dentro dela é tão forte que parece que não vai embora jamais. Ele abraçava seus braços, tapava seus ouvidos, segurava sua cabeça pra cima, mantinha-a erguida porque o discernimento dela estava caído, de novo, naquele chão e, se ela olhasse pra baixo, só iria escorrer mais. Ele segurava de todos os lados, de todos os jeitos, com todas as forças, mas não adiantava e, talvez, ele tivesse mesmo já descoberto que proteger alguém de si mesmo é – se não a mais – uma das tarefas mais difíceis desse mundo.

E não adianta ele querer muito e ela jurar que consegue se, no fundo, ela não está tentando como devia e ele não está acreditando com todo o coração. O coração dele também morreu, e ela sabe que a culpa é dela.

Então a história vai seguir assim, ele do seu lado e o mundo contra ela porque, repare, ela mesma não conmseguiu ainda se encontrar e embora sua companhia esteja cheia a sua alma está vazia.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Eu sumo, mas eu volto!
Muitas coisas rolando aqui na terra down under, crianças. Se cuidem, queridos!


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Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

NA PENUMBRA, A LICENÇA PARA A DESCULPA.



.::. Eu estava precisando de um tempo do mundo. Me fechar um pouco dentro do meu quarto, aquele bem escuro que existe dentro de mim, e tapar um pouco os meus ouvidos pra todos os barulhos externos que andavam me ensurdecendo. Eu estava precisando de uma folga de tudo pra eu poder ser eu mesma, mesmo que isso significasse não ser tão boa em tudo como todo mundo julgava que eu devesse ser. Precisava fechar os olhos e chorar, sabe? Mas não um choro com lágrimas que corressem fora dos meus olhos, não. Eu precisava me chorar um pouco, chorar fundo, me rezar, me acalmar sozinha, me olhar melhor porque eu andava tão perdida dentro de mim. Eu estava com mais medo do que qualquer um poderia supor, ninguém suporia por fora, porque por fora ainda era só o belo. Eu precisava de um tempo de reclusões pro meu belo não ser só externo, e pra eu voltar a ser bonita.

Eu estava precisando de um tempo sem muitas mentiras. As poucas eu até poderia lidar, aos poucos. Mas não mais as mentiras feias, as sujas, as que até eu mesma tinha vergonha de contar pra mim. Eu precisava de encanto de céu, de mar e de lua à portas trancadas e paredes altas, sem teto.

Eu deveria ter parado tudo o que eu estava fazendo, parado as contas, as trapassas, as esperas e os planos. Eu devia ter deitado a minha cabeça no meu travesseiro com mais dignidade porque naquela hora ainda havia alguma envolvida em tudo o que eu fiz com você. Eu devia ter perdido o rumo pro caminho certo e não ter tentado ser o que eu não era, o que eu não sabia, o que eu não queria só pra sentir que há qualquer custo a gente não se perderia da gente, na nossa bagunça da distância, no nosso caos do amor.

E eu errei com todas as minhas forças. Fechei os meus olhos pro óbvio e acendi as luzes do escuro que existia em mim. Mas o fato era, eu precisava dele. Eu precisava da penumbra pra descansar, pra recarregar, pra continuar entendendo que lutar por você valia à pena cada madrugada que a gente passou acordado esperando a droga de um milagre qualquer acontecer. Eu não conseguia, entretanto, entender que os milagres são só história mas nós somos verdade, e que a nossa vontade consegue tantas mais coisas do que conseguem eles.

Mas eu preferi ser fraca porque é assim que agem as pessoas infalíveis que prevêm uma falha, elas põem a culpa na fraquesa, no cansaço, na dificuldade da vida, no trânsito e no joanete inflamado no pé esquerdo. E eu não queria ser uma dessas pessoas babacas, mesquinhas, vazias e tão parecidas com todas aquelas do mundo que a gente estava correndo, mas eu fui.

Eu entortei nossa verdade com uma mentira minha, estúpida e resolvi desaguar tudo o que doía de antes, de depois, de durante, de qualquer tempo num espaço curto de tempo por sentir que já havíamos perdido a noção da hora.

O choro foi mútuo e contínuo, quase um abraço perfeito. Porque foi na imperfeição daquela situaçao doída que eu me dei conta que os seus braços eram meu refúgio certo, que seu perfume era o meu cheirinho de casa, que sua boca nasceu pra beijar a minha e que as minhas madrugadas sem os seus sonhos iriam continuar frias e molhadas no meu quartinho sempre apagado, sempre tão escondido do mundo com seus muros altos, sempre sem você.

Do pior jeito eu descobri que não adianta lutar errado, não adianta fugir errado, não adianta querer errado quando o certo está bem ali. Do pior jeito eu enxerguei as verdades que você sempre me disse, enxerguei a minha derrota, a sua partida e toda essa força que eu não sei explicar que nos une tão forte que é quase impossível não voltar. Do pior jeito eu percebi que a vida não é tão engraçada e jamais vai ser, mas que a noite passa macia e o dia flui melhor quando a gente ama quem a gente ama, exatamente do jeito que essa pessoa é. E agora, com o sol mostrando o caminho que deixou de ser meu pra ser nosso, eu sei que aprendi.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Um beijo crianças, e bom carnaval!


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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

VOCÊ VENCEU.



"teu paletó enlaça o meu vestido, e o meu sapato ainda pisa no teu."
[se até chico foi perdoado pela cafonice, por que não seria também eu?]


.::. Eu podia ter escolhido o caos, mas eu escolhi você. Tive medo de tantas coisas, corri atrás de tantas histórias que seriam piada na boca de outras pessoas, eu tentei escapar das escolhas que eu mesma fiz ao longo de todos os anos. Nada adiantou.

Sempre ousei preencher suas lacunas com tantas outras pessoas. Eu me esforcei demais pra acreditar que a falta que eu sentia das nossas madrugadas eram apenas buracos que podiam ser recheados com qualquer sensação que suprisse o oco, com qualquer palpitação mais indicativa, com aquilo que latejasse no lugar certo, na hora certa e não necessariamente com a pessoa certa.

Mas eu confesso que fui burra. Porque eu me fazia de difícil mas todas as vezes que o sol levantava meio cinza era pra você que eu ligava. Porque nos dias de chuva era o seu cheiro e o peso do seu corpo no meu que eu queria sentir. Quando a madrugada esfriava e gelava os meus pés eu só queria trocar minhas meias por você me abraçando forte e fazendo o medo de congelar ir embora junto com as minhas sensações forçadas. A grande verdade de tudo é que eu me esforcei tanto pra acreditar que você não era o homem da minha vida porque eu jamais acreditei em nada tão brega como scarpins caramelo e amores de uma vida inteira.

A minha mania de banalizar sentimentos devia ter te empurrado pra bem longe de mim, mas o seu abraço é comprido e sua sede por mim é eterna e você não desistiu de me alcançar.

Quando eu disse que eu fiz tudo sozinha, que sem mim nada teria dado certo, que as manhãs continuariam incertas e que a verdade dos nossos olhos jamais seria descoberta, eu também estava mentindo. A minha alma covarde não foi capaz de assumir pra si mesma um amor, quem dirá assumir um passo tão nobre para o mundo. Eu precisava reclamar do que fiz pela gente pra acreditar que eu era melhor do que você e, assim, continuar desgostando de você. Mas eu não consegui.

A força está com você e as suas certezas transpiram não sei como dizendo à quatro ventos o quão melhor do que eu você é. Eu não tenho argumentos de negação.

E eu errei em cada pedaço mal contado da nossa história. Porque no fundo eu sei que quem conta esses capítulos sou eu, com a minha métrica compassada de quem acha que seu único dom é a palavra. Mais uma vez errada, então. As minhas palavras acabaram confundindo os caminhos tão claros porque eu sempre preferi o drama emocional; daí a sua admiração por mim quando eu me despia das minhas dúvidas e começava a fazer comédia.

Mas agora é risada e eu sei. Porque depois de tantos porquês não há nada mais justo que a felicidade simples, ainda que ela dure pouco, ainda que enlouqueçamos depois dela, ainda que a vida faça sentido só por aqueles segundos e depois não mais. O que me importa são os momentos felizes que estão por vir e que vamos viver sem medo do amanhã porque o nosso depois é o que passamos esperando por todo o agora.

Quero me segurar em você até não ter mais encaixe possível, quero suas mãos no meu rosto inteiro pra eu fechar os olhos gigante, pra eu poder chorar até secar a última mágoa na sua camiseta que agora vai ter o meu cheiro misturado no seu. Quero que o sol se ponha em silêncio pra ver a gente andar na praia, que as nossas bocas conversem grudadas e os nossos olhos aprendam a falar uns com os outros. Hoje eu quero o que eu sempre estive procurando com tantas outras pessoas por aí fingindo não saber que eu sabia que o meu breve momento podia ser eterno se eu entendesse que havia de ser com você.

Eu podia ter continuado na batalha, esperando ligações cheias de segundas intenções que não iam sair do vazio de uma cama cheia de lençóis, frustrações e distâncias pré-estabelecidas. Podia ter andado em linha reta pra não enxergar você a cada desvio, a cada ato falho da razão me mostrando a minha sensação por você fazendo força contra a vida mesquinha que eu queria levar pra não sofrer. Eu podia ter sido covarde por mais vinte anos, e mais vinte, pra sempre. Mas a sua coragem transbordou em mim e me deu a lucidez que faltava pra eu enxergar que a luz da chegada, o respiro do sossego e a leveza da escolha certa estavam guardadas, pra mim, em você.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, viajo daqui há 3 dias. Talvez eu suma por algum, mas não muito, tempo. Afinal, vocês sabem qu eu não agüento.
Cuidem-se. E um beijo gigantesco de enorme na bochecha de cada um.


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Quinta-feira, Novembro 01, 2007

CAFÉ DA MANHÃ SEM AÇÚCAR.



"hay milonga de amor. este tango es para vos."
[algo de inexplicável acontece quando começa a tocar o gotan.]


.::. Acabou o jejum.
E depois de alguns meses sem conseguir desenhar as palavras com perfeição, minha sintaxe veio ambiciosa, querendo mostrar serviço, impressionar, ganhar o lugar que tinha perdido para o tempo. Fazia tempo que o que era sentido estava confuso e sem nome. Risada, amor.

Voltei. E percebi que dei pra pensar que, com os anos, alguns sentimentos de outrora se tornaram estranhos. A leveza de muitas coisas foi embora, assim como fomos nós, saindo por todas as portas que não soubemos manter entreabertas. Mas o que eu não entendo, mesmo que tente muito, é como delimitamos o limite da verdade, onde fica mesmo a linha imaginária que dá um basta no querer? Por que será que sempre o outro lado é o que se pode, o paupável, o certo e bonitinho. Será que só é assim porque está, enfim, do outro lado da faixa de segurança da vida?

Uma menina se apaixonou por um peixe. Ela queria ter, então, nadadeiras, barbatanas, uma grande cauda azul-anil, queria poder respirar embaixo d’água. A história continuou romântica e com espírito de aventura por alguns capítulos, mas no final a menina, tão humana, se afogou.

Assim acontece com todas as pessoas todos os dias. Misturamos as linhas do possível com o provável, acenamos em direções contrárias aos ventos que sopram a nosso favor, corremos pro mergulho no mar da sorte quando poderíamos ter, logo aqui, um riachinho xôxo de amor certeiro. Ninguém quer amar certo, porque amar certo, sem fugas, sem medos, sem ânsias de corpos inteiros se perdendo em pedaços não dá tesão. E ser humano, de carne, osso e sêmem, precisa de um tantinho de tesão.

Um menino se apaixonou por uma princesa. Ela era bonita demais pra ser verdade, era educada demais pra existir, cheirava à damas-da-noite com jasmim, recitava poesias sem muito açúcar, era azeda e ardida na medida, queria casar com um príncipe, mas não de véu, grinalda e buquê. A princesa gostava muito de cerveja, mas não arrotava porque era polida demais pra ser humana. Tinha a voz mais linda do mundo, mas cantava pouco porque era comedida como jamais outra mulher tivera sido no mundo. A princesa, do menino que pode ter de quinze a quarenta anos, não existia.

As realidades eram várias, as estações passaram sem eu perceber porque, quando me dei conta, eram quarenta graus escorrendo em pleno outono. Mas quem ficou pra trás? As horas passaram por mim, ou fui eu que, sem acreditar nas circunstâncias, me despedi delas?

E a vida continuava engraçada. As pessoas continuavam se apaixonando não por quem estava ali, na frente, mas sim por quem estava lá, do lado de dentro delas. As músicas continuavam tocando, Paris ainda inspirava um amor vintage e comédias românticas pretendiam alguma esperança, também, ao amor. O mundo ainda era gigante o suficiente para um amor em cada porto, e um cais pra cada caos. A bagunça ilimitada de sentir tudo o que se pode, com quem se está, onde estivermos.

A vida é mesmo um pouco disso. Falamos muito de amor, porque ele assim, cheio de acertos mágicos, não existe. No fundo todos sabemos.

Acabou o jejum.
Chega de peixes encantados e princesas presas às suas torres. Quero falar pouco de mim e pensar menos em amor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E pode passar o tempo que for, eu sempre volto pras minhas crianças.


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Terça-feira, Setembro 04, 2007

AS HORAS



"do you believe she said that? can you believe she repeated that? i said i hate myself and i want to die."
[cat power no tim festival já esgotou. eu não sossego até conseguir o meu. palavra de escoteira.]


.::. O momento me pedia, quase implorava, serenidade para escrever. Estruturar em palavras o que se passava aqui dentro, hoje. Pedia baixinho para causar vontade, mas não tinha sucesso e acabava berrando dentro de mim. Caía junto com as lágrimas, as risadas, os pontapés e os afagos mudos, todos ao mesmo tempo. Ensurdecia.

“Não, eu não estou louca.”
Eu costumava me consolar assim. Eu tinha medo das certezas e pavor do que eu não sabia. Tudo era sempre mais complicado do que eu supunha, do que eu tinha certeza. A felicidade era histérica sim, mas só na vida dos outros.

Aqui era silêncio. De doer, de rachar.

Me perguntava por que passavam, então, tão rápidos os dias. Quase batidos, quase como se eu realmente estivesse vivendo a minha vida. Esperando pelos segundos que viriam, pelas esperas que findariam, pela vontade de todas as coisas que tinha sumido junto com o meu tempo que passava acelerado.

Eu queria andar devagar, respirar a brisa, enxergar as flores. Mas parecia piada. Tudo passava na velocidade da luz, nada queria realmente permanecer. Os objetivos todos dispersos e você, lá, parado no final do túnel, esperando a corrida começar, com a bandeira da chegada na mão.

Quando é que sabemos que a adolescência acabou? Porque quando acaba a infância, e ela começa, a gente ganha algumas espinhas, um tanto de hormônios, outras vontades e ok, tudo fica explicitado o suficiente pra gente trocar os brinquedos de plástico por outros de carne e osso.

Mas e a maturidade? Quando é que ela chega?

Será que o fato de o dia parecer mais curto identifica a fase adulta? Será que o trabalho se vinga da gente, sempre sendo maior do que o nosso tempo, só pra mostrar que não demos valor pra uma infância cheia de sonecas à tarde e bolos de cenoura depois? Será que a vida vai, mesmo, ficando cada vez pior ou somos nós que usamos a nostalgia como forma de nos consolar dos problemas nos confortando em alguma coisa macia do passado?

Eu não sei.

Eu não sei a partir de onde foi que eu virei a mulher cheia de questionamentos repetidos, que sorri, anda, inventa, se molda, é forte, é segura, é madura, e elegante, e sorridente, e feliz, e tão incompleta. Quando foi que a felicidade deixou de bastar para me fazer – sim, o palpite está certo – feliz?

Mas não é só você. Não é só você e eu sei. Não são só as coisas que a gente diz e, muito menos, só aquelas que vivemos esperando. É muito mais do que isso, o meu vazio vai além. Porque eu me completo de pedaços, porque vivo num mundo desigual, porque o que era bom ontem, hoje já não é mais, e assim as coisas vão passando. O meu vazio está repleto de medos. Não seus, não nossos, mas de futuro, de mundo, de quem exatamente eu sou.

As horas passam batidas e eu bambeio fazendo contas de cabeça. Vinte e quatro vezes trinta e um, noventa e seis vezes doze, novecentos e cinqüenta e dois. Os múltiplos multiplicam o que eu não sei, o que me sufoca no calor do dia a dia, de todas as relações. Talvez eu não esteja apta a me relacionar com o mundo... nem com você.

Ele gira, eu giro, a verdade gira, rodopia e bate na minha cara.

As noites são pequenas pro meu sono, os dias grandes demais pras minhas dúvidas. Eu quero parar, eu quero fugir, eu quero voar pra onde haja cheiro de infância, o rosto da minha avó, as pernas grandes da minha mãe, onde eu me escondia tanto, tão protegida. Eu quero um mundo de verdades, que seja de mentirinha, pra eu me sentir confortável. Eu quero me sentar a mesa e esperar o meu banquete de felicidade, que não vai vir.

Não é quando a gente para de se importar com a gente, que a gente morre? A gente não morre quando estamos muito machucados, mas a vida não para de doer?

Mas ele me diz que não. Ele diz que a vida anda em frente, mas que sempre há dois lados. Ele me fala de força, de visão e de depois. Porque, segundo ele, sempre há um além, um horizonte, um movimento seguinte, mais claro.

Eu, tantas e tantas vezes, tinha medo de mim, da minha escuridão que me confundia, sozinha. Mas, ainda assim, - e por muita sorte - me restava você, a bandeira da chegada e toda sua claridade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, acreditem: não é introspecção o caso, é pura falta de tempo mesmo.
Um beijo.



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Sábado, Julho 28, 2007

CORRE, COTIA: DIA E NOITE, NOITE E DIA.



"said i many times, love is illusion, a feeling result of confusion (...) i feel so sure, so positive, so utterly unchangeably certain. though i never was aware of loving you, 'til i suddenly realised there was love in you."
[um dos vícios da vez é jamie cullum inteiro: a voz, as canções e ele dançando 'don'tcha' no palco.]


.::. Só sei que começou devagar pra não ser descarado. Queria todas as partes que restavam de discernimento e conseguiu, é só olhar. Nunca houve a certeza tão concreta da necessidade de mudanças tão extremas pra ficar junto de alguém. Tão junto.

Era engraçado à medida que acontecia, porque ia acontecendo sempre igual, os dias repetiam as sensações daqueles dois que sonhavam, daquelas almas que ficavam pedindo acalanto, sossego, mas só brigavam. Quem grita precisa de muitas iras entaladas, eles só tinham uma. E bastava.

Quando o dia começava de manhã, era como se a esperança se renovasse junto com o sol que, assim como eles, também ontem se deitou. Mas eles se deitavam em horas diferentes e o sol deles nunca concordava a hora certa de estar em paz. À medida que o dia esquentava, esquentavam também os ânimos, os desânimos, e a raiva que sentiam do mundo, da vida e do outro por nada poderem fazer. Doía.

Só sei que se passaram as horas. Sem jeito, sempre em frente: os sentimentos incandescentes, sempre em brasas vermelhas.

Quando o sol sossegava e começava a querer fugir do que causou, vinham então as estrelas, tão espertas. Propunham brilhar-se todas e entreter os dois, fazê-los amolecer com o frio da noite e dizer bobagens quaisquer pra esquecer o que se passava. Não dava.

As estrelas deles vinham separadas, também. Por oceanos, terras, mares, rios, plantas, ventos, tudo. Era muito longe. Ele cá, ela lá. Doía de novo.

A noite propunha sacanagem e desgosto de estar só. Mas ao final só sobrava o segundo e a certeza de que era mesmo a maior sacanagem da história estarem sem poder se tocar, daquele jeito.

Quando o quente esfria com as brisas noturnas, então, vem o refresco ruim que não pediram. Vem a censura pessoal, os questionamentos em dupla, e as discussões infindáveis que realmente não vão sair dali, em círculos.

Só sei que choravam. Cada qual ao seu modo, cada um com o que tinha para lavar a alma. Ela os olhos, ele as risadas sem graça de quem está muito mais desesperado do que aparenta.

Aí pensavam em largar tudo, em largar trabalho, escola, família. Em se largar em nome do outro. E desistiam. Doía.

A voz ao telefone quase sempre tremia. Não havia mais estabilidade nesse mundo que conseguisse conectar essas vontades tão latentes. Até porque, enquanto um amanhecia, o outro adormecia e seguiam os dias com essa bricadeira de gato e rato que nunca se encontram.

Ficavam assim, então: sobrevivendo a cada dia e esmorecendo a cada noite. Lutando contra o medo do mundo e o medo deles mesmos, por estarem em mundos tão diferentes por hora, agora, pra sempre, quem sabe? Não sabiam.

Tentavam acreditar numa mudança, num descaso do destino que insistiu em manter-lhes assim. Um descuido que deixasse um deles passar, fugido. Tentavam fugir da verdade e se encontrar um no outro, mas se perdiam. Estavam perdidos. Nos dias quentes, nas noites longas, na espera fria.

Só sei que doía.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, que saudade que eu tava de tudo por aqui!
Beijos, crianças.


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Segunda-feira, Junho 25, 2007

AQUELE BRILHO QUE OFUSCA, É MENTIRA.



"once i wanted to be the greatest/ no wind or waterfall could stop me/ and then came the rush of the flood/ the stars at night turned you to dust."
[um vício muito justificável na voz macia de chan marshall. cat power vale à pena.]


.::. Aquele dia eu tive medo. De verdade, de cair.

Eu despenquei no meio dos fatos porque as pernas cediam já havia um tempo. Já passavam algumas fases que a minha crença ia indo, fundindo com os atos, as conseqüências, as faltas de medida. Desmedido estava o pavor em mim, de ver você daquele jeito, bem na minha frente.

Não era falta de compreensão. Eu juro que queria entender. Havia anos que a minha vida, pra mim, era simples, líquida, transcorrente pelos meus dedos.

Ok. Não no sentido de simplicidade, não neste. Mas, pelo menos, eu sempre soube que as confusões, misturas, sensações, tumultos, revoltas, amores, bagunças, enfim, tudo existia ali por um porquê, por um - ou vários - motivos que eu mesma criei de um jeito ou de outro, agora, ontem ou depois. Por mais que estivesse difícil, eu sempre tinha estado no controle. Era eu, meu egocentrismo, o meu lado narcizo e a minha coragem de estampar, pro mundo, os meus medos.

As nuvens andaram tortas e se confundiram de estação. O céu resolveu escurecer em cima das nossas cabeças mostrando que egoísmo, agora, não ia ajudar muito, não ia resolver o problema, os problemas, os lapsos de sanidade que existem nas vidas das pessoas todas. Nós fazemos parte, ao menos disso.

Eu ria, mas tremelicava toda por dentro. Eu queria chorar até alagar todas as burradas pra afundar o que foi e ser a partir dalí. Não dava. Latejava estranho por todas as partes do meu corpo os pecados que eu não cometi. Os joelhos continuavam ralados e sangrando, aquele sangue que não era meu, nem dela, mas seu. E ele precisava jorrar.

E o céu já não era mais azul, era vermelho como no filme onde nada se via, de luz apagada pra sempre. Como se num minuto tivessem roubado todas as nossas certezas e só uma permanecesse. Eu continuava lutando por ela, de mãos fechadas, dentes cerrados e olhos entre abertos.

A gente não podia exergar tudo porque era a incerteza do muito que confortava de certa forma. Era o medo de um futuro errado que empurrava pra frente. Eu precisava caminhar. Certas ruas ficaram estreitas, algumas estrelas perderam o brilho. A minha música preferida já não dizia muitas coisas porque o meu conceito de amor mudou, e muito.

E eu já não quero brilhos. Percebi, só agora, que a luminosidade me cansa. É na penumbra que os medos se descobrem, se roçam e se encaixam. É na sede de querer se salvar que a gente bebe o outro, gelado ou quente, tanto faz. As sombras, que não têm feição mas sim formato, me mostraram que eu errei tanto quanto você.

Vou deitar quente no seu peito até o dia chegar, mas aí eu vou fechar as cortinas e ficar. Só mais um pouco, eu juro.

E você vai fugir de você, porque assim há de ser. Mas eu, vou estar aqui, no escurinho da sua única certeza, te esperando com o amor que eu nunca duvidei poder te dar.

Feche a porta.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E qual universitário no mundo tem tempo de escrever em final de semestre?
Mas eu sempre volto, crianças, vocês sabem.
Um beijo grande.


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Domingo, Junho 03, 2007

ALGUNS MILHÕES DE METROS RASOS



"tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio."
[tão macia a voz da fernanta takae que até dá nervoso. sobre o tempo, pato fu.]


.::. Eram horas distantes aquelas. Pareciam tão longe de mim, inquietas por não poderem passar logo e juntar o que eu sonhava com o que eu queria, numa coisa só, bem na minha frente. Um ano tem 365 dias. Um grande múltiplo de cinco que ia ficando menor a cada cinco minutos a menos que nos separavam. O relógio podia não ser exatamente ágil, mas era nosso amigo.

Alguma coisa não está certa aqui. Passa longe de ser visível aos meus ou a quaisquer outros olhos, mas existe. Lateja forte durante a noite e eu me recolho, me encolho, me embrulho, como se procurasse um jeito de, em mim, encontrar um pedaço de você. Mas não dá mais, e dói.

Nos sonhos é como se eu corresse, gritasse, esmurasse o mundo sem que, entretanto, nada acontecesse. Parece que há, em mim, uma verdade tão escancarada que se torna ridícula. E riem, e blefam, e se intutilam profetas do meu, do nosso destino. Quanta bobagem, quanta cretinisse, quanta e tanta chatice.

Mas não me importo. Não me iludo mais com promessas fáceis de amores eternos. A vida me mostrou vez após vez que nada do que vem correndo, acaba por sossegar e se manter parado, não existe a possibilidade. Não existe possibilidade de amor sem história, sem derrotas, sem sangue pisado no coração, sem garganta trancada e meleca no nariz de tanto chorar. Amar não é só bonito e, pra ser hora ou outra, é feio demais no caminho.

Cansei de viver num mundo onde temos que ser perfeitas: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes culinários, a inteligência, a meiguisse, as amigas, os respeitos, os beijos na testa, as pernas cruzadas. Mas cansei mais ainda de viver no mundo onde temos que ser vadias insaciáveis: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes dos decotes, o pouco cérebro, o sex appeal, as amigas, as dissimulações, os beijos de pornochanchada, as pernas esguias, compridas e abertas, sempre.

Eu não faço parte. Me falta quietude pra ser serena e impetuosidade pra ser agressiva.

Me falta vontade.

Acaba que me tornei o morno que engasga na goela, que não desce nem regurgita. Acaba que acabo me questionando muito, esperando muito do mundo, das mudanças, do que vem depois de você. Acaba que acabo com meu sossego pensando que está errado, que não era pra ser assim, que a vida é uma merda fedida. Acaba que acabo comigo e com tudo o que faz parte de mim, mesmo externamente.

As pessoas correm e todas elas passam junto com as horas que também se vão. Eu arrumei um banquinho escondido que me deixa ver tudo, ver tanto, até me cegar. Eu fecho meus olhos e respiro grande, deixo invadir os vasos, quero que exploda tudo. Eu não falo mais em primeira pessoa, porque agora somos terceira.

Você aqui, eu aí. Vocês sendo nós. Pluralidade que é pra não correr o risco de eu me esquecer. Eram mesmo distante as horas, mas elas iriam sempre estar lá, assim como nós mesmos aqui, ou lá, de novo.

Fiquei pensando - do meu banquinho inventado - que podiam mesmo correr todas as pessoas, e passar. Pra você, que importa, finalmente permanecer, não tem outro jeito, só esperar.

Que passem os outros então. Que corram, que se atropelem, que dancem músicas sem melodia té o sol raiar, que comam comida sem gosto até se empanturrar, que vivam mentindo como foi até hoje até não se reconhecerem mais. Que se danem.

Temos metros múltiplos de cinco suficientes pra vida inteira. Vamos caminhar.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Que saudade, crianças! Desculpem a desnaturação, se cuidem e muitos beijos.


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Domingo, Maio 06, 2007

EM TODOS OS CANTOS DE TODAS AS COISAS



"...while I'm gone just be a fly on the wall, you know I'm thinking about you."
[thirsty merc. chicletinho e radiofônico, mas uma graça.]


.::. Eu não tenho medo de você.

E essa foi a primeira coisa que eu consegui pensar, enquanto os outros tantos carros passavam pelas curvas dos arredores e me faziam envergar numa verdade besta, ingênua e tênue, mas quase promíscua pra quem está assim, tão longe.

Eu caio em calafrios gigantes, troco todas minhas noites pelos seus dias de espera, de gratidão, de acúmulo de ânsias, e rodeios e trações turbulentas de quente e de frio, de mim e de você.

Eu levanto e cambaleio porque estou torta. Nem fria, nem morna e muito menos morta. Viva e latente esperando passar o amargo pra engolir o doce espesso, mesmo que ele ainda esteja, de alguma forma, cítrico e salgado, perdido na minha ou na sua boca tão distantes.

Não era pra ser assim, e eu sei. Você sabe que nada disso dura muito em discernimentos de terceiros que não assimilam, acham absurdo e fecham os ouvidos, os olhos, a mente pra nossa verdade de mentira, pra nossa brincadeira de casinha moderna, à cabo. Mas a verdade é que eu pouco me importo com conclusões que não me pertencem, que não vão procriar ruídos agudos nos meus ouvidos depois.

Não que eu chore menos, ou sofra só um pouco. As coisas sempre foram e sempre vão ser o fim do mundo pra mim que é pra eu ter mais vontade ainda de viver a cada vez que eu levar à ferro e fogo e a vida simplesmente continuar.

O futuro titubeia nas quinas de uma verdade sólida como gelo, que água gelada em mim, em você e no meio tempo que passa para um dia ser amanhã e não ontem, pra um dia sermos nós e não eu e você.

Acontece que alguma coisa lá no fundo grita forte e estridente, que é pra eu não me aquietar. Que é pra eu não pensar que a calmaria significa solução e que o caos precisa ser turbulento. A dor mais profunda que eu consigo ter, de olhos fechados, é o silêncio da sua ausência, aquele vácuo profundo que berra a todos pulmões que você não está aqui.

Foi até fácil pensar, por um instante, em deixar tudo pra trás. Os dias, as noites, as tardes, as madrugadas e os momentos que não se contam, os que não têm nomenclatura. Podia, até, fechar os olhos com força e esquecer tudo por um segundo. As palavras, os toques, os gostos, os cheiros e as certezas de quem não duvida.

Foi até convincente forjar um desvio de memória, de conduta, pra tentar ser mais leve e, como tudo até hoje, simplesmente te deixar passar.

Mas você ficou justamente pra me provar que, à essa altura, é impossível tentar bancar a dissimulada, e viver menos você.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ótima semana, minhas crianças!


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Domingo, Abril 22, 2007

NA PRATELEIRA DE LÁ



"Só porque disse que de mim não pode gostar, não quer dizer que não tenha que reconsiderar."
[marisa que, aqui, não aparece faz tempo.]


.::. As coisas vêm e voltam. As coisas vão e ficam. E voltam. Não era à nada disso que eu me referia quando fui embora. Não era pra você voltar só porque, lá no fundo, eu acabei ficando.

Todos os dias, acordar é um parto. Sair do quente do meu inconsciente pra dar vazão à esse mundo aí de fora, todo cheio das coisas que eu não quero fazer, transbordado do que eu não suporto mais ver. Mas a gente continua. Continua porque desistir é muito feio, é fraqueza, e vamos combinar que num mundo desses, não dá pra ser fraco.

Só que alguma coisa aconteceu naquele dia. Eu desliguei o telefone e, dentro de mim, eu sabia que doía demais porque, depois daquilo, não ia doer mais. Eu não ia mais ter que medir todos os passos, todos os sentimentos, todos os choros, risos e gozos numa fôrma imaginária. Eu não ia mais ter que usar como base de comparação uma coisa que eu criei bonita, mas que estava fazendo de mim uma pessoa tão feia.

Mas não, é lógico que não foi assim. Não foi, porque as coisas todas sempre acabam por tomar rumos que eu duvido. Me pergunto quem não duvidaria. É uma tristeza que não cessa, junto com uma alegria que existe, mas lateja fraco, palpita baixinho, morna. A dor é sempre aguda.

Os dias continuam passando, as horas pesando, a nossa vontade de conseguir, de chegar lá e não sucumbir, sucumbindo. Todas as vezes na vida que eu falei em absolutismos eu sabia que estava mentindo porque, pra mim, tudo sempre é imediato, porque eu não tenho a mínima paciência de não ser mimada. É sem pensar, porque eu penso demais. É o fim do mundo, porque quem pensa muito só pensa em merda.

Mas sempre, sempre, cinco minutos depois, tudo passa. Nunca menos e raramente mais do que isso, cinco minutos, e tudo vai embora porque é assim, as coisas têm que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua, com ou sem qualquer um.

Só que esse sempre foi e ainda é o seu problema. Não ser o um que não faz falta, não ser a noite perdida num canto de um balcão qualquer, não ser o beijo de hálito gelado, tesão quente e vontade limitada. O seu problema, é ser problema sem solução. É ser vontade pra mais de anos, é ser virtude pra uma vida inteira, é ser idealizado porque há tanto tempo eu, você e o mundo que nos cerca, separados, esperamos tanto.

E, embora seja muito arriscado, não há como negar que a minha felicidade está vinculada a você, veiculada em você. Seja lá quando você vier trazendo-a à tira-colo.

Pra mim, é difícil aceitar e entender que eu tentei te deixar pra trás, como todo o resto, mas não consegui. É difícil olhar os fatos, comprovar as dificuldades, ter preguiça, sentir cansaço, doer, arder, ferver e, mesmo assim, não conseguir te colocar dentro de um prazo.

Seu prazo de validade não venceu em cinco minutos, mas por você, o meu gênio durão, egoísta, fugaz e sempre tão irritantemente unilateral, apodreceu faz tempo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boa segunda, boa semana. E alegria, alegria, crianças.


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Domingo, Abril 08, 2007

ELE FICOU POR LÁ



"...before i've arrived, i can see myself coming."
[é brega, mas eu gosto de robbie williams.]


.::. Pensando bem, não era exatamente à isso que eu me referia quando falava de amor. Não era à uma coisa doída, unilateral, pesada e ressentida. Não era, nem de longe, uma conversa sobre arrependimentos e, nem, nenhuma lágrima caía. Pensando bem, quando eu esperava tantas outras coisas do amor, eu, ainda e simplesmente, não compreendia.

As meninas estão aí. Estão aí todas elas como sempre, correndo, fugindo, ficando. Estão todas virando mulheres no meio do caos diário, da eterna vontade de não mais precisar correr por ter tanto medo de tudo, a eterna vontade de ficar onde as mentiras são para o bem de verdade, e as verdades só sabem fazer feliz.

Fazia um ano já. Um ano e ainda mais um pouco.

Eu passava segura e distante de tudo o que cortou um elo porque, se não havia mais conectividade, não havia, tampouco, motivo para se manter, então, qualquer espécie de relação. Mas as coisas na vida da gente voltam à qualquer momento. De repente, de sopetão, do nada, alguma coisa palpita forte lá embaixo, na boca do estômago.

Era pra eu estar rindo de tudo isso já. Era pra eu pensar que as coisas tinham se acertado e que isso tudo era certo.

Mas o caminho foi abrindo na minha frente: a reforma tinha acabado, a pista tinha crescido, fecharam o lugar das nossas confissões mais secretas, abriram um novo restaurante fantástico que nenhum de nós - sendo um nós - chegamos a conhecer. Eram muitas coisas juntas, ao mesmo tempo, contando pra mim vez após vez que a vida tratou de seguir seus rumos mesmo sem eu estar ali, perto de você.

A gente andou tanto aquele dia que o rumo se perdeu. Eu me perdi de você, mas as coisas todas estavam lá, eternizadas bregamente na minha cabeça - e tão somente nela.

Ainda estava lá a pracinha de bairro, com os cachorros todos, o guardinha, os bancos, as árvores, flores, cantinhos e tudo mais que fizesse dalí um lugar romântico ao qual eu nunca tinha prestado a mínima atenção antes porque, antes, o mundo lá fora não importava muito. Só que, agora, o mundo aí fora é tudo o que eu tenho pra me lembrar de tudo.

Ela chorou três litros de lágrimas tristes de verdade na minha frente e eu, simplesmente, não soube o que dizer. Fiquei parada tentando usar alguma eloqüência pra explicar que ela não precisava chorar por ele. Ele não mereceia, ele não sabia, ele era só mais um babaca, só mais um cara que mente, que some, que liga pra manter quente, pra não perder a possibilidade sempre que tiver vontade. Tentei falar que ele era só mais um homem, como são todos os outros, e que, um dia, ela acharia alguém que não ia mais fazer ela se sentir assim.

Quando eu percebi, éramos as duas babacas em prantos. Chorando por todos os fantasmas do passado que não mais estão aqui mas que, também, nunca vão embora de vez.

A pracinha, a avenida, as ruazinhas, as lanchonetes, os lugares de segredo, o meio fio, os cachorros, tudo tão diferente. Mas tudo continuava lá.

E dessa vez, quem foi embora fui eu. Porque, afinal de contas, se a vida andou sem mim, não faz sentido nenhum eu parar por alguém que eu, em algum momento, resolvi deixar pra lá.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom dia do chocolate amanhã, crianças.


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Sábado, Março 31, 2007

A MAIOR PARTE DE MIM



"... and it's not hard to grow when you know that you just don't know."
[cannonball do damien rice. só porque é muito bonitinha a música.]


.::. Os anos passaram pela minha janela.

Essa seria uma boa frase pra começar um texto saudosista, de um dia de aniversário onde as coisas todas magicamente mudam de lugar, onde os problemas se resolvem e as dúvidas não existem mais.

Infelizmente, não é assim.

As coisas não passam pela nossa frente, pela nossa vida, macias e imperceptíveis. Muitas vezes, e normalmente, ir além delas machuca e, na hora, a gente não entende exatamente o porquê.

Hoje eu faço vinte e um anos. Vinte e um. E fico repetindo esse número mentalmente como um mantra sem fim de um iógue numa cachoeira de incertezas qualquer. Vinte e um. Quanta coisa aconteceu nessas duas décadas e um, quantas vezes eu gritei de tristeza, sorri de alegria, me confundi no gozo e no pranto e virei essa mulher inteira dos meus pedaços, cheia dos meus vazios. Virei essa mulher que ri e chora muito de tudo, porque vive até a última pulsação das coisas, porque sempre bebe até o último gole.

Tantas foram as vezes que eu superestimei tanto tudo, que eu achei que não dava mais, que já tinha vivido tudo o que era pra mim. Quanta bobagem.

Bobagem porque de todas as minhas tragédias de um dia, o máximo que me ficou foi a lição de que ser hiperbólica como só eu sei, pode, no máximo, me render um estilo, jamais um final. Nada acaba só porque pra mim sempre é um caso de vida ou morte.

Mas os meus exageros me fazem bem, me fazem escrever, me dividem com as pessoas que, por um motivo ou outro, lêem as babaquices que eu prolifero mundo à fora. Ter coragem de falar o que muitos pensam no quartinho escuro seguro da consciência me rendeu grandes amigos, me fez conhecer pessoas incríveis. É inexplicável.

Os vinte, esses sim, passaram voando por mim. Sabe aquelas brisinhas boas que despenteiam, mas não a ponto de descabelar? Passaram gostosos, cheios de informação pra eu absorver de um só vez. E acabaram rapidinho porque tudo o que é bom dura pouco pra caralho. Os vinte passaram inteiros e a minha mania de boca suja não foi embora junto com eles.

Tanta coisa, tanta gente, tanto medo acumulado esperando a maturidade finalmente chegar e, quando ela finalmente chega, eu ainda me sinto imatura e quero o colo da minha mãe, o abraço da minha amiga, o beijo na testa do meu primo, o amor do cara que foi embora há três anos e nunca mais voltou.

E enquanto eu espero por tudo isso, por um mundo cheio de certezas onde acordar vai render uma gargalhada e nada mais vai valer uma tristeza, a vida vai passando. Sem perceber, eu vou passando junto com ela porque, felizmente, apesar de eu esperar a felicidade, eu nunca deixo de ser feliz. E nem vou.

Eu continuo sendo essa menina boba, que descobre todo dia que não sabe da missa a metade, mas que se joga, e se fode, e, no final, se diverte. O meu inferno astral acaba hoje, porque hoje começa a minha nova primavera. E eu olho pros lados procurando motivos pra uma felicidade de festa, de hoje, momentânea, mas percebo que as minha maiores razões de sorrisos estão bem aqui, comigo: do meu lado e dentro de mim.

A verdade é que a minha maioridade já começou e, apesar de tudo, não poderia haver sensação melhor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Parabéns pra mim e tra la la.
E sim, hoje sou eu mesma na foto.
Beijos, crianças.


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Sábado, Março 10, 2007

O MELÔ DA CARETINHA



"... life, it thought me to die. so it's not hard to fall, when you float like a cannonball."
[é uma pena que fizeram essa música do damien rice virar tão bunda. mas ainda assim, vale à pena.]


.::. Eu ando em círculos tortos tentando achar o equilíbrio que eu preciso pra não desmoronar no meio fio, sozinha. Ficando tonta por tentar entender, pela milésima vez, o que me segura tão fundo no chão, que deposita vinte toneladas nas minhas costas e eu não consigo voar.

Tento achar culpados, xingar os meus e os seus medos, reprimir todos meus impulsos assassinos por todas as pessoas que eu sou obrigada a odiar simplesmente por não poder amar. Tento sofrer menos por tudo no mundo, mas a vida me envolve de verdades o tempo todo e é difícil sorrir pras desgraças quando a sobriedade é parte inerente do meu todo. Encarar a vida de frente, com todas as merdas que cagam gostoso na minha cabeça todo santo dia, não é fácil. Viver não é fácil, nem bonito e nem me dá tesão muitas vezes.

E eu choro sem saber o porquê enquanto a vida acontece lá fora. Tanta gente desgraçada por coisas de verdade e eu, ainda presa às dúvidas atrasadas de tudo que não se explica, não consigo definir porque tudo fica tão aguado ao meu redor. Eu fico parada olhando tudo acontecer comigo, tudo acontecer com os outros. Eu choro sabendo que o mundo não é bom, que crianças morrem arrastadas por sete quilômetros presas a um carro em movimento. Choro pensando que é um adulto, que provavelmente nunca foi criança, que dirige esse carro. Choro sabendo que muitas outras crianças vêem seus pais morrerem numa guerra de adultos e que elas não pediram pra estar lá, mas estão.

Os meus problemas são tão pequenos. As minhas dores são tão precisas.

Mas olhar ao meu redor me perturba e dói saber que viver machuca. Só que viver é tão bom, apesar de tudo isso, que mesmo no dia mais difícil de muitos, de todos, de tantos, eu não consigo entender, nem por um instante, a coragem do suicida.

Ter coragem de ser covarde.

Nunca mais ver o sol nascendo, nunca mais sentir o cheiro do mar, nunca mais acordar amassado porque perdeu a hora, nunca mais trocar o almoço saudável por um chocolate bem grande e gorduroso, nunca mais ter medo de altura, nunca mais abraçar um amigo, nunca mais olhar nos olhos da sua mãe, nunca mais se apaixonar, nunca mais sentir o quente da boca de outra pessoa na sua nuca, nunca mais sofrer, nunca mais querer tanto uma coisa com tanta força que o universo conspire, mesmo, a seu favor, nunca mais errar, nunca mais amar, nem odiar, nunca mais escrever o que sente, nunca mais sentir.

Desistir da vida é olhar de frente pro nunca mais.

E por mais que doa, por mais que seja injusto, por mais que eu chore e que a minha sensibilidade excessiva cause em mim muitas outras coisas que não só alegria ou amor, eu não quero desistir das sensações - as boas, as ruins e as idiotas - nunca. Eu não quero desistir dos finais definitivamente felizes ainda, mesmo que, esses finais tenham vindo, até agora, só pela metade.

Eu ando em círculos tortos tentando achar um jeito de enxergar as coisas com menos precisão pra eu não precisar tanto de motivos exatos pra continuar caminhando. E, ainda que, minha vida titubeie aqui ou ali, tudo o que eu posso fazer por mim mesma, no final das contas, é fingir que a vertigem não enjoa, e seguir em frente.

Pra mim, espertos não são os suicidas de póstuma, aqueles que maquiam a realidade com seus entorpecentes-amigos, e matam a vida de pouquinho em pouquinho só porque não têm coragem de fazer isso de uma vez, como os de véspera.

Sábio, mesmo, é Johnnie Walker, que há anos mata um mundo de covardes, mas continua andando.
[Rani Ghazzaoui]


.::. No inferno astral dos trinta dias que antecedem o aniversário.
Acho que o meu lance é não ficar velha, crianças.
Uma beijoca.


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Sábado, Fevereiro 24, 2007

MINHA CERTEZA NÃO É CERTA



"...Pois tudo o que se sabe do amor/ É que ele gosta muito de mudar/ E pode aparecer onde ninguém ousaria supor..."
[adriana calcanhoto, na voz de marisa. é de apertar o repeat. incrível.]


.::. Na minha frente havia dois caminhos. E eram, os dois, floridos.

A vida inteira não me faltou despudor e desprendimento de abandonar a metade do que quer que fosse, para me completar do que quer que me enchesse mais por aí a fora. Não me faltou coragem de tentar de novo, mesmo quando ardia por dentro e aquilo que batia sozinho, no escuro, pedia pra eu parar, por favor.

Fantasiada de carência, a minha liberdade passeava folgada por toda parte.

Ouvindo Marisa Monte em notas doídas e compassadas. Comparadas a Chico Buarque, tristemente profundo, desafinado e verdadeiro. Se Chico fosse afinado, seu samba seria a perfeição, e há de se convir que muita gente já derrama litros de emoções com a imperfeição, imagine então, com o contrário. Chico emociona porque tem a verdade errada das coisas; Marisa dói, porque é bonito e, beleza demais, machuca.

Procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem.

E tanto tempo passou desde quando era fácil depositar as culpas e os fracassos na vontade de ter afago de quem quer que fosse. Afago pra chamar de seu. Faz tempo que a minha vontade de cafuné virou vontade de quebra cabeça, sem frestas, sem furos, nem espaços por onde pudesse fugir a minha metade torta.

Enquanto o tempo passava, a minha certeza de uma só metade ficou perdida no meu quebra-cabeça completo de peças sem encaixe.

Mas eles são dois. Dois, e apenas dois, de tantos que falam comigo todos os dias, dentro do meu cérebro apressado nas ruas de São Paulo. São eles que andam comigo nas ruas arborizadas dos Jardins e pelo fedor calorento da yakisoba da Avenida Paulista. Andam comigo - e em mim - aonde quer que eu vá, de lá pra cá. Andam de fora pra dentro de mim, e saem de mim ainda mais fortes gritando paródias pelo mundo.

O poeta é um fingidor.

E da hora que eu acordo, até o último frame de segundo em que meus olhos se mantém abertos, o radar sensível que - por alguma razão - se instalou dentro de mim, capta as nuances e armazena. Sou um arquivo ambulante de coisas pela metade, mas a verdade é que, mesmo em pedaços, a minha mágoa é inteira porque, quando o mundo inteiro grita as desilusões de todas as pessoas no seu ouvido, acaba-se sofrendo um pouco por cada uma delas, também.

Sofrer vocês é sofrer a minha eterna dúvida de não saber o que é melhor pra mim.

Começo coisas e paro pela metade não porque eu não queira ver o final feliz se estampar no meu rosto desacreditado. Interrompo o gozo no meio porque, pra mim, a aflição dos novos começos atropela a calmaria do que já é meu.

Não é que eu não ame você, é só que eu não tenho certeza.
Os Strokes têm razão.

Mas a minha racionalidade se perdeu justamente onde eu a encontrei. Naturalidade demais me rendeu infelicidade, mas quando resolvi ser simetricamente certeira, perdi a emoção.

Finjo, então, ser dor. Aquela que sinto de verdade.
E vou.

No estreito do meio das decisões, esperando não haver escapatória, ignorando a visão das laterais, curvada, escondida, cardiacamente apressada por um final que, nem eu mesma, poderia palpitar.

Na minha frente há dois caminhos. E são, os dois, floridos.
Eu continuo sem buquê.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E o carnaval passou pra vida poder voltar ao normal, crianças.
Welcome aboard de novo!


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Domingo, Fevereiro 11, 2007

ELA NÃO VAI PARAR



"Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino prá lá ..."
[devia ter uma lei no mundo, obrigando todos os homens terem, ao menos, um "quê" de chico buarque.]


.::. Felicidade é uma coisa estranha.

Estar feliz, eufórica, fora de si por alguns minutos gigantescos do dia, sorrir pro nada, ficar linda com qualquer roupa. Deus, como é estranho.

Ela olhou pro espelho encantada com a imagem refletida e fez força. Tanta que quase chorou de verdade. Mas nem mesmo a força conseguiu fazer com que ela enxergasse a si mesma naquela imagem marcada por lápis, rimeis e sombras. Era por debaixo das cores vibrantes que se escondia a mulher que ela guardava tanto no colorido pra poder desabrochar um dia, sem cor, no romance preto e branco que ela sonhava quando fechava os olhos de supercílios.

Dançava desleixada de propósito, pra forjar a emoção inata aflorando por todas as células do seu corpo penso, no meio da multidão de mulheres padronizadas, dançando pé direito-pé esquerdo, suas blusas balonê, suas pulseiras exageradas, seus sorrisos precisamente moderados até a vodka subir pra cabeça arrependida das meninas perdidas.

Ficou pensando, por um tempo, que talvez ela fosse a única das mulheres a gastar muito mais do que as 24 poucas horas de um dia pensando em bobagens. Mas descobriu que, por mais bem resolvida que seja a mulher, por mais pose, por mais que o salto seja quinze e agulha, por mais que o decote não esconda nem a emoção, por mais que o cabelo seja tão liso que deslize os medos, por mais que os olhos sejam tão marcantes que deixem as inseguranças pra depois, enfim, por mais que fossem lindas, seguras e bem decididas, eram ainda assim, mulheres.

Dançava ao ritmo da melodia que desconhecia, mas se entregava às vibrações dentro dela dizendo que, se estava feliz, que assim fosse, que assim estivesse, que não procurasse tanto pêlo em ovo porque, uma hora, acabaria por achar, mesmo, uma peruca inteira. E não era por medos inteiros que, agora, ela estava feliz.

O sem cor, não necessariamente, significava a felicidade - pensava ela -, apoiada pelo blues da tristeza que ela ouvia todas as noites. O azul das vozes doídas e profundas. Ela não agüentava mais sofrer profundo esperando o dia do escuro quentinho chegar.

Dançava por horas seguidas dentro da sua cabeça amargurada pela falta de ritmo das coisas, pela melodia apagada das pessoas, pelos sons perdidos nos silêncios que faziam o mundo girar ao contrário e as pessoas se olharem torto, tanto.

E foi no canto da pista, olhando ao redor dela mesma que ela descobriu que viver não emocionava sempre, mas emocionava muito. E que o importante não era o espetáculo central, as grandes luzes e os passos simétricos. Simetria demais era chato e ela precisava de emoção à flor da pele para continuar rodando.

Dançava circulando sua alegria fugaz, então. E agradecia baixinho dentro de si que os frios na barriga fossem, assim mesmo, atípicos. Viver de borboletas no estômago poderia causar enfarto do miocárdio, e ela, ela ainda precisava rodopiar muito.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, boa volta às aulas. E bem vindos, bixos casperianos.


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Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

SINTO MUITO, MAS NÃO SINTO NADA.



"Já não sei mais porque/ Em ti eu consigo encontrar/ Um caminho, um motivo, um lugar/ Pra eu poder repousar meu amor"
[los hermanos. eles sim sabem o porquê.]


.::. Não tem sido fácil.

Nenhuma das coisas que eu faço, por fazer, por continuar, por não poder parar de escrever uma história, mesmo que picada, para poder chegar onde é fresco e, no final do dia, você vem. No final do dia você vem de verdade.

É no trânsito sempre que você aparece pra mim. Aparece no metrô, na escada rolante, no caos dos restaurantes no horário do almoço, no meu banho pela manhã, na festa, no bar e na novela das oito.

Tanta gente, tanta confusão, tanta coisa. Eu deixei de sentir tanta coisa por aí à fora porque, lá fora, é feio, fedido e sujo, e juro, já deu no saco ter que me sentir um saco de lixo fazendo a caridade de recolher entulhos por ai. Não dá mais tesão sentir tesão fugaz.

Os dias passam lerdos pela necessidade que a gente tem, agora, de se arrastar, também, para o final das escolhas que vão deixar de ser um monte de vontades misturadas e acumuladas para se tornarem funcionais, pontuais e palpáveis, finalmente. A gente se esfrega forte no chão que é pra não ter que voltar pro fundo do poço nunca mais. A superfície está rasa e cheia de oxigênio esperando pelo respiro, de qualquer forma.

Mas é estranho acordar de manhã e conviver, todo santo dia, com o reflexo me contando que, aquilo que se vê, é uma casca vazia. É difícil manter uma conversa de mais de três frases com alguém que exala testosterona, quando nenhuma virilidade do mundo é capaz de vencer a batalha contra os super-poderes, as super-habilidades e o super-espaço do super-homem, não o da capa azul marinho e sunguinha vermelha bem a la babado-bee, mas sim aquele que cresceu devagar dentro de mim, durante todos esses anos.

Difícil seria explicar pra mim mesma tantas certezas abafadas pela lucidez de uma vida regrada, linear e sem emoção. Tantas vezes tentei abrir a boca pra explicar pra meio mundo o porquê de o meu mundo ser melhor agora, ainda que com essa metade de mundo entre a gente. Acabava de boca mole e garganta seca porque a felicidade não é exatamente uma coisa bem recebida por quem não vai desfrutar dela.

Os dias têm sido chatos, as noites longas, os banhos frios, o olfato nulo, a visão turva, o tato preciso... e sozinho.

As coisas passam coloridas por mim, mas não conseguem brilhar o suficiente pra ofuscar o que berra fosforescente lá no fundo. Colorido por colorido, escolho o bom e velho preto e branco que, inclusive, encaixa melhor com a melancolia. Se for pra sofrer, que sofra bonito.

Deixo que eles passem todos por mim, então. Deixo meus olhos se fecharem , meu coração estancar um pouco do sangue, minhas mãos se aquietarem onde eu possa pensar melhor em você. Deixo meu semblante de gargalhadas exageradas se acalmar num sorriso breve e lateral, tristemente esperançoso.

Sofrer a falta de você dói tanto que me anestesia da dor.

Não tem sido fácil, eu sei. Mas - sem sentir nada por te sentir tanto - eu decidi esperar por aquele dia em que, no final, você vem. De verdade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, a minha falta de tempo!

Crianças, preciso agradecer todo mundo que tem posto texto meu nos profiles de orkut, nos blogs, nos flogs...
Enfim: à todos, muito obrigada, voltem sempre, uma beija e tchá!


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Domingo, Janeiro 21, 2007

NEM EU, NEM ELA E NEM VOCÊS.



"It's not that I don't really love you. It's just that I don't really know."
[strokes, strokes, strokes. como um mantra energético e orgástico.]


.::. Eu queria escrever em terceira pessoa pra continuar depositando os meus demônios em partes alheias, porque aí doía menos ver que, mesmo o tempo passando tão fluente, as merdas continuavam as mesmas. Nada muda, afinal.

Comecei falando dela, mas me senti limitada em todos os finais de frases, porque nas conclusões de pensamento ela não podia me dizer tanto sobre mim. Ela que só existia nas horas que eu não era corajosa o suficiente pra encarar meus olhos amargos me contando que as coisas foram feias pra gente, de novo.

Ela era eu, mas não sabia das coisas boas que eu passava porque eu sou tão egoísta que só sei dividir a dor com os outros. A felicidade eu prefiro engolir logo, beber rápido, tomar escondida pra não ter que oferecer e nem saberem que eu tenho. Ela era uma coitada presa no espelho, com o semblante de dor que eu cultivava todas as noites, e a culpa era minha.

Fiquei pensando num tempo remoto em que eu me apaixonava por todo cara que encostasse em mim e por todos aqueles que eu queria que encostassem, também. Pensei em como era bom acreditar que todos e cada um deles um dia seriam o que eu procurava eternamente. Era boa a sensação de acreditar, mesmo, que alguém pudesse durar eternamente dentro de mim.

Mas as coisas passam, os medos diminuem e as verdades acabam batendo frias na sua cara tantas vezes que o gelado se espalha e não adianta um foguinho de tesão pra reaquecer.

Quando eu era mais nova, eu acreditava em absolutismos porque eu sofria pelo que eu não tinha embora tivesse certeza que um dia ia ter, o que era meu estava guardado. Hoje em dia eu não acredito em nada que dure mais do que alguns toques, algumas palavras encaixadas em contextos, alguns suspiros, outros gemidos e, pra não passar totalmente em branco, algumas lágrimas depois.

Gostar de alguém nunca foi tão difícil pra mim e, agora, eu não tenho mais a desculpa do príncipe encantado me esperando. Eu que já não sou princesa florida há tanto tempo.

Me irrita tanto a vida girar em torno de um objetivo que, há tanto tempo, eu não consigo alcançar por tantas coisas diferentes. Quando eram eles que não me queriam, que não sabiam como lidar com a minha imaturidade e com o meu frescor quase assustador dos quinze anos, era mais fácil explicar para a menina do espelho porque ainda estávamos sozinhas, presas às nossas caras e bocas de todas as noites.

Mas passaram os quinze, os dezesseis e os vinte anos. Passaram tantos de vocês por mim e ninguém nunca ousou ficar. E eu fiquei tão puta da vida, e com a vida, que resolvi que aqui não mais iam depositar o bichinho da felicidade de isopor que voou tantas vezes seguidas daqui pra não sei onde.

Algumas mulheres, eu fico pensando, têm o poder de transformar o isopor em chumbo e agüentar para sempre o peso da escolha que fizeram. Mas eu, eu que tanto pedi pra não estar sozinha, olho em volta e vejo mulheres tão cheias de sorrisos desesperados, de olhares caçadores, de detectores de mentiras espalhados por todo o corpo, de inseguranças, de um medo e uma dor constantes por gostarem tanto de alguém que acabam se esquecendo delas porque passam a vida fazendo de tudo e tomando muito cuidado pra não perder quem encontraram pra ficar definitivamente.

Eu, que fui capaz de tantas coisas pra conseguir não ser mais a pessoa incompleta dentro da minha imagem perfeita no espelho, percebo que as minhas verdades mudaram e que, definitivamente, eu não acredito mais num amor definitivo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boa semana, crianças queridas que vêm aqui sempre!


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Segunda-feira, Janeiro 15, 2007

A CANTIGA DE VOCÊ



"Tonight I'm tangled in my blanket of clouds, dreaming aloud."
[walking after you, do foo fighters, merecia ser ouvida, pelo menos, uma vez ao dia.]


.::. E a vida continuou correndo segura só pra eu não ter motivos gritantes para uma mudança de destino repentina. Vai tudo bem no trabalho, tudo bem nos estudos, tudo bem em casa, tudo bem com os amigos, os amores, as faltas de amor e os dias de chuva. Chove dia sim, dia não. Mas, por mais que chova quase sempre, há do "dia não" de respiro. Eu tenho brechas largas no meio do meu sofrimento, pra eu não sofrer constantemente e não alegar a morte da coitada. Minha vida boa me impede de ser coitada o tanto que eu queria.

Eu queria, na verdade, conseguir jogar todos os meus vínculos doces com esse lugar amargo e correr pros seus braços frescos que me esperam tanto, há tanto tempo. Mas a grande verdade é que por mais turvo e oprimido que esteja sendo tudo por aqui, foi aqui que tudo se fez, foi onde eu marquei meus espaços, minhas manias, meus medos, minhas certezas, minhas mentiras, minhas verdades.

É aqui o meu dia-a-dia sem muitas máscaras porque viver mascarada o tempo todo transpira demais e transborda pelos cantos quem eu sou. Eu acabo me entregando ridiculamente por ai, mesmo não estando em lugar algum.

Tantas vezes eu dormi vazia e me enchi de você por tantos respiros frenéticos, contidos num espaço de segundo, na etapa curta do sono em que os sonhos acontecem e nada é tão grande que consiga separar a minha boca da sua, a nossa verdade da frieza simétrica do mundo. Tantas outras eu dormi cheia de esperanças e acordei com azia da vida por ter me empanturrado de sonhos e por não terem inventado ainda sal de frutas contra realidade.

Mas você continua em mim. Eu posso desligar o computador, posso quebrar a televisão, nunca mais ler jornal, fechar os olhos, apertar os punhos, tapar os ouvidos, encher minha boca de tantas outras palavras, de tantos outros cantos que não falem de você.

Mas não, nada adianta.

Não te cantar não significa não te escrever nas minhas entrelinhas, tapar os ouvidos não significa não te ecoar o tempo todo dentro de mim, no escuro do que é ser eu. Murros ao vento não impedem a dor, olhos fechados também conseguem chorar sua ausência. Jornal, Internet, televisão, fax, rádio, código Morse, sinal de fumaça... como se a nossa sintonia dependesse, mesmo, disso.

É como naquele clipe do Foo Fighters: todas as certezas da minha vida bem na minha frente, depois da parede de vidro.

Incontável o quanto eu prometi a mim mesma não te sofrer, não te desesperar, não te lutar, não te falar à quatro ventos pra não te gastar em palavras. Mas você continua latente bem na minha frente, todos os dias, todos os minutos, em cada suspiro de alegria, tristeza ou vazio que saia de mim. Todas as manifestações de vida, na minha, são você. Toda a vida que eu guardei e gastei em porções mínimas, sobraram pra durar em você.

Eu que não sei de tantas coisas, continuo crente no que, pros outros, parece incerto. Eu que sempre fui tão imediatista e fugaz, sento agora no cantinho mais confortável de mim, sem aquele desespero do começo, pra esperar você.

Eu sei que você vem.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom resto de semana, crianças queridas!


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Sábado, Janeiro 06, 2007

POR TE QUERER BEM



"O meu coração é um músculo involuntário e ele pulsa por você.(...) Enquanto eu vou andando o mundo gira e nos espera numa boa."
[não enjôo de ouvir marisa]


.::. É engraçado. Quando as coisas parecem não se encaixar de jeito nenhum - os dias seguem xôxos porque simplesmente nada emociona, e as palavras são tantas dentro da cabeça que, na boca, acabam faltando - acabo eu aqui: pedindo.

Quando eu conheci você, alguma coisa dentro de mim não se manifestou. Não foi um estalo instantâneo porque, pra mim, nada que seja muito miojo em três minutos mata a minha fome de universos inteiros. Eu gosto é de comida da minha avó, que demora uma eternidade pra ficar pronta, mas mergulha em cada papila gustativa da minha boca grande e tão cheia de rebeliões engasgadas. Lasanha congelada esfria minha vontade de comer.

E eu não sinto o seu gosto porque o salgado continua por toda parte enquanto você não vem. Não é por falta de pedidos, ansiedades e, tampouco, de piedade. É pela falta em si.

O vazio machuca tanto que eu juro que consigo sentir as vísceras secarem. Tão rápido e tão ruim que me perco em tantas vontades que não virão, em tantos medos que aumentam, em tanta coisa que eu mando embora esperando aquilo que não vai chegar pra mim por agora. O agora massacra o meu futuro que vai ser lindo se eu conseguir não desidratar por inteiro até chegar nele.

E a pancadaria come solta, a briga, os gritos e a confusão toda não têm fim. De mim comigo, por dentro, de fora. Tanta coisa querendo pular e sair do escuro que virou meu coração no dia que eu apaguei as luzes pra esperar você. Tão incoerente você ser a luz, e me apagar. Tão descabido causar os sorrisos mais sinceros, e os choros mais profundos.

E ouvindo Marisa Monte baixinho, eu me lembrei que a pulsação é involuntária, mas percebi que, ainda que eu pudesse escolher, o meu músculo pulsaria por você.

Nada se manifestou na primeira palavra, dentro de mim - como nos livros, nas novelas mexicanas bregas, nos filminhos sessão da tarde ou nos seriados da tv à cabo -, justamente pra eu não perceber precocemente que o que eu tanto procurava - e procuraria tanto ainda - estava bem ali, na minha frente. E nada foi, de fato, precoce. Nada foi zigoto porque o nosso negócio é fertilidade completa e ejaculação precoce pode ser abortivo.

Só que hoje é tudo tão diferente. Tantas vezes eu acordo esperando que meu braço esteja quase gangrenado por ter você em cima dele, tantas vezes eu me pego programando coisas bonitas, tantas vezes eu me arrumo tanto pra você não me ver.

Amadurecer uma idéia e um sentimento faz com que tudo seja muito mais concreto depois e eu me orgulho tanto de a gente ter conseguido. Mas pior do que não querer é não ter como fazer acontecer o depois. Quando o depois sempre é o depois, ele nunca vira o agora.

A minha necessidade de você é tão desesperada.

Todas as coisas dessa vida nunca me pareceram tão sem cor. E a rapidez das nossas coisas, nunca me pareceu tão necessária.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Uma beija, crianças.


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Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

O BOM ANO SERIA



"There's no greater power then the power of goodbye."
[madonna me faz confessar coisas na pista de dança.]


.::. Pode até ser falta de maturidade minha pensar que as coisas seriam diferentes do que são agora, vinte anos depois de terem sido muito boas. Quando se é um bebê de colo a felicidade é incontestável pelo simples fato de que, com essa idade não se contesta nada. Na maioria das vezes os estímulos externos do mundo são gentis com a gente e a gente - óbvio - não reclama. É, saudade de ser estimulada positivamente.

O ano acabou, de novo. De novo foram embora de mim mil expectativas não cumpridas dando lugar às outras mil que eu vou criar bem naquele momento mágico e batido do pular ondinhas no mar sujo de resíduos fisiológicos graças à superlotação das praias nas festas de fim de ano e da ignorância múltipla de todas as pessoas. De novo todas as pessoas que eu pensei que ficariam foram embora; a que eu queria que chegasse, não vem mais. Adeus ano velho.

Tenho medo de começar uma retrospectiva mental porque todas as ânsias parecem menos próximas do vômito quando não damos muita importância à elas. Mas a minha cabeça é chegada num masoquismo mental e as pancadas de recordações vêm todas juntas como quando se enfia a cabeça pra fora da janela do carro em alta velocidade, e o vento é tão forte que você não tem como se defender: apanha e se afoga nele, sem reclamar. Masoquista, eu disse.

E me pergunto - no mantra típico das reavaliações de final de ano -: pra onde foram todas as certezas de doze meses atrás?

Me lembro do reveillon passado, as mãos passadas umas por dentre as outras, aquela mulher lindamente espirituosa discutindo comigo a cor do vestido dela no meu casamento. Só alguém muito espirituosa mesmo conseguiria pensar tão adiante enquanto o suposto noivo semi-babava no sofá ao lado, assistindo Rocky 4 na noite de ano novo. Sinto mais falta dela do que dele.

Passado o primeiro momento de tortura mental por lembranças sentimentais remotas, chega a hora de pensar na carreira, nos rumos que as coisas levaram. Era tanta euforia naquele começo que, quando me tiraram meu primeiro estágio, era como se junto com o meu emprego, tivessem picado a minha auto-estima em quatrocentos e treze pedacinhos minúsculos. Mas felizmente eu pratico mal de Alzheimer voluntário pra assuntos que me interessam e também, digamos, mal de Narciso quando sinto ser conveniente. Esquecimento e auto-estima elevados me fizeram passar essa pra trás fácil também. Sinto mais falta das pessoas do que do trabalho.

Alguns amigos, algumas escolhas, algumas horas felizes foram embora involuntariamente mas, se paro para analisar o que veio depois da dor, tenho uma vontade quase que incontrolável de ver cada uma dessas pessoas de novo só pra poder olhar pra elas e dizer: "Obrigada por ter ido embora.".

2006 não foi, nem de longe, um ano muito fácil pra mim. Perdi tanta coisa ao mesmo tempo - e em um espaço de tempo tão curto -, que a rainha das certezas acabou fazendo terapia, só pra ter mais uma certeza: eu posso até ser louca, mas só estando completamente fora da mim deixaria uma completa estranha dizer o que eu tenho que fazer da minha vida. Valeu pela tentativa, não valeu pelo dinheiro perdido. Teria sido mais feliz comprando coisas.

Mas o fato - e grande intuito de tudo isso - é que, apesar de não ter tido o brilho de 2002 - aos meus dezesseis, no meu segundo colegial cheio de baladas, sorrisos, amigos e sessões da tarde - , nem a euforia de 2005 - aos meus 19, primeiro ano de faculdade, milhões de coisas, pessoas, sensações, descobertas novas -, 2006 foi o ano que decidiu quem eu vou ser para o resto da minha vida.

Eu descobri que pouco importa com quem eu namore, ou onde eu trabalhe, ou ainda, em que eu acredite. A verdade é que babacas sempre existirão, sejam eles afetivos ou coorporativos.

As certezas eu descobri, neste ano, que não existem. Aliás, uma existe sim: eu não vou nunca, na vida, deixar minha leveza ser levada nas incertezas do caminho pelo simples fato de que, triste ou feliz, eu vou ter que continuar andando.

Meu voto de ano novo, então, é o da leveza. Ela vai me ajudar a carregar 2007 com menos esforço e vai, com certeza, me levar bem alto na hora que eu estiver pulando minhas sete ondinhas, acreditando em tudo de novo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Feliz ano novo, crianças queridas.


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Sábado, Dezembro 23, 2006

UM TRIBUTO AOS NÃO MEDÍOCRES



"Adoro as coisas simples. Elas são o último refúgio de um espírito complexo."
[Oscar Wilde]


.::. Me lembro de ficar imóvel, ouvindo cada uma das palavras que, por algum motivo não matemático, eu conseguia entender, suspirar. Entravam dentro de mim se misturando com meu sangue, meus pensamentos, com o que eu era. Todas as coisas que eu era, e que por alguma coisa que até hoje não consigo explicar, se fizeram em mim. Assim, exatamente como olho no espelho hoje.

Tanto da minha infância eu devo a um livro, um só. Eram muitos os outros, eram muitas de mim nos outros, mas o livro que me fez ser quem sou hoje - sentada em qualquer cadeira rotatória, escrevendo estórias, pensando demais em tudo, sentindo que muitas vezes o mundo não vale muito, que as pessoas não valem nada - eu devo àquele livro de capa azul, branca e amarela.

" - Como ele não é mais bonito, não tem mais utilidade. - disse o professor de Arte da Universidade."

E muitas vezes curvada na minha feiúra eu sabia que não era exatamente por ela que eu estava inútil. Eu talvez, e por tantas vezes, me fiz feia justamente por me sentir sem utilidade. Não fazia idéia - assim como ainda não faço -, que a beleza está tão além das utilidades forçadas. Está tão aquém dos outros.

"Nas palmas das mãos da criança estavam as marcas de dois pregos, como havia marcas de dois pregos em seus pezinhos.
- Quem ousou te ferir? - perguntou o Gigante. - Dize-me, para que eu possa tomar minha grande espada para matá-lo.
- Não - respondeu o menino -, pois essas são as feridas do Amor."


Desde os meus seis anos, então - quando o Gigante Egoísta, me contou do seu castelo, do seu jardim onde não chegava nunca a primavera, onde o inverno doía, e onde o amor trazia felicidade, mas matava - eu aprendi. E algumas vezes fui eu o menino, mas tantas outras, eu fui o gigante.

"Mas o amor não está mais em moda, os poetas o mataram. Escreveram tanto a respeito que ninguém acreditou mais neles, o que não surpreende. O verdadeiro amor sofre, e cala.(...)O romantismo pertence ao passado."

Eu era tão pequena e já tive que entender. O passado dele não fazia nem em sonho, parte do meu passado, nem do mais remoto. O meu presente era o sonho mais alvo de futuro que ele poderia ter, um dia. E mesmo assim ele acertou. O romantismo era antigo até mesmo pra ele, que em 1888 disse. Ele disse e, imperceptivelmente, eu entendi. Podem passar cem, duzentos, mil anos. As feridas de quem sente, não mudam e , às vezes, eu tenho inveja dos fúteis. Não deve ser tanto gozo profundo, mas tenho certeza que dói bem menos.

Eu poderia listar tantas outras passagens, de tantos outros contos incríveis, que eu não sei se tantas outras crianças leram. Talvez se tivessem, pra mim, viver não seria tão solitário, olhar pros outros não seria tão preconceituoso, me relacionar não seria tão difícil. Ter parâmetros de imperfeição humana desde cedo fez de mim alguém tão capaz de ver as coisas feias em mim e nos outros que a vida não ficou mais tão bonita.

Os anos passaram, os livros mudaram, o jeito de se contar um coração partido se simplificou. Aliás, falar "coração partido" ofende os moderninhos que acham tudo babaca e emo. Eu sou um desses moderninhos.

Mas hoje eu acordei e vi meu velho livro, em cima da minha estante. Sujo de poeira, a capa meio esgarniçada, as folhas bem amareladas. O de fora não me importou porque eu sabia que, dentro dele, todas as minhas lembranças permaneciam. Depois de tantos anos e de tantas outras palavras, era pra essas que eu voltava sempre.

Tantas coisas disseram dele. Falaram da homossexualidade, dos textos provocativos, de imoralidade. Trancaram o criador dos meus sonhos numa prisão. Meu cu que ele era gay. O que isso muda, afinal de contas?

E ainda cismam todos em contar para as crianças sobre as chapéuzinhos, as rapunzéis, as brancas chatas e as belas drominhocas. Preferem proliferar o de sempre porque ser mais do que medíocre assusta desde sempre. Mas pra mim, entre todos os contos de princesas, eu fico com as "Histórias de fadas", do Oscar Wilde. As fadas são imperfeitas porque a vida não é perfeita e, no final das contas, nem sempre o príncipe chega para o final feliz.

Imoral não é ser homossexual, ou ser provocativo, ou ser inexoravelmente triste - mesmo em histórias para crianças.

" - Receio que o tenha irritado - respondeu o Pintarroxo. - O fato é que contei a ele uma história com moral.
- Ah! Isso é sempre uma coisa muito perigosa de se fazer - disse a Pata.
E eu concordo inteiramente com ela."


Imoral é a ignorância. Eu também concordo inteiramente com a Pata, e com Wilde.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Uma análise saudosista para uma época não menos nostálgica: o Natal.
Aproveitem o de vocês, crianças. Papai Noel não existe, mas ainda existem as noites felizes.


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Sexta-feira, Dezembro 15, 2006

ELE VEIO POR ACASO



"Cause maybe, you're gonna be the one that saves me."
[se os gallagher não fossem tão chatos, eu até gostaria mais de oasis.]


.::. Era uma noite sem muitas pretensões, como todas as outras, enfim. É, felizmente eu já tinha aprendido que sair de casa com algum tipo de pretensão não ajudava. Era uma noite como outra qualquer, então. As minhas amigas sorriam aqueles sorrisos largos pros caras fortinhos das mesas do lado. Eu olhava em volta e não tinha um ser sequer naquele recinto que me fizesse abrir mais de meio centímetro da largura dos meus dentes. Não, não mereciam.

Olhava em volta e via tanta gente bonita e super mega blaster blasé conversando. E a impressão que eu tinha é que eles falavam todos um dialeto diferente do meu. A sorte é que eu consigo como ninguém manter o meu carão bem estampadinho na minha cara, e aí ninguém percebe o quanto eu acho todo mundo babaca e o quanto ter que fingir estar me interessando pelos assuntos sem graça da menininha sentada na minha frente me deixa puta.

A volta pra casa, já que a noite foi só mais uma perdida entre todas as outras, não poderia de jeito nenhum ser mais pretensiosa do que a ida. Nem tinha o que pretender, na verdade.

Aí estávamos lá, dentro do carro da minha amiga, exaustas de tanto sorrir pras paredes, loucas pra chegar em casa, arrancar aquele salto alto, tirar aquela maquiagem escura, deitar na cama fofinha e dormir 13h seguidas porque era final de semana e a gente merecia. Estávamos lá e o farol fechou. Três meninas sozinhas num carro, em plena Avenida Brasil, e o farol me fecha às três da manhã. Apa merda aquele farol também viu.

Começo a ouvir, meio longe e abafado ainda, a voz daqueles locutores de rádio de notícias - que me lembram o carro do meu avô nos dias que ele me levava ao colégio e ficava ouvindo aquelas malditas notícias enquanto eu queria ouvir música, que me lembra que, até mesmo hoje que eu gosto de ouvir notícias, eu não ouço a essa rádio, porque a voz do locutor ainda me dá dor de cabeça profunda. E daí se aproxima outro carro, com outra pessoa com cara de cansada. Era uma cara linda, por sinal, mas estava cansada, não posso negar. Ouvindo CBN em plena madrugada de sábado pra domingo. É, ele devia estar mais desesperado do que eu, minha amiga, minha outra amiga e, se bobear, do que as três juntas em dia de TPM.

O carro pára e minha amiga solta alguma coisa engraçada sobre a depressão do coitado e ele, é tão coitado, que ouve, e abaixa o rádio melancólico pra falar com as três tchutchuquinhas que mexeram com ele no trânsito - não que eu tenha extremo orgulho em dizer isso, mas só tchutchuquinhas mexem com caras desesperados ouvindo CBN às três da manhã num semáforo da Avenida Brasil.

Pergunta pra onde a gente vai, eu digo que pra casa, ele sorri, diz ser a melhor pedida. Mas ele sorri duro, ele não quer sorrir coisa nenhuma, ele ta triste pra caralho. Aí abaixa no carro, some por uns 2 segundos e ficam as três patetas mudas dentro do carro, esperando o que vem depois. E aí ele levanta, com cara de dó e com um lindo buquê de flores na mão:

- Tó, pra vocês.

E acelerou, foi embora. Como assim Joaquim, "Tó, pra vocês." ???. Como encanta três mulheres desesperadas num pós-balada e vai embora? Como vai embora sem dizer o nome? O telefone? O endereço? O msn? O orkut? Qualquer coisa! Ficamos pasmas e mudas, depois demos risada, depois rimos muito e ainda rimos mais um pouco. Tiramos foto com as flores, inventamos histórias com o bonitinho-melancólico-nerd do buquê de rosas e fomos pra casa dormir felizes, encantadas e com aquela vontade de saber quem era o cara.

Depois daquele dia, as coisas começaram a dar certo pra mim. Tudo que estava errado, começou a entrar num lugar simetricamente perfeito. O cara das rosas pode nem sonhar com o desfeixo, mas ele salvou minha semana. E, foi justamente, numa noite dessa semana - depois de chegar do meu novo emprego fantástico - que eu fiquei pensando que a ridícula da menina que teve coragem de largar um cara daqueles, em plena madrugada de sábado, com buquê de flores e tudo na mão, só podia ser assim bem looser.

Ela perdeu um cara incrível, e ele ganhou - como o esperado num final de namoro - um mundo de possibilidades. E sem querer, imediatamente, ele usou o mistério do seu cavalheirismo para encantar, no ato, três mulheres que não vão esquecer dele nunca mais. As flores estão todas lindas na água, vivinhas até hoje.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom final de semana, crianças queridas.


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Sábado, Dezembro 09, 2006

O MEDO É DEFINITIVO



"You were here, you were here, and you were here/ Don't look back"
[não há voz como de chan marshall, do cat power.]

"O segundo que antecede o beijo/ A palavra que destrói o amor/ Quando tudo ainda estava inteiro/ No instante em que desmoronou"
[e não há explicação mais precisa do que essa, dos paralamas.]


.::. A partir do momento que ela ultrapassou aquela porta, ela sabia.

Quando o ventinho molhado de brisa de inverno furou suas bochechas cheias de blush como se fossem pequenas agulhas em movimentos frenéticos, ela sabia. Entrou no carro, entreolhou as coisas que estava deixando ali, para trás, para nunca mais voltar a ver. Ela sabia que estava indo embora, e sabia que dessa vez não tinha volta.

Lembrou das manhãs preguiçosas, deitada de um jeito qualquer. Lembrou do jeito que ela acordava aflita, com os raios do sol perfurando sua retina, a convidando pra ir viver lá fora. Lembrou que se vestia com pressa, para depois ele despir com uma rapidez maior ainda. Lembrou ter sido uma eterna lua-de-mel.

E aí fechou os olhos.

Não queria marejar as coisas que estava deixando ali, bonitas. Tantas figuras, tantos gostos, tantas lembranças - agora seriam.

Ele entrou no carro junto a ela e apertou forte sua mão. Olhou balançado para ela, mas não fitou os olhos. Não conseguiria lutar contra o castanho profundo dela agora. Olhou sua boca, sua pinta no ombro esquerdo, seu cabelo que caía escondendo uma das sobrancelhas compridas. E deu partida.

A estrada parecia sem fim, parecia não acabar nunca. O eco de tudo o que cada um deles pretendia dizer, mas não diria gritava abafado como se não houvesse nada além de vácuo naquele carro, entre eles. E então ela pensou baixinho que talvez não chegasse ao final rápido justamente por se tratar de uma partida. As coisas definitivas eram sérias demais para passarem macias como uma viagem de verão. Era inverno.

Olhou discretamente para ele, mas não conseguiu decifrar qualquer outra coisa que não concentração na estrada. Ele queria chegar ao fim da linha e acabar logo com tudo aquilo que o prendia a ela. E foi na exata hora que, também ele, saiu por aquela porta de madeira, que ele acabou com ela.

O carro parou. E por um minuto ela sentiu como se também tivesse parado seu coração. Ficou sem fôlego, os olhos marejaram com um aperto na garganta que denunciava a conclusão da história. Tanta coisa resumida em um breve momento de despedida.

Pensou em aproveitar a última vez, em passar as mãos trêmulas por cada um dos pedacinhos do corpo dele, pensou em sugar todas as possibilidades de lembrança que aquele dia ia virar para ela. Mas não conseguiu. Simplesmente não conseguiu.

Nenhum dos dois podia dizer nada. E mesmo que dissessem, nenhuma palavra conseguiria quebrar o silêncio que havia entre eles, agora. Se olharam rápido porque os olhos entregam todas as coisas quando estão afogados nas lembranças. Nenhuma lágrima podia cair e mesmo que caísse, nenhum deles ia notar porque o ar estava quente, as mãos geladas e os olhos baixos, de novo.

Ela passou a mão pela nuca dele, agarrou o maxilar e levantou sua cabeça para a altura da dela. Sentiu que alguém tinha que ter coragem de terminar as coisas dignamente. Decidiu, então, que não há nada mais digno, nessa vida, do que um beijo. E foi isso que ela fez. Um beijo.

Desceu do carro e não olhou para trás. Ela nunca mais olhou para trás.

Tantas coisas ficaram perdidas lá, naquele dia, junto com a casa, a estrada, o carro, as lembranças e ele. Tantas vezes iria ainda pensar, ela, em como teria sido se ao invés da mudez, tivessem havido palavras e se os olhos não tivessem gritado o desespero, e as coisas pudessem ter sido resolvidas na franqueza de um simples diálogo que foi devorado por sua incapacidade de olhar pra trás.

O medo de uma solução paralisou a vontade dele, a dela. A vontade que tinham - os dois - dos dois. O medo de uma solução preencheu o vazio e eles assistiram calados o romper de tudo, num segundo. O medo deles foi definitivo.

E não tinha volta daquela vez. A partir do momento que ela ultrapassou aquela porta, ela sabia.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Layout novo que me deixou feliz demais. Uma beija pra você, dona Line Tiwinha gatérrima.
Obrigada.


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Quinta-feira, Novembro 30, 2006

O MENINO DOS MEUS OLHOS



"Nobody said it was easy/ No one ever said it would be so hard"
[o dia sempre fica mais calminho com coldplay]


.::. Tantos rapazes passaram pela vida daquela moça que ela acabava indo e vindo, começando e terminando, rindo e chorando sempre, tudo junto e ao mesmo tempo. Acabava não aproveitando muito a emoçãozinha do durante porque sofria pensando no depois; mas aí na hora de chorar pelo depois ela já tinha chorado muito e partia pra mais algum durante assim, sem esquentar muito a cabeça.

Foi sempre assim. Desde que ela consegue se lembrar, ou contar, foi assim. Eles aqui ou ali, tanto fazia. Era sempre o mesmo desfecho sem graça para a mesma história repetida.

E ela tinha uns 16 anos quando ele apareceu na vida dela. Na época ela mal conseguia diferenciar aquele rapaz de todos os outros e, pra falar bem a verdade, ela só percebeu de quem se tratava dia desses, quando começou a fechar seus olhos antes de dormir e percebeu que a imagem dentro do escuro debaixo das pálpebras dela, era dele. Percebeu que há muito tempo era ele. Percebeu que todos os outros rapazes nunca seriam páreos pra ele porque ele não estava nas coisas que ela via somente, ele estava também - e principalmente - nos olhos dela quando estes estavam fechados. Ninguém competia com ele porque ele estava nela, dentro dela.

Só que a vida nunca foi uma grande amiga dessa moça, nesse sentido. Todas as vezes que ela pensava em abrir os olhos e libertar o rapaz especial de dentro dela, a vida insistia em a fazer continuar sonhando. Às vezes era bom sonhar e ela mesma não queria abrir os olhos, mas havia outras vezes que o sonho ia virando pesadelo, ele corria perigo, ela queria acordar, queria tirar ele dali... mas não conseguia.

De todos os homens do mundo, ele era o que ela mais admirava. Todas as coisas que ele fazia viravam estórias encantadas na cabeça dela, ele era o príncipe que escalava o castelo, o cavaleiro que ganhava a batalha, a coisa mais brega e mais bonita que ela conseguia pensar sempre, era ele. E ela descobriu que não é vergonha ser brega para ser bonito. Ela estava cagando pra quem a achasse brega.

O tempo foi passando e a distância entre ele e a realidade foi diminuindo. Às vezes ela abria os olhos assustada depois do sonho e era como se ele estivesse realmente lá, era como se ela pudesse mesmo sentir o cheiro, a presença. Tantas vezes ela foi dormir contorcida, apertada a si mesma, desejando fundo que no lugar dos travesseiros e das vontades, fosse ele. Ela só queria que fosse ele.

Mas não foi.
Não dessa vez. Não foi de novo.

E ela conta os dias, as horas e os problemas que faltam ser resolvidos pra eles conseguirem finalmente ter o final feliz do conto de fadas. Ela o guardou há muito tempo num lugar muito seguro, que nenhum dos seus namorados de papel da vida real vai conseguir chegar algum dia. Porque eles, os outros, estavam dos olhos pra fora: ela os enxergava, se divertia, tocava, sorria, mas em hipótese alguma os levava para dentro dos olhos dela.

De tanto implorar para acordar, então, foi exatamente isso que aconteceu. Só que, por hora, o príncipe cheio de defeitos encantadores ficou lá dentro, lutando pra sair, ainda. E o ritual sagrado segue de noite em noite, numa espera angustiante, mas que um dia vai passar, há de passar.

Às vezes uma pessoa ou outra diz a ela que não se pode viver assim, fechando os olhos pras coisas à sua volta. Mas a moça, agora tão esperançosa, não só fecha os olhos como também, tapa os ouvidos.

Tantas pessoas passaram por ela, tanta coisa foi dita, tantas promessas que jamais foram cumpridas e ela fica pensando sozinha que, se ela já perdeu tanto tempo com sentimentos de papel, vale a pena - e muito - esperar por alguém que há tanto tempo faz parte da parte mais íntima da sua vida: o seu sonho de ser feliz.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom final de semana, crianças.


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