Quarta-feira, Junho 23, 2010

O blog mudou de endereço, crianças!
Atualizem nos seus favoritos e espalhem a notícia!

Beijos,
Rani.


http://www.ranighazzaoui.wordpress.com

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Domingo, Maio 02, 2010

LOBOTOMIA



"She wants to know if I love her, that's all anyone wants from anyone else, not love itself but the knowledge that love is there, like new batteries in the flashlight in the emergency kit in the hall closet."
[Jonathan Safran Foer, Extremely loud & Incredibly close.]


.::. Você olhou pra mim e fez cara de quem já me conhecia. De cima à baixo, como quem faz inspeção num imóvel onde morou quando era criança; móveis diferentes, mas o mesmo cheiro de lugar conhecido. Fazia tantos anos que eu não olhava pra você também, mas a verdade é que eu não senti saudade de você nem por um segundo nos últimos quinhentos anos. Nada.

Saí dali com aquela sensação estranha de ter mergulhado a ponta do dedo num copo de passado e enfiado na boca rápido, descobrindo numa lambida só que algumas coisas quando amargam não voltam a ser doce depois de um período de abstinência. Passei esbarrando por algumas pessoas, fui quase atropelada por alguns carros, as ruas ficaram um pouco tortas de uma hora pra outra e meu equilíbrio que andava tão em dia comigo resolveu falhar.

Esse é o problema de gostar das pessoas. Pessoas fodem sua vida, partem seu coração, comem outras pessoas quando deviam estar só comendo você. Pessoas têm passados de histórias de amor que não foram com você e, no fundo, a gente sempre sabe que a gente também tem o nosso e faz parte do passado comprometedor de alguém. E pior, até onde vale à pena lutar com garras afiadas contra o passado de quem a gente ama, ou esconder com todos os recursos de privacidade o que já aconteceu na nossa própria vida?

O problema do meu ciúme é que ele é tão grande que acaba ficando sem foco. Meu ciúme não tem nome porque eu consigo dar variados nomes à ele todos os dias, em todas as suas ações eu consigo achar alguém que está ali, bem escondidinho no canto do seu cérebro que administra todas as lembranças que foram feitas antes de eu chegar. Meu ciúme é tão imbecil, que eu às vezes penso que se eu abandonar você eu posso finalmente me tornar uma lembrança grossa que também caber (e ainda roubar o lugar de algumas pessoas) nessa parcela de massa incefálica que eu ainda não posso entrar. Se eu fosse passado e não presente, seria eu que ia importunar, não quem estaria sendo importunada.

Daí eu fico inspecionando meu passado de perto todos os dias atrás da moita, que é pra eu me lembrar que eu também tenho um e que, se você resolvesse futucar aqui e ali o tempo todo (como faço eu), você também sentiria ciúme de mim. Mas aí me vem sempre aquela outra pergunta: será que você não sente? Será que enquanto eu durmo você não pega o meu celular e lê todas as minhas mensagens na vontade de achar alguma coisa que explique o porquê eu vigio tão de perto cada um dos seus suspiros mais longos? Ou será que só sou eu mesmo que sou a louca deste relacionamento e não entendo que depois de tanto tempo não resolve mais ter ciúme, ou se acredita no que se tem ou se vai embora e pronto?

Vocês me olharam com caras conhecidas porque, afinal, vocês supunham mesmo me conhecer muito bem. Um beijinho aqui, há anos atrás, algum segredo que naquela época era muito importante, mas que hoje eu nem me lembro mais. Talvez você conheça o nome da minha música preferida e talvez saiba quem é minha melhor amiga e qual é o time do meu pai. Talvez eu tenha um dia dito estar apaixonada por você, talvez eu tenha chorado algumas noites – ou até muitas – porque você me traiu, ou porque me deixou, ou porque não quis me namorar.

E você, amor, você me olha fundo porque conhece o meu bem e o meu mal. Enquanto os outros guardam de mim memórias pequenas, você me reconhece nos meus gestos mais comuns e me enfrenta no meio dos meus devaneios, no meio dos meus ataques de morte, das minhas tentativas de guerra contra todos os demônios que habitam minha cabeça porque ela é sempre cheia de tantas coisas, funcionando muito mais rapido e atribuladamente do que a das pessoas normais. Eu tenho tanto medo de um dia uma mulher normal, com cabelo liso, roupas iguais às de todo mundo e senso de humor medíocre te leve de mim. Porque essas pessoas que são só pessoas – realmente iguais à seus iguais – são normalmente mais fáceis de se conviver. Porque eu sei que você acha a minha loucura bonita e até meio poética, mas eu sei também que você já achou tudo isso muito mais lírico do que acha hoje e que, um dia, pode de verdade cansar de tanto surto.

Eu disse que não senti nada por ele, mas é uma meia verdade, já que não é exatamente uma mentira. Eu senti nada, mas tem dias que eu busco em todos aquilo que você não me dá mais porque já me tem do seu lado há muito tempo. E eles me dão aos montes, mas na hora H eu recuso porque nada do que eles possam me dar vai ser você. E a verdade mais clara de todas as meias que eu tenho dito ao longo desse texto todo é que essas minhas ações repetidas durante tantos anos, nada mais são do que uma bandeira estendida por detrás da trincheira, pedindo trégua e tentando chamar sua atenção.

Na nossa guerra diária de passados, de outros amores, de decisões, de foco, de fica, de fode, de fato, não é a vontade de ganhar de você que me move, mas sim o medo de te perder. A qualquer hora sem aviso, para qualquer uma dessas coisas.

Meu ciúme é tanto que eu acabo olhando muito para o meu passado. E eu sei que sou louca – você me lembra todos os dias e eu também tenho consciência – , mas se eu encontrasse o tão falado gênio da lâmpada hoje, o pedido seria simples e sim, insano: um mundo sem passado, pra mim e pra você.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom tirar o pó, não é crianças?
Queria aproveitar e agradecer a todos que me mandam e-mails todos os dias, aos que me adicionam no orkut (eu não adiciono ninguém porque tento manter pros meus amigos, mas alguns de vocês bloqueiam a função de não-amigos deixarem recados e aí eu não consigo nem deixar uma mensagem pra vocês.
Quero que saibam que fico muito feliz e muito honrada de saber que tem gente que se preocupa com as bobagens que eu escrevo.
Beijo gordo e aproveitem o outoninho bom que tá fazedno lá fora. :)


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Segunda-feira, Fevereiro 15, 2010

BAND AID


"Maybe I'll just fall in love that could solve it all, philosophers say that that's enough, there surely must be more."
[Minha vontade de casar com Jamie Cullum ainda continua alternando com aquela outra, de casar com Brandon Flowers. O que fazer, meu Deus?]


.::. Não é porque meu papel está vazio, sem nenhum pingo de concisão há tanto tempo que o meu coração também está assim, silencioso. O tempo está passando tão rápido por mim, eu fecho os dedos das minhas mão com tanta força, mas o tempo prossegue passando, caindo por entre meus dedos, eu não consigo mais segurar ele aqui.

Tantas meninas eu já fui, arrisco dizer até que já fui muitas mulheres. Minha tristeza sempre rendeu boa poesia, minha verdade sempre serviu de guia pra pessoas que queriam acreditar não estarem tão sozinhas nesse mundo onde os sonhadores são pisados na cabeça, são sempre feitos de bobos. A verdade é que a gente se presta ao papel de bobo quando quer acreditar nas verdades absolutas que ouvimos desde criança sobre a lealdade, a amizade, o esforço, a justiça e sempre, claro, o amor.

Jamie Cullum diz numa música que eu já escutei tanto que posso contar as notas de cabeça, que sempre ouviu dizer que o amor seria capaz de acabar com as outras todas desgraças e insatisfações da vida de alguém, que ele seria capaz de tirar o peso do emprego que não dá prazer, dos amigos que não são leais, da falta de vontade que às vezes dá de levantar da cama num dia cinza. Mas Jamie percebeu, ali pro final da canção, que a resposta não havia de ser tão simples assim. Percebeu que o amor é super valorizado e que, de tanto a gente depositar todo o peso do mundo nas costas dele, na hora que chega acaba não dando conta de tanta cobrança, de tanto desejo acumulado de felicidade esperando uma oportunidade.

Eu tenho amor, hoje eu posso dizer isso de olhos fechados. Mas eu ainda tenho muitos problemas e, hoje, alguns deles são realmente sérios. Eu já vi gente que eu gosto ir embora, já fui embora de gente que me queria por perto, já voltei pra abraçar minha família, já chorei por não poder abraçar meu namorado, eu perdi amigos pro tempo e também, mais grave ainda, perdi amigos pra vida (amigos jovens, cheios dela ainda). Não gosto do meu emprego, não acho que fiz a faculdade certa, fico pairando numa linha sublime de expectativa concentrada de que um dia eu vou finalmente acordar de manhã achando que eu tenho o emprego mais legal do mundo. Eu me cobro felicidade todos os dias porque todos os dias eu vejo tanta tristeza real por aí e acho injusto com o mundo ser eu quem sempre está sofrendo de algum mal. "O seu mal é você mesma", ele sempre me diz baixinho em tom de quem está tomando conta de mim nas horas em que estou mais desprevenida. Mas a minha vontade é de arrancar as víceras dele pela boca por ele ousar não respeitar o meu espaço lírico, por ele nunca entender o que eu escrevo, por não se importar em entender e julgar que a solução é simplesmente não sofrer, é simplesmente não pensar, o que me irrita é ele achar que a solução é simples, é ele achar que a minha tristeza é só feia, é raza. Me irrita gente que não consegue enxergar além do óbvio da lágrima, gente que não consegue ver o lado bonito da dor (sem nada depressivo camuflado aqui).

O que quase ninguém entende é que, pra mim, doer não significa necessariamente não ser feliz. A melhor coisa do mundo inteiro são aquelas risadas de fazer doer a barriga, de dar cãibra no maxilar. Abraçar gente que a gente quer abraçar, comer comida boa, viajar sem saber onde vai acabar o destino, sem ter data pra voltar. Mas acontece que nenhuma dessas sensações anula o outro lado da moeda. Todo mundo é multissensitivo, todo mundo é capaz de sorrir e de chorar, é capaz de pensar além do que se ouve, é capaz de entender o que sente e de pensar a respeito disso. Acontece que nem todo mundo se interessa em se explorar, em se conhecer, em pensar um pocuo fora da caixinha que deram pra gente colocar ao redor do no nosso julgamento quando a gente ainda era criança. Nem todo mundo - ou quase ninguém - é tão autocrítico como eu sou, nem todo mundo passa dias e noites questionando o porquê é que a vida está passando tão rápido enquanto eu ainda não fiz um terço de tudo aquilo que eu sonhei fazer.

Eu tenho vinte e três, mas eu sufoco imaginando que daqui a um mês vão ser vinte e quatro anos não aproveitados do jeito que eles deveriam. Eu queria correr mais, viver mais, sorrir mais, escrever mais poesia, queria já ter escrito um livro, queria poder viver de amor, de música, de arte, queria não precisar tomar decisões pra sempre agora que eu ainda nem sei onde meu pra sempre vai dar. Queria que minha mãe sempre estivesse perto e pronta pra mim, queria um amor que ultrapassasse os limites dele próprio, amizades que não fossem embora com o tempo. Eu queria ser mãe, queria ser mão pra quem precisa; queria não precisar tanto de coisas que, no fundo, não fazem bem pra mim. Queria que o mundo fosse menor, que as distâncias fossem mais fáceis de ser percorridas pra que eu pudesse estar o tempo todo há dez minutos caminháveis de todo mundo que eu gosto.

Mas hoje, e só hoje, o que eu queria era muito mais simples do que toda essa dúvida eterna que eu carrego como fardo, mesmo às vezes largando em algum cantinho que eu sempre volto depois pra buscar. Hoje, e só hoje, eu queria olhar pra você e enxergar de novo aquele cara por quem eu fui capaz, mesmo que brevemente, de apagar todos os meus pontos de interrogação. Aquele cara que era, no meio de tantas dúvidas, a única certeza; o cara que fazia de mim uma mulher melhor.

O meu coração está barulhento, está machucado, está se sentindo sozinho. E olha como a vida é engraçada, meu amor. Eu sempre chorei as mágoas de um coração que sangrava por estar assim, vazio, oco, sem ninguém. Mas eu nunca poderia supor, nem nos meus sonhos mais delirantes de idealista de um amor que nunca vai existir, que chorar as dores de um coração que dói acompanhado podia ser assim, tão pior.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Como é que vocês estão crianças? Eu ando tão sumida que até eu estou com saudade de mim! Rs.
Bjos grandes.


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Terça-feira, Outubro 20, 2009

ASSIM É A VIDA. ASSIM.



"But you always hold your head up high cause it's a long, long, long way down. This town was meant for passing through, but it ain't nothing new, now go and show them that the world stayed round. But it's a long, long, long way down"
[amando The Killers mais do que nunca e, mais do que nunca, contando os dias pra ver Brandon no Brasil]


.::. Nada do que eu faça, nem de longe, nem de leve, tem a força e nem o poder de me mudar, de me fazer voltar a ser daquele jeito diferente que eu fui, que eu pensava, inclusive, que eu jamais deixaria de ser.

A vontade que me dá de sair correndo pelo mundo, de fechar os olhos e só abrir quando eu sentir o cheiro seguro da felicidade eterna e da liberdade fácil. Ficam me dizendo que pra chegar lá a gente tem mesmo que passar por tudo isso, que tem que sofrer e chorar e doer pra depois ver tudo se encaixar como peças perfeitas, feitas pra acertar a sincronia.

Mas sabe, eu não tenho mais dezoito. Eu não tenho mais dezenove, nem vinte e nem mais vinte e poucos. Os meus vinte agora são mais pra muitos e eu cansei de achar que tudo tem saída porque eu faço parte daquela juventude boa de gente que vai mudar o mundo.O mundo não vai mudar não, e não vai mudar porque nele só tem pessoas vaidosas e mesquinhas, feito eu e você; pessoas que olham por cima dos ombros porque não querem enxergar o outro, mas sim a sua própria bunda.

Tem aquela música que gosto que diz que o amor deve ser a cura pra todos os outros males porque, afinal de contas, as pessoas estão há milênios escrevendo, cantando e profetizando o amor como a cura de tudo. Mas o amor faz mais estrago do que cura. A paixão que consome muito, deixa a gente burro e inconseqüente, faz a gente passar por cima de muita coisa e, muitas vezes, do que realmente importa pra chegar lá no topo da nossa vaidade estúpida, com o nosso ego imenso, gozando na cabeça de todo mundo que serviu de degrau pra nossa escada escrota. Há pessoas que amam o poder mais do que amam as outras pessoas. Como eu disse, nem sempre o amor cura.

Quando você tem os vinte e poucos normalmente você tem, também, aquela sensação de que só gosta de si mesmo e é claro que assim a vida se descomplica mais fácil. Gostar de si mesmo e só de si mesmo é uma delícia, mas a gente estraga achando que amor cura tudo e tem mesmo de tomar cuidado pra não acabar sozinho lá em cima, comemorando a vitória com o vácuo que sobrou dentro do peito. Sabe? É, tem gente que não sabe.

Mas não adianta também se enganar achando que se agarrar ao ideal independente vai ser a saída e que, pra sempre, aquela inconseqüenciazinha gostosa vai ser a saída de tudo. Não é. Não é porque hora mais, hora menos a gente se sente sozinho, porque tem dias que não há nada melhor do que chegar em casa e sentir aquele cheiro de certeza conhecida, sabe? Deitar em qualquer lugar apertado ou espaçoso e respirar o mesmo ar – literalmente – do que aquela pessoa que te conhece por inteiro, com medos, feiúras, neuras, tristezas, sem maquiagem em dia de cabelo ruim e espinha maldita na bochecha.

Amar é uma delícia, não adianta mentir. Ser amado então, nem se fala.

Só que este texto, assim como a minha vida agora, não serve pra falar de amor.

Eu fico tentando enfeitar que é pra ver se eu acho graça de ver que mesmo eu tendo me perdido daquilo que eu sempre soube ser, eu agora sou amada por completo. Mas e o meu amor? Não aquele que eu fiz ser meu e sim o meu mesmo, por mim? Parece mesmo que eu virei adulta demais pra acreditar no meu amor inabalável por mim porque agora eu enxergo com olhos mais sérios as burradas que eu mesma faço e ao invés de gostar de mim, eu só me julgo.

Um texto vago, misturado, raso e meio cretino - já que não faz sentido pra ninguém além de mim - foi tudo o que eu consegui depois de cinco meses de longo jejum. Vai ver é porque é isto, exatamente assim que eu estou agora: vaga, bagunçada, rasa e sim, um pouco cretina.

Conviver demais com gente que não nos acrescenta nada faz isso com a gente porque no mundo real o sonhador é pisoteado em dois minutos. Talvez eu devesse mesmo ter ido estudar letras e artes cênicas, viver de amor lírico, ter uma vida mais modesta e feliz. Mas como qualquer menina idiota de dezessete anos eu me achava muito linda, e inteligente, e especial e amada para me contentar com o riso. Eu queria o sonho. Resultado? Agora eu que agüente passar pelo inferno.

Mas no meio da bagunça e das indagações de ser ou não ser depois que eu, de fato, já sou, uma coisa é certa: se eu tivesse dezessete de novo, eu provavelmente faria tudo igual e escolheria a selva ao sonho porque, no fundo, eu também quero gozar lá de cima na cabeça de todo mundo que pisou na minha pra hoje já estar lá.
[Rani Ghazzaoui]

.::. Não adianta outros métodos, minha melhor terapia está bem aqui.
Saudades de todos, crianças. Muitos obrigadas por continuarem aí.
Beijos, Rani.


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Quinta-feira, Maio 14, 2009

RESPIRE.



"Jealousy, turning saints into the sea, turning through sick lullabies, choking on your alibis. But it's just the price I pay, destiny is calling me. Open up my eager eyes cause I'm Mr. Brightside."
[The Killers é sempre bom e todo mundo merece, né não?]

.::. Tem dias que você para e olha pra si mesmo e a sensação que você tem é de estar perdido na insanidade que você enxerga, mas não controla.

Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia, eu largava quem quer que fosse, eu esquecia de compromissos, eu perdia a fome na hora de jantar, eu tomava um banho rápido, eu me vestia com pressa, desligava meu telefone, ignorava a campainha, ficava offline no messenger, eu saía de toda área de alcance porque a única coisa que me importava quando eu conheci você era que você pudesse, então, me alcançar.

O mundo dá tantas voltas engraçadas e, em muitas dessas voltas, a gente não dá risada de quase nada. Eu fico encontrando defeitos no seu passado como meio de estragar nosso futuro, mas eu juro que o ímpeto vem de dentro de mim, mas não é meu. Parece que existe alguma coisa mais forte do que o meu discernimento que me faz procurar escatologias onde não se vê nada de errado, só pra eu acreditar que ainda sei viver sem você em caso eu precise.

Porque por mais que aquele remoto passado parecesse um incrível segredo nosso, todo mundo sabia que eu estava apaixonada. Porque na verdade, a paixão não é uma coisa quieta, ela não consegue falar baixo, gostar devagar, querer de pouquinho em pouquinho. E a minha paixão não era nada diferente das outras paixões, aquelas que você já teve e eu também já conheci mesmo que sem vasculhar muito. A minha paixão por você era cega, surda e louca porque era a primeira – pelo menos daquele jeito maluco - e me arrastava tanto que me arrastou pro outro lado do mundo que eu conhecia e me levou pra um mundo onde a única referencia de tudo que pudesse pedir uma referência era você.

E quando você reclama que nada do que você faz está bom pra mim, não é porque você não seja bom e nós dois sabemos disso. O problema de ser bom é que depois de um tempo precisamos ser ótimos, e depois de ser ótimos viramos incrivelmente inexplicáveis e daí, melhorando sempre mais, uma hora a gente acaba mesmo virando o mundo todo de alguém. Tudo mesmo, absolutamente sem frestas e nem espaço pra mais nada. Quando alguém é tudo o que um outro alguém enxerga, esse outro alguém, então, está a um passo de ficar cego. Ser tudo sufoca, porque ser tudo impede desejos individuais, impede criatividade, impede felicidade por besteirinhas do dia a dia porque não são em todas as horas do dia que o você está lá, junto com a pessoa que te tem como tudo.

No final das contas, quando se tem um tudo, acaba-se ficando meio que sem nada.

Naquela época que o nosso sonho virou realidade, eu, na minha paixão quase que histérica, corri pra você ignorando tudo o que estava mesmo em volta da gente, aceleradíssima na vontade de viver rápido como se eu não pudesse perder nenhum segundo daquilo, era medo de acordar, sabe? E aí eu ignorei o fato de eu ter um passado e de você ter um passado porque eu tinha sede demais do nosso presente que demorou tanto pra acontecer.

Eu esqueci que sonhos não duram pra sempre porque quando um se realiza, a gente já deu conta de sonhar mais três depois do último. Eu esqueci que a gente ia fazer planos e que eu ia ter ciúme até mesmo da idéia de você já ter tido nem que seja um projeto de plano com mais alguém. Planejou de ir até a lanchonete do tio Zézin num sábado em que os seus amigos te deram bolo e não tinha nada de mais interessante pra fazer? Ta aí, não importa, já me deixa louca de ciúme. Só a idéia. Eu odeio as terceiras pessoas e odeio ainda mais quando essas terceiras pessoas existem só na cabeça de quem vê porque, caso elas fossem reais, eu teria desculpa pra fazer o que eu faço, pra ser irracional, pra não ter limites e nem compaixão. Dá vontade de bater em todo mundo, de sair na rua gritando, de chorar minhas dores em voz alta pra fazer eco e pra ver se no vexame eu enxergo o quanto estou ridícula de não acreditar que o seu amor é genuíno e que o passado que eu tanto teimo em trazer à tona já nem passa perto de perturbar você.

Eu fiz tanta besteira na minha vida, e o meu medo de te desapontar é tão grande que eu preciso procurar besteiras na sua vida, pra me desapontar com você e estar mais preparada caso você decida seguir por aí, sem mim.

Eu te amo, sabe? Daquele meu jeito que você reclama, mas eu sei que, no fundo, gosta. Só que o meu amor não é só ternura, muito embora eu tente tão forte. Eu sou uma pessoa difícil, daquelas que sente muita raiva e que não leva a vida assim, tão leve. Porque mesmo que rasgadas, aquelas fotos ainda estão se remontando o tempo todo em algum outro lugar que eu não vejo, mas que meu coração sente. E tem aqueles cheiros que a gente sabe de olhos fechados e me mata a idéia de eu não ter feito parte das suas recordações que te dão aquela nostalgia boa e vem misturada com a vontade de poder voltar no tempo e comer doce deitado no sofá da casa da sua avó.

O que acontece quando a gente ama mais alguém além da gente mesmo, é que por mais seguro se tenha sido na vida, aparece aquela sensação de ter perdido tanta coisa, tanto detalhe e, no fundo, dá um puta medo de não conseguir superar, entender, acompanhar.

Quando eu te conheci você fazia parte das horas mais preciosas do meu dia e eu largava qualquer coisa só pra poder falar com você. Hoje, você ainda faz parte das horas mais preciosas do meu dia, muito embora eu tenha plena consciência que eu desperdiço a maior parte delas desacreditando da beleza, da maravilha e do milagre que é, mesmo depois de tantas tempestades fortíssimas, a verdade absoluta do nosso amor.

[Rani Ghazzaoui]

.::. Crianças, que saudade absurda! Tô em dívida alta e vou pagando aos poucos, prometo.
Ah, e pra quem gosta de moda, vistem meu outro blog : http://fashionexperiment.wordpress.com . Outra proposta, mas também minha cara.
Beijos grandes!


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Sexta-feira, Março 06, 2009

AMOR AOS PEDAÇOS.



"When there's no where else to run, is there room for one more son?"
[The Killers é mania muito justificável, não acham?]


.::. Um branco, um vazio, um oco, um nada, um furo, um preto, um fundo, um fim, um o quê?

Todo mundo no mundo já teve a sensação de não pertencer, de ter se perdido em alguma parte, de não saber o que vai ser daqui pra frente e de como se resolve os problemas quando a sua cabeça está por todas as partes, menos aqui. E de verdade, foi mesmo fácil entender o quão perdido você está agora e como a vida tem sido tudo aquilo que a gente não queria de uma só vez.

Aquele lençól ficou amassado e sujo, mas eu não tive tempo de resolver isso porque o meu avião ia subir. Eu estava indo embora, estava deixando tudo pra trás, estava deixando as minhas coisas, as minhas caras, as minhas dúvidas dali, os meus papéis amassados, as minhas palavras de começo, o meu travesseiro que me incomodava tanto e que virou o meu melhor abraço no dia que você teve que ir embora. Eu deixei a minha cachorra e o amor que ela carregava pela casa atrás de mim. Eu deixei meu coração com ela porque agora ele sangra todas as vezes que eu penso que tive que deixar ela pra trás. Deixei meu ouvido debaixo daquele criado mudo que tinha na gaveta tudo o que a gente começou a construir juntos e foi interrompido, e é certo que meus olhos ficaram presos no Centenial Park perto daquele laguinho onde vocês dois brincavam todas as tardes enquanto eu meditava embaixo daquela árvore imensa que virou minha melhor amiga. Ficou tudo lá.

Aquelas pessoas, lembra? A gente não falava a mesma língua mas era absurdo o quanto a gente era capaz de se entender. Amor é meio universal mesmo e amizade é mais ainda, aquela coisa absurda de sentir a dor e a saudade do outro e fazer toda força do universo pra tentar fazer aquilo passar. Ninguém que a gente gosta pode sofrer. Ninguém que te faz rir quando você queria a sua mãe, que te leva pro hospital quando você desmaia de manhã por pura estafa, que dirige uma hora e meia pra te fazer sopinha porque você está há uma semana de cama, que dorme com você pra te fazer companhia, que ouve, que fala, que ri e que chora com você, nenhuma dessas pessoas deveria poder ir embora do alcance da vista, nunca.

Quando o mundo muda e a gente fica, a sensação é de não saber qual é o próximo passo, literalmente. Onde apoiar seus pés pra não cair de vez já que não se faz a mais remota idéia de pra onde se está indo? E quando a gente vai sem rumo a gente chega a vários lugares, mas também acaba que não chega a nenhum porque no fim nenhum lugar que possamos chegar é aquele em que queremos estar.

A verdade unânime pra mim é que mudar de casa, de país, de amigos e de estilo de vida é quase como se apaixonar, conquistar alguém e depois ter que desistir, superar aquilo. Porque é muito difícil no começo e você sente tanta saudade de tudo que se esmaga pra caber naquela carapuça que vai ter que vestir por escolha própria e acha que tem de gostar; se puni por sentir saudades, fica mal e não conta pra ninguém porque tem que aproveitar o que está acontecendo. Só que é quando a gente vai embora que a gente percebe que algumas coisas, alguns momentos e algumas pessoas ficaram e não vão voltar e quando você volta pra de onde veio inicialmente, nada lá é mais o mesmo também. Porque a vida andou pra eles também. E, muito embora os ares sejam os mesmos, as coisas mudaram de lugar, as pessoas foram e você perdeu muita coisa e, é fato, às vezes não dá pra acompanhar, às vezes dá preguiça de acompanhar.

Agora me diz, como é que se vive sem todas as coisas? As materiais não porque essas é muito bom de ver, não nego, mas são frias e substituíveis. Quero saber o que se faz quando o seu coração se dividiu entre dois lugares diferentes, quando seu bem-querer passou a ser de várias pessoas que não podem estar todas no mesmo lugar do mundo ao mesmo tempo, que a casa da sua mãe deixou de ser a sua casa e que a sua casa não existe mais? Pra onde é que se corre quando os objetivos de uma vida inteira já não fazem assim tanto sentido porque você percebe que seus objetivos eram baseados numa noção de felicidade geral, mas agora você notou que no fundo ninguém é mesmo assim tão feliz, ou tão preocupado e que as pessoas vão simplesmente vivendo sem perceber o leque de possibilidades de descobertas e felicidades que esperam por elas fora do que se é esperado?

É por falta de coragem de analisar à si próprio, talvez, que as pessoas se sintam tão à vontade analisando o comportamento dos outros, o alheio, aquilo que não lhes pertence e nem vai. E é por isso que eu não me importo de todos acharem que eu ando esquisita, ou distante ou que o meu entusiasmo não é assim tão grande pra coisas que deveriam ser. Por mais mesquinho que seja não dividir isso com ninguém, é o melhor que se faz já que as pessoas não vão mesmo compreender.

A verdade é que eu estou com saudade de um tempo que passou, de um lugar que não existe mais, de pessoas que vivem só dentro de mim. A verdade é que de agora em diante vai ser sempre um pouco assim e não é que eu esteja infeliz, é só que agora a minha felicidade se espalhou por aí e ficou, com certeza, muito mais difícil reuni-la inteira num lugar só.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, eu sei que sumi!
Esse ano vai ser punk, mas eu venho sempre que dá, né? Vocês sabem.
Beijo gordo!


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Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

AMOR QUE NÃO SE PEDE [E NÃO SE REPETE].



"Got so sick of crying, so just lately. When I catch myself I do a 180°."
[sempre Amy pra quem gosta de sofrer com trilha.]


.::. Em algum lugar do mundo, agora mesmo, existe alguma mulher qualquer sentada na beira de sua cama, tentando entender porque as palavras que ele diz tem de machucar tanto, porque os planos dos primeiros meses acabam no final deles e em como viver em função de alguma outra pessoa – que não ela mesma – pode ser a coisa mais frustrante do mundo. Quanto mais altruísmo, menor o amor próprio e assim vai. A verdade é que nada nunca pode mesmo estar perfeito em todos os sentidos possíveis porque, é óbvio e batido, mas perfeição não existe. Blá blá blá.

De noite quando ele fechava os olhos e dormia em questão de segundos, ela permanecia com os dela intactos, abertos, esperando um motivo pra então respirar aliviada e dormir de peito leve. Fazia tanto tempo já que não era assim. Mas não adiantava. Sua noite era corrida e atropelada por tudo aquilo que ela sentia de errado e, mesmo tendo tentado explicar tanto, acabou ficando ali preso a ela e tão somente a ela. A sensação horrível de clausura por saber que por mais que se faça por merecer nada vai mudar enquanto a outra pessoa simplesmente julgar que não é aquilo que ela merece. Tão absurdo – e tristemente verdadeiro – que foi ela mesma que colocou nas mãos de outra pessoa todas as coisas que poderiam determinar a sua própria felicidade.

Ficou lembrando de quando ela tinha um plano de vida em que o amor era incluído, mas não era necessariamente o núcleo central da trama. De quando meia hora de lágrimas era absurdamente muita coisa comparada à importância que qualquer pessoa pudesse vir a ter na vida dela. Não, não entenda errado. Essa mulher amou com tudo o que podia sempre que teve uma oportunidade. Ela abriu os braços e fechou os olhos para se jogar na vida sempre que pôde, sempre que sentiu que podia. Ela se escondeu em becos, ela gritou de madrugada, ela deu risadas tão escandalosas que assustaram até mesmo a felicidade histérica dentro dela, ela se arrumou, ela se desarrumou, ela vestiu a fantasia da vez e fez valer a pena pra ela, porque era ela quem importava. Ela viveu os momentos e, quando sentiu que era o caso, sofreu pra se curar do que doía ali dentro. Sem culpa por ser quem ela era e estar passando pelo que estivesse passando naquele momento.

Mas, antes dele, ela jamais havia aberto mão de nenhum sonho dela por ninguém. Sonho nenhum porque, talvez, quando ela o conheceu, ela julgou que todos os sonhos que ela pudesse ter tido até aquele exato momento, estavam sendo realizados. E ela rezou baixinho agradecendo por ter tido tanta sorte na vida, como se a luta dela tivesse mesmo acabando exatamente ali, onde começava a participação dele. E esse foi o erro.

O que ela não percebeu lá - e que agora se arrepende tanto - é que alguém sem sonhos é alguém que já morreu. Que alguém que já tem tudo é alguém que não pode conquistar mais nada e que, sem nada pra se querer muito, não se pode ser feliz. O que aconteceu com aquela mulher incrível dentro dela é que ela se perdeu na sombra de um homem, também absolutamente incrível, mas que já não precisava mais de tanto esforço pra fazê-la feliz já que ela, agora meio sem graça, sem ambição e sempre triste, já não tinha mais nada de personalidade pra oferecer a ele.

E enquanto ele respirava forte e profundo no seu sonho tranqüilo, ela continuou de olhos bem abertos no escuro, procurando naquilo que ela não podia ver, a resposta pro caminho que ela teria que tomar, gostando ou não, com medo ou não, sozinha ou não, agora que ela percebeu que embora ela tivesse depositado tudo o que ela sempre foi num amor que deveria ter dado vida melhor à vida dela, tudo o que ela conseguia sentir naquele exato momento era a paralisação de quem, por algum motivo, se deixou fazer morta.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boas festas, crianças. Com todos aqueles desejos de coisas boas e tudo mais.
Beijos!


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Sexta-feira, Outubro 24, 2008

VERDADE.



"Rember today, I've no respect for you. And I miss you, love. And I miss you."
[na época em que o Silverchair ainda fazia todo sentido.]


.::. Existia uma palavra dentro dela que fazia com que a dúvida parecesse um pouco mais segura, e que a espera pelo sorriso doesse um pouco menos. Ele olhava muito pros lados e tão pouco pra ela e, agora, era quase imperceptível o desvio dos seus olhos que já há tempos não encontravam os dela. Cruzavam-se apenas, e pra ela era tão insuficiente. Ele já não estava nela.

Fácil, mas não muito justo mais, era lembrar dos primeiros dias ao lado dele. Os carinhos que não acabavam do jeito que hoje só ela sabia, aquele jeito que ele tinha de segurar a sua cintura tão firme, tão forte, que o mundo podia tremer e passar por tantos lugares e ela já não notaria, era como se ela não estivesse lá, a não ser, só ali ao lado dele.

Mas o tempo passou. Parece que deixou pra trás tudo aquilo que se tinha, tudo aquilo que não pertencia a mais ninguém, tudo aquilo que fazia daquele momento único, daquela ocasião diferente. Foi por acaso que eles se encontraram, ele disse, mas não foi por acaso nem sorte que tanta coisa aconteceu pra eles até terem, então, chegado ali onde haviam. E o amor que ela sentia já não mais tinha jeito de respiro, mas sim sufocava. Amava com tudo o que podia, mas amava errado, e sabia. Tinha mais medo de perder do que vontade de aproveitar, tinha mais força pra fingir do que iniciativa pra mudar o que ela sabia estar errado, o que ela julgava jamais ter podido acontecer, o que ele, um dia olhando nos olhos dela, prometeu prevenir.

O tempo passou pros dois. Ele com os pré-concebimentos, as pré-palavras e as prévias de um futuro que ela não queria na ponta da língua. Ela mais calada do que queria, acoada numa vontade de choro que, agora, ele reprimia tanto e ela, até por isso, já não era capaz de controlar.

O mundo não era justiça, ela sabia. Sabia de todas as pessoas que acreditavam uma vida inteira na possibilidade de um amor que simplesmente não seria. Mas ao mesmo tempo que sempre duvidou, ela entendia que pra ela havia de ser diferente, que deixou muita coisa cretina pra trás e que, na hora de desistir de uma vida pra ganhar um universo inteiro, ela acertaria de olhos fechados, a sua cabeça deitada no travesseiro, a boca aberta de ar, de desejo, de tranquilidade. Ela sentia que por mais que demorasse haveria um porquê atrasado que, ainda que não compreendido, serviria como argumento pra quem invejasse sua felicidade aguda, bonita, quase cega. Ela acreditava, ainda que tão brega, que o final feliz existia pra algumas pessoas. Sem necessidade de dizer que ela se incluia nelas.

Mas ela sabe que a culpa de ele estar assim é, parte, dela. E embora com o coração partido ela precisa encontrar um jeito de enxergar nele aquele homem por quem ela se perdeu pra achar a pergunta exata praquela palavra que fica repetindo na sua cabeça e acabou tirando o sossego das suas noites e a graça dos seus dias. Ela precisa olhar pra ele e perder o fôlego de novo e entender que, nesse dia, os olhos dele não vão ter outro destino além dos olhos dela, sem lágrimas, sem dramas, bem leve como eles sabiam fazer ser antes.

Mas a esperança continua lá. A fé dela no amor deles ainda existe e não me parece, até onde se enxerga, que algum dos dois vá vestir a roupa do covarde pra desistir. E quando a luta dela acabar, eu sei que vai ter ele ali na frente, de peito aberto amando cada detalhe da loucura que, antes, cercava só ela, mas que agora faz parte da vida dele também. E se ele esteve sempre certo, então essa é a hora de entender que o acaso foi amigo na hora de apresentar os dois, mas o amor é o que explica, mesmo com tantos vendavais, a calmaria do depois de tudo.

E para os outros tudo poderia ser porém, mas no amor dele, ela ainda existe. Verdade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Sempre com saudades, sempre querendo ouvir vocês. Beijo bem grande, crianças!


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Domingo, Agosto 10, 2008

AQUELE OCEANO AINDA EXISTE.



"There is no greater love than what i feel for you."
[ainda tentando avisar a Amy que ela não pode morrer.]


.:. O grande problema dela é que ela insistia em buscar a graça da vida em tudo. Tudo tinha que ter um propósito claro que levasse à felicidade, que fizesse ser mais fácil depois mesmo que agora fosse um caos. Ela sentou naquele banco meio mofado de transporte público e enquanto todas as células do seu corpo repeliam a sujeira, ela se concentrava na música do ipod e tentava analisar a vida dela naquela melodia. O indiano sentado no banco da frente tinha cheiro de azedo e cara de, hum, azedo. Ela antes teria raiva, teria ódio, teria preconceito, mas agora era ela o indiano. Agora ela era a pessoa que acorda cedo, dorme tarde, come errado. A pessoa que caminha no meio das outras e não enxerga nada porque não tem tempo, porque tem muita pressa e muito cansaço, porque tem muita fome mas não de comida.

As pessoas passam a vida inteira tendo medo de morrer, tendo medo de amar e guardando dentro de si tudo o que de ruim acontece pra poder depois então se culparem por não terem sido felizes.

Ela ligava para o namorado no meio da noite chorando e não dizia nada. A dor dela era tão confusa que não adiantava tentar explicar. Suas grandes emoções se mostravam em palavras pequenas. Ela tinha medo de tudo dar errado, tinha medo de o mundo separar o que o destino fingiou ser certo, tinha medo de pela quantidade de medo que ela sentia, ele simplesmente não achar que valesse mais à pena. E depois da briga, a cada toque que o telefone dava, sem resposta, era como se o coração dela fosse ficando menor, comprimido, amassando em um espaço curto todas as sensações que ela carregava ali pra viver durante uma vida toda. E era tão injusto com ela tudo se compactar tanto.

Mas ele também sentia. Sentia culpa porque não foi do jeito que planejaram, sentia vontade de resolver o que não estava ao alcance de suas mãos, sentia falta de um poder sobre sua própria vida que, agora, ele parecia ter perdido. E quando o seu telefone tocava ele não queria atender porque ele sabia que dalí viria o choro e, pra ele, era muito insuportável ouvir a única pessoa o fazia se sentir vivo morrendo.

Acontece que as noites passavam repetidas pra dar lugar aos dias que não se viam. Tudo acontecia rápido e batido. Os olhos no despertador, a escova nos dentes, os sapatos nos pés, os pés de lá pra cá o dia todo, as mãos no telefone, as palavras que não se deveria dizer, o choro que não encontrava outro caminho, a cabeça no travesseiro. O dia começou de novo.

E não importava se com compaixão ou com raiva. Não importava quantas coisas eles dissessem pra se machucar aos poucos com medo de um dia não ter mais volta. Não importava em que fuso estavam ou se o horóscopo disse que a única solução era acreditar. O que importava é que estavam cansados, estavam mudos e um pouco burros. Estavam com medo de escuro mas não tinha aonde acender a luz. O que importava é que descobriram que se vive de amor sim, mas que pra isso se sofre muito.

O grande problema dela é que insistia em buscar a graça da vida em tudo. E tudo o que ela tinha vivido antes, embora parecesse tão fácil, com certeza não a fez sorrir. E ela sabia que iria chorar mais, que iria chorar muito mais. Ela sabia que talvez não estivesse perto, que ainda não estivesse exatamente ao alcance de um abraço ou à facilidade de um beijo que explica tudo. Ela sabia que podia ter feito a escolha mais fácil e se poupado de tantas noites sem dormir com o peso do mundo inteiro separando ela do seu travesseiro, mas acontece que a cada vez que a voz dele respondia do outro lado da linha, a cada silêncio que preenchia todo o vazio de respostas e a cada fim de dia que, mesmo sem ele, ele estava com ela, ela sabia.

Escolher entre a paz e o amor é a decisão mais importante de uma vida, mas pensando bem, que espécie de paz seria essa sem as mãos dele na nuca dela, os pés esquentando uns aos outros, as guerras de ciúme que acabavam quentes e úmidas e sem nenhuma tropa inimiga por perto? O que seria da vida dela se não um marasmo não fosse a vida dele? E embora fosse difícil e doesse mais alto do que ela pudesse gritar, ela sabia que aquilo que eles tinham não se encontrava num bar, num restaurante ou nas piadas cheirando à cerveja e sacanagem que saíam da boca de qualquer outra pessoa por aí. O que eles tinham tinha a força de uma saudade até quando eles estavam juntos e, isso, risada nenhuma podia pagar. Rir só era tão pouco.

Talvez então, pensou, não valesse tanto a pena querer buscar só a risada. Lembrou então - fechando os olhos cansados de olhar em volta - que quando ela pensava nele não dava tempo de achar graça, não dava tempo de questionar mais e nem de pensar que era infeliz. Pensar nele era tanto sorriso. E aí ela finalmente então entendeu o que o mundo todo queria dizer quando explicou que sem a guerra não há a paz.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Vir aqui me faz tanta falta!
Saudade de falar com vocês, crianças!


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Sábado, Maio 17, 2008

TODO AMOR QUE HOUVER NESSA VIDA.



"So he tries to pacify her, but what's inside her never dies."
[alguém avisa a Amy que é muito talento concentrado pra se estragar assim?]


.::. E, na verdade, ela só queria saber quando foi que tudo virou isso, desse jeito confuso e pesado que é agora, que dói de respirar, de comer, de pensar. Acordar com vontade de voltar a dormir porque encarar a vida se tornou uma tortura que se repete. Os dias se repetem esfregando na cara tudo o que ela tenho de bom na vida, mas não dá valor.

E vai ver que aquela outra, que olha tudo com olhos grandes, esteja certa. Vai ver que a vida desta seja mesmo tão sem graça que é melhor querer a da outra. Vai ver que a explicação que ela vai dar é que, melhor do que sofrer sem amor, é sofrer por causa dele. Porque enquanto pra uma é tanto vazio, pra outra é tudo o que se tem de máximo, misturado. Sabe a sensação de gostar tanto, de querer tanto, de precisar tanto que chega a sufocar? Sabe ir dormir à noite com medo do que vai sonhar e acordar de manhã tateando o nada, até encontrar o que quer e ter certeza de que ele ainda esta lá?

Ela sentia. Sentia até cortar as linhas da sua racionalidade. Ela sabia até sangrar sem ninguém ver, justamente pra doer sem sentido nos olhares do mundo.

Pra querm sempre amou de pouquinhos, porque nunca iria se entregar inteira, amar de verdade machuca porque exige demais. Exige mais paciência do que ela parece ter, mais companheirismo do que consegue dar, mais amor próprio porque quando ela ama, ela ama muito e é fiél demais. Não dá pra amar igual duas pessoas ao mesmo tempo.

É como se tudo o que ela sempre disse estivesse se voltando contra ela mesma, por vingança ou qualquer coisa, por vontade de fazer não ser tão fácil agora que é alguma coisa de verdade. Como uma punição por ela ter sempre sido tão dramática com coisas pequenas, com as bobeiras e as pessoas de meias horas. Vai ver sofrer assim agora era uma maneira de sempre lembrar de quando ela sofria de mentira, pra mostrar qualquer coisa pro mundo que ela tinha certeza que a enxergava, pra provar qualquer coisa pra alguém que, até hoje, ela nao conseguiu descobrir quem é.

Só que está ficando feio. E a sujeira vai transbordando dela em direçào à ele. O amor que ele sente por ela se quebrando em pedaços pequenos porque o que existe dentro dela é tão forte que parece que não vai embora jamais. Ele abraçava seus braços, tapava seus ouvidos, segurava sua cabeça pra cima, mantinha-a erguida porque o discernimento dela estava caído, de novo, naquele chão e, se ela olhasse pra baixo, só iria escorrer mais. Ele segurava de todos os lados, de todos os jeitos, com todas as forças, mas não adiantava e, talvez, ele tivesse mesmo já descoberto que proteger alguém de si mesmo é – se não a mais – uma das tarefas mais difíceis desse mundo.

E não adianta ele querer muito e ela jurar que consegue se, no fundo, ela não está tentando como devia e ele não está acreditando com todo o coração. O coração dele também morreu, e ela sabe que a culpa é dela.

Então a história vai seguir assim, ele do seu lado e o mundo contra ela porque, repare, ela mesma não conmseguiu ainda se encontrar e embora sua companhia esteja cheia a sua alma está vazia.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Eu sumo, mas eu volto!
Muitas coisas rolando aqui na terra down under, crianças. Se cuidem, queridos!


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Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

NA PENUMBRA, A LICENÇA PARA A DESCULPA.



.::. Eu estava precisando de um tempo do mundo. Me fechar um pouco dentro do meu quarto, aquele bem escuro que existe dentro de mim, e tapar um pouco os meus ouvidos pra todos os barulhos externos que andavam me ensurdecendo. Eu estava precisando de uma folga de tudo pra eu poder ser eu mesma, mesmo que isso significasse não ser tão boa em tudo como todo mundo julgava que eu devesse ser. Precisava fechar os olhos e chorar, sabe? Mas não um choro com lágrimas que corressem fora dos meus olhos, não. Eu precisava me chorar um pouco, chorar fundo, me rezar, me acalmar sozinha, me olhar melhor porque eu andava tão perdida dentro de mim. Eu estava com mais medo do que qualquer um poderia supor, ninguém suporia por fora, porque por fora ainda era só o belo. Eu precisava de um tempo de reclusões pro meu belo não ser só externo, e pra eu voltar a ser bonita.

Eu estava precisando de um tempo sem muitas mentiras. As poucas eu até poderia lidar, aos poucos. Mas não mais as mentiras feias, as sujas, as que até eu mesma tinha vergonha de contar pra mim. Eu precisava de encanto de céu, de mar e de lua à portas trancadas e paredes altas, sem teto.

Eu deveria ter parado tudo o que eu estava fazendo, parado as contas, as trapassas, as esperas e os planos. Eu devia ter deitado a minha cabeça no meu travesseiro com mais dignidade porque naquela hora ainda havia alguma envolvida em tudo o que eu fiz com você. Eu devia ter perdido o rumo pro caminho certo e não ter tentado ser o que eu não era, o que eu não sabia, o que eu não queria só pra sentir que há qualquer custo a gente não se perderia da gente, na nossa bagunça da distância, no nosso caos do amor.

E eu errei com todas as minhas forças. Fechei os meus olhos pro óbvio e acendi as luzes do escuro que existia em mim. Mas o fato era, eu precisava dele. Eu precisava da penumbra pra descansar, pra recarregar, pra continuar entendendo que lutar por você valia à pena cada madrugada que a gente passou acordado esperando a droga de um milagre qualquer acontecer. Eu não conseguia, entretanto, entender que os milagres são só história mas nós somos verdade, e que a nossa vontade consegue tantas mais coisas do que conseguem eles.

Mas eu preferi ser fraca porque é assim que agem as pessoas infalíveis que prevêm uma falha, elas põem a culpa na fraquesa, no cansaço, na dificuldade da vida, no trânsito e no joanete inflamado no pé esquerdo. E eu não queria ser uma dessas pessoas babacas, mesquinhas, vazias e tão parecidas com todas aquelas do mundo que a gente estava correndo, mas eu fui.

Eu entortei nossa verdade com uma mentira minha, estúpida e resolvi desaguar tudo o que doía de antes, de depois, de durante, de qualquer tempo num espaço curto de tempo por sentir que já havíamos perdido a noção da hora.

O choro foi mútuo e contínuo, quase um abraço perfeito. Porque foi na imperfeição daquela situaçao doída que eu me dei conta que os seus braços eram meu refúgio certo, que seu perfume era o meu cheirinho de casa, que sua boca nasceu pra beijar a minha e que as minhas madrugadas sem os seus sonhos iriam continuar frias e molhadas no meu quartinho sempre apagado, sempre tão escondido do mundo com seus muros altos, sempre sem você.

Do pior jeito eu descobri que não adianta lutar errado, não adianta fugir errado, não adianta querer errado quando o certo está bem ali. Do pior jeito eu enxerguei as verdades que você sempre me disse, enxerguei a minha derrota, a sua partida e toda essa força que eu não sei explicar que nos une tão forte que é quase impossível não voltar. Do pior jeito eu percebi que a vida não é tão engraçada e jamais vai ser, mas que a noite passa macia e o dia flui melhor quando a gente ama quem a gente ama, exatamente do jeito que essa pessoa é. E agora, com o sol mostrando o caminho que deixou de ser meu pra ser nosso, eu sei que aprendi.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Um beijo crianças, e bom carnaval!


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Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

VOCÊ VENCEU.



"teu paletó enlaça o meu vestido, e o meu sapato ainda pisa no teu."
[se até chico foi perdoado pela cafonice, por que não seria também eu?]


.::. Eu podia ter escolhido o caos, mas eu escolhi você. Tive medo de tantas coisas, corri atrás de tantas histórias que seriam piada na boca de outras pessoas, eu tentei escapar das escolhas que eu mesma fiz ao longo de todos os anos. Nada adiantou.

Sempre ousei preencher suas lacunas com tantas outras pessoas. Eu me esforcei demais pra acreditar que a falta que eu sentia das nossas madrugadas eram apenas buracos que podiam ser recheados com qualquer sensação que suprisse o oco, com qualquer palpitação mais indicativa, com aquilo que latejasse no lugar certo, na hora certa e não necessariamente com a pessoa certa.

Mas eu confesso que fui burra. Porque eu me fazia de difícil mas todas as vezes que o sol levantava meio cinza era pra você que eu ligava. Porque nos dias de chuva era o seu cheiro e o peso do seu corpo no meu que eu queria sentir. Quando a madrugada esfriava e gelava os meus pés eu só queria trocar minhas meias por você me abraçando forte e fazendo o medo de congelar ir embora junto com as minhas sensações forçadas. A grande verdade de tudo é que eu me esforcei tanto pra acreditar que você não era o homem da minha vida porque eu jamais acreditei em nada tão brega como scarpins caramelo e amores de uma vida inteira.

A minha mania de banalizar sentimentos devia ter te empurrado pra bem longe de mim, mas o seu abraço é comprido e sua sede por mim é eterna e você não desistiu de me alcançar.

Quando eu disse que eu fiz tudo sozinha, que sem mim nada teria dado certo, que as manhãs continuariam incertas e que a verdade dos nossos olhos jamais seria descoberta, eu também estava mentindo. A minha alma covarde não foi capaz de assumir pra si mesma um amor, quem dirá assumir um passo tão nobre para o mundo. Eu precisava reclamar do que fiz pela gente pra acreditar que eu era melhor do que você e, assim, continuar desgostando de você. Mas eu não consegui.

A força está com você e as suas certezas transpiram não sei como dizendo à quatro ventos o quão melhor do que eu você é. Eu não tenho argumentos de negação.

E eu errei em cada pedaço mal contado da nossa história. Porque no fundo eu sei que quem conta esses capítulos sou eu, com a minha métrica compassada de quem acha que seu único dom é a palavra. Mais uma vez errada, então. As minhas palavras acabaram confundindo os caminhos tão claros porque eu sempre preferi o drama emocional; daí a sua admiração por mim quando eu me despia das minhas dúvidas e começava a fazer comédia.

Mas agora é risada e eu sei. Porque depois de tantos porquês não há nada mais justo que a felicidade simples, ainda que ela dure pouco, ainda que enlouqueçamos depois dela, ainda que a vida faça sentido só por aqueles segundos e depois não mais. O que me importa são os momentos felizes que estão por vir e que vamos viver sem medo do amanhã porque o nosso depois é o que passamos esperando por todo o agora.

Quero me segurar em você até não ter mais encaixe possível, quero suas mãos no meu rosto inteiro pra eu fechar os olhos gigante, pra eu poder chorar até secar a última mágoa na sua camiseta que agora vai ter o meu cheiro misturado no seu. Quero que o sol se ponha em silêncio pra ver a gente andar na praia, que as nossas bocas conversem grudadas e os nossos olhos aprendam a falar uns com os outros. Hoje eu quero o que eu sempre estive procurando com tantas outras pessoas por aí fingindo não saber que eu sabia que o meu breve momento podia ser eterno se eu entendesse que havia de ser com você.

Eu podia ter continuado na batalha, esperando ligações cheias de segundas intenções que não iam sair do vazio de uma cama cheia de lençóis, frustrações e distâncias pré-estabelecidas. Podia ter andado em linha reta pra não enxergar você a cada desvio, a cada ato falho da razão me mostrando a minha sensação por você fazendo força contra a vida mesquinha que eu queria levar pra não sofrer. Eu podia ter sido covarde por mais vinte anos, e mais vinte, pra sempre. Mas a sua coragem transbordou em mim e me deu a lucidez que faltava pra eu enxergar que a luz da chegada, o respiro do sossego e a leveza da escolha certa estavam guardadas, pra mim, em você.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, viajo daqui há 3 dias. Talvez eu suma por algum, mas não muito, tempo. Afinal, vocês sabem qu eu não agüento.
Cuidem-se. E um beijo gigantesco de enorme na bochecha de cada um.


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Quinta-feira, Novembro 01, 2007

CAFÉ DA MANHÃ SEM AÇÚCAR.



"hay milonga de amor. este tango es para vos."
[algo de inexplicável acontece quando começa a tocar o gotan.]


.::. Acabou o jejum.
E depois de alguns meses sem conseguir desenhar as palavras com perfeição, minha sintaxe veio ambiciosa, querendo mostrar serviço, impressionar, ganhar o lugar que tinha perdido para o tempo. Fazia tempo que o que era sentido estava confuso e sem nome. Risada, amor.

Voltei. E percebi que dei pra pensar que, com os anos, alguns sentimentos de outrora se tornaram estranhos. A leveza de muitas coisas foi embora, assim como fomos nós, saindo por todas as portas que não soubemos manter entreabertas. Mas o que eu não entendo, mesmo que tente muito, é como delimitamos o limite da verdade, onde fica mesmo a linha imaginária que dá um basta no querer? Por que será que sempre o outro lado é o que se pode, o paupável, o certo e bonitinho. Será que só é assim porque está, enfim, do outro lado da faixa de segurança da vida?

Uma menina se apaixonou por um peixe. Ela queria ter, então, nadadeiras, barbatanas, uma grande cauda azul-anil, queria poder respirar embaixo d’água. A história continuou romântica e com espírito de aventura por alguns capítulos, mas no final a menina, tão humana, se afogou.

Assim acontece com todas as pessoas todos os dias. Misturamos as linhas do possível com o provável, acenamos em direções contrárias aos ventos que sopram a nosso favor, corremos pro mergulho no mar da sorte quando poderíamos ter, logo aqui, um riachinho xôxo de amor certeiro. Ninguém quer amar certo, porque amar certo, sem fugas, sem medos, sem ânsias de corpos inteiros se perdendo em pedaços não dá tesão. E ser humano, de carne, osso e sêmem, precisa de um tantinho de tesão.

Um menino se apaixonou por uma princesa. Ela era bonita demais pra ser verdade, era educada demais pra existir, cheirava à damas-da-noite com jasmim, recitava poesias sem muito açúcar, era azeda e ardida na medida, queria casar com um príncipe, mas não de véu, grinalda e buquê. A princesa gostava muito de cerveja, mas não arrotava porque era polida demais pra ser humana. Tinha a voz mais linda do mundo, mas cantava pouco porque era comedida como jamais outra mulher tivera sido no mundo. A princesa, do menino que pode ter de quinze a quarenta anos, não existia.

As realidades eram várias, as estações passaram sem eu perceber porque, quando me dei conta, eram quarenta graus escorrendo em pleno outono. Mas quem ficou pra trás? As horas passaram por mim, ou fui eu que, sem acreditar nas circunstâncias, me despedi delas?

E a vida continuava engraçada. As pessoas continuavam se apaixonando não por quem estava ali, na frente, mas sim por quem estava lá, do lado de dentro delas. As músicas continuavam tocando, Paris ainda inspirava um amor vintage e comédias românticas pretendiam alguma esperança, também, ao amor. O mundo ainda era gigante o suficiente para um amor em cada porto, e um cais pra cada caos. A bagunça ilimitada de sentir tudo o que se pode, com quem se está, onde estivermos.

A vida é mesmo um pouco disso. Falamos muito de amor, porque ele assim, cheio de acertos mágicos, não existe. No fundo todos sabemos.

Acabou o jejum.
Chega de peixes encantados e princesas presas às suas torres. Quero falar pouco de mim e pensar menos em amor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E pode passar o tempo que for, eu sempre volto pras minhas crianças.


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Terça-feira, Setembro 04, 2007

AS HORAS



"do you believe she said that? can you believe she repeated that? i said i hate myself and i want to die."
[cat power no tim festival já esgotou. eu não sossego até conseguir o meu. palavra de escoteira.]


.::. O momento me pedia, quase implorava, serenidade para escrever. Estruturar em palavras o que se passava aqui dentro, hoje. Pedia baixinho para causar vontade, mas não tinha sucesso e acabava berrando dentro de mim. Caía junto com as lágrimas, as risadas, os pontapés e os afagos mudos, todos ao mesmo tempo. Ensurdecia.

“Não, eu não estou louca.”
Eu costumava me consolar assim. Eu tinha medo das certezas e pavor do que eu não sabia. Tudo era sempre mais complicado do que eu supunha, do que eu tinha certeza. A felicidade era histérica sim, mas só na vida dos outros.

Aqui era silêncio. De doer, de rachar.

Me perguntava por que passavam, então, tão rápidos os dias. Quase batidos, quase como se eu realmente estivesse vivendo a minha vida. Esperando pelos segundos que viriam, pelas esperas que findariam, pela vontade de todas as coisas que tinha sumido junto com o meu tempo que passava acelerado.

Eu queria andar devagar, respirar a brisa, enxergar as flores. Mas parecia piada. Tudo passava na velocidade da luz, nada queria realmente permanecer. Os objetivos todos dispersos e você, lá, parado no final do túnel, esperando a corrida começar, com a bandeira da chegada na mão.

Quando é que sabemos que a adolescência acabou? Porque quando acaba a infância, e ela começa, a gente ganha algumas espinhas, um tanto de hormônios, outras vontades e ok, tudo fica explicitado o suficiente pra gente trocar os brinquedos de plástico por outros de carne e osso.

Mas e a maturidade? Quando é que ela chega?

Será que o fato de o dia parecer mais curto identifica a fase adulta? Será que o trabalho se vinga da gente, sempre sendo maior do que o nosso tempo, só pra mostrar que não demos valor pra uma infância cheia de sonecas à tarde e bolos de cenoura depois? Será que a vida vai, mesmo, ficando cada vez pior ou somos nós que usamos a nostalgia como forma de nos consolar dos problemas nos confortando em alguma coisa macia do passado?

Eu não sei.

Eu não sei a partir de onde foi que eu virei a mulher cheia de questionamentos repetidos, que sorri, anda, inventa, se molda, é forte, é segura, é madura, e elegante, e sorridente, e feliz, e tão incompleta. Quando foi que a felicidade deixou de bastar para me fazer – sim, o palpite está certo – feliz?

Mas não é só você. Não é só você e eu sei. Não são só as coisas que a gente diz e, muito menos, só aquelas que vivemos esperando. É muito mais do que isso, o meu vazio vai além. Porque eu me completo de pedaços, porque vivo num mundo desigual, porque o que era bom ontem, hoje já não é mais, e assim as coisas vão passando. O meu vazio está repleto de medos. Não seus, não nossos, mas de futuro, de mundo, de quem exatamente eu sou.

As horas passam batidas e eu bambeio fazendo contas de cabeça. Vinte e quatro vezes trinta e um, noventa e seis vezes doze, novecentos e cinqüenta e dois. Os múltiplos multiplicam o que eu não sei, o que me sufoca no calor do dia a dia, de todas as relações. Talvez eu não esteja apta a me relacionar com o mundo... nem com você.

Ele gira, eu giro, a verdade gira, rodopia e bate na minha cara.

As noites são pequenas pro meu sono, os dias grandes demais pras minhas dúvidas. Eu quero parar, eu quero fugir, eu quero voar pra onde haja cheiro de infância, o rosto da minha avó, as pernas grandes da minha mãe, onde eu me escondia tanto, tão protegida. Eu quero um mundo de verdades, que seja de mentirinha, pra eu me sentir confortável. Eu quero me sentar a mesa e esperar o meu banquete de felicidade, que não vai vir.

Não é quando a gente para de se importar com a gente, que a gente morre? A gente não morre quando estamos muito machucados, mas a vida não para de doer?

Mas ele me diz que não. Ele diz que a vida anda em frente, mas que sempre há dois lados. Ele me fala de força, de visão e de depois. Porque, segundo ele, sempre há um além, um horizonte, um movimento seguinte, mais claro.

Eu, tantas e tantas vezes, tinha medo de mim, da minha escuridão que me confundia, sozinha. Mas, ainda assim, - e por muita sorte - me restava você, a bandeira da chegada e toda sua claridade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, acreditem: não é introspecção o caso, é pura falta de tempo mesmo.
Um beijo.



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Sábado, Julho 28, 2007

CORRE, COTIA: DIA E NOITE, NOITE E DIA.



"said i many times, love is illusion, a feeling result of confusion (...) i feel so sure, so positive, so utterly unchangeably certain. though i never was aware of loving you, 'til i suddenly realised there was love in you."
[um dos vícios da vez é jamie cullum inteiro: a voz, as canções e ele dançando 'don'tcha' no palco.]


.::. Só sei que começou devagar pra não ser descarado. Queria todas as partes que restavam de discernimento e conseguiu, é só olhar. Nunca houve a certeza tão concreta da necessidade de mudanças tão extremas pra ficar junto de alguém. Tão junto.

Era engraçado à medida que acontecia, porque ia acontecendo sempre igual, os dias repetiam as sensações daqueles dois que sonhavam, daquelas almas que ficavam pedindo acalanto, sossego, mas só brigavam. Quem grita precisa de muitas iras entaladas, eles só tinham uma. E bastava.

Quando o dia começava de manhã, era como se a esperança se renovasse junto com o sol que, assim como eles, também ontem se deitou. Mas eles se deitavam em horas diferentes e o sol deles nunca concordava a hora certa de estar em paz. À medida que o dia esquentava, esquentavam também os ânimos, os desânimos, e a raiva que sentiam do mundo, da vida e do outro por nada poderem fazer. Doía.

Só sei que se passaram as horas. Sem jeito, sempre em frente: os sentimentos incandescentes, sempre em brasas vermelhas.

Quando o sol sossegava e começava a querer fugir do que causou, vinham então as estrelas, tão espertas. Propunham brilhar-se todas e entreter os dois, fazê-los amolecer com o frio da noite e dizer bobagens quaisquer pra esquecer o que se passava. Não dava.

As estrelas deles vinham separadas, também. Por oceanos, terras, mares, rios, plantas, ventos, tudo. Era muito longe. Ele cá, ela lá. Doía de novo.

A noite propunha sacanagem e desgosto de estar só. Mas ao final só sobrava o segundo e a certeza de que era mesmo a maior sacanagem da história estarem sem poder se tocar, daquele jeito.

Quando o quente esfria com as brisas noturnas, então, vem o refresco ruim que não pediram. Vem a censura pessoal, os questionamentos em dupla, e as discussões infindáveis que realmente não vão sair dali, em círculos.

Só sei que choravam. Cada qual ao seu modo, cada um com o que tinha para lavar a alma. Ela os olhos, ele as risadas sem graça de quem está muito mais desesperado do que aparenta.

Aí pensavam em largar tudo, em largar trabalho, escola, família. Em se largar em nome do outro. E desistiam. Doía.

A voz ao telefone quase sempre tremia. Não havia mais estabilidade nesse mundo que conseguisse conectar essas vontades tão latentes. Até porque, enquanto um amanhecia, o outro adormecia e seguiam os dias com essa bricadeira de gato e rato que nunca se encontram.

Ficavam assim, então: sobrevivendo a cada dia e esmorecendo a cada noite. Lutando contra o medo do mundo e o medo deles mesmos, por estarem em mundos tão diferentes por hora, agora, pra sempre, quem sabe? Não sabiam.

Tentavam acreditar numa mudança, num descaso do destino que insistiu em manter-lhes assim. Um descuido que deixasse um deles passar, fugido. Tentavam fugir da verdade e se encontrar um no outro, mas se perdiam. Estavam perdidos. Nos dias quentes, nas noites longas, na espera fria.

Só sei que doía.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, que saudade que eu tava de tudo por aqui!
Beijos, crianças.


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Segunda-feira, Junho 25, 2007

AQUELE BRILHO QUE OFUSCA, É MENTIRA.



"once i wanted to be the greatest/ no wind or waterfall could stop me/ and then came the rush of the flood/ the stars at night turned you to dust."
[um vício muito justificável na voz macia de chan marshall. cat power vale à pena.]


.::. Aquele dia eu tive medo. De verdade, de cair.

Eu despenquei no meio dos fatos porque as pernas cediam já havia um tempo. Já passavam algumas fases que a minha crença ia indo, fundindo com os atos, as conseqüências, as faltas de medida. Desmedido estava o pavor em mim, de ver você daquele jeito, bem na minha frente.

Não era falta de compreensão. Eu juro que queria entender. Havia anos que a minha vida, pra mim, era simples, líquida, transcorrente pelos meus dedos.

Ok. Não no sentido de simplicidade, não neste. Mas, pelo menos, eu sempre soube que as confusões, misturas, sensações, tumultos, revoltas, amores, bagunças, enfim, tudo existia ali por um porquê, por um - ou vários - motivos que eu mesma criei de um jeito ou de outro, agora, ontem ou depois. Por mais que estivesse difícil, eu sempre tinha estado no controle. Era eu, meu egocentrismo, o meu lado narcizo e a minha coragem de estampar, pro mundo, os meus medos.

As nuvens andaram tortas e se confundiram de estação. O céu resolveu escurecer em cima das nossas cabeças mostrando que egoísmo, agora, não ia ajudar muito, não ia resolver o problema, os problemas, os lapsos de sanidade que existem nas vidas das pessoas todas. Nós fazemos parte, ao menos disso.

Eu ria, mas tremelicava toda por dentro. Eu queria chorar até alagar todas as burradas pra afundar o que foi e ser a partir dalí. Não dava. Latejava estranho por todas as partes do meu corpo os pecados que eu não cometi. Os joelhos continuavam ralados e sangrando, aquele sangue que não era meu, nem dela, mas seu. E ele precisava jorrar.

E o céu já não era mais azul, era vermelho como no filme onde nada se via, de luz apagada pra sempre. Como se num minuto tivessem roubado todas as nossas certezas e só uma permanecesse. Eu continuava lutando por ela, de mãos fechadas, dentes cerrados e olhos entre abertos.

A gente não podia exergar tudo porque era a incerteza do muito que confortava de certa forma. Era o medo de um futuro errado que empurrava pra frente. Eu precisava caminhar. Certas ruas ficaram estreitas, algumas estrelas perderam o brilho. A minha música preferida já não dizia muitas coisas porque o meu conceito de amor mudou, e muito.

E eu já não quero brilhos. Percebi, só agora, que a luminosidade me cansa. É na penumbra que os medos se descobrem, se roçam e se encaixam. É na sede de querer se salvar que a gente bebe o outro, gelado ou quente, tanto faz. As sombras, que não têm feição mas sim formato, me mostraram que eu errei tanto quanto você.

Vou deitar quente no seu peito até o dia chegar, mas aí eu vou fechar as cortinas e ficar. Só mais um pouco, eu juro.

E você vai fugir de você, porque assim há de ser. Mas eu, vou estar aqui, no escurinho da sua única certeza, te esperando com o amor que eu nunca duvidei poder te dar.

Feche a porta.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E qual universitário no mundo tem tempo de escrever em final de semestre?
Mas eu sempre volto, crianças, vocês sabem.
Um beijo grande.


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Domingo, Junho 03, 2007

ALGUNS MILHÕES DE METROS RASOS



"tempo, tempo mano velho, falta um tanto ainda eu sei, pra você correr macio."
[tão macia a voz da fernanta takae que até dá nervoso. sobre o tempo, pato fu.]


.::. Eram horas distantes aquelas. Pareciam tão longe de mim, inquietas por não poderem passar logo e juntar o que eu sonhava com o que eu queria, numa coisa só, bem na minha frente. Um ano tem 365 dias. Um grande múltiplo de cinco que ia ficando menor a cada cinco minutos a menos que nos separavam. O relógio podia não ser exatamente ágil, mas era nosso amigo.

Alguma coisa não está certa aqui. Passa longe de ser visível aos meus ou a quaisquer outros olhos, mas existe. Lateja forte durante a noite e eu me recolho, me encolho, me embrulho, como se procurasse um jeito de, em mim, encontrar um pedaço de você. Mas não dá mais, e dói.

Nos sonhos é como se eu corresse, gritasse, esmurasse o mundo sem que, entretanto, nada acontecesse. Parece que há, em mim, uma verdade tão escancarada que se torna ridícula. E riem, e blefam, e se intutilam profetas do meu, do nosso destino. Quanta bobagem, quanta cretinisse, quanta e tanta chatice.

Mas não me importo. Não me iludo mais com promessas fáceis de amores eternos. A vida me mostrou vez após vez que nada do que vem correndo, acaba por sossegar e se manter parado, não existe a possibilidade. Não existe possibilidade de amor sem história, sem derrotas, sem sangue pisado no coração, sem garganta trancada e meleca no nariz de tanto chorar. Amar não é só bonito e, pra ser hora ou outra, é feio demais no caminho.

Cansei de viver num mundo onde temos que ser perfeitas: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes culinários, a inteligência, a meiguisse, as amigas, os respeitos, os beijos na testa, as pernas cruzadas. Mas cansei mais ainda de viver no mundo onde temos que ser vadias insaciáveis: as unhas, os cabelos, as roupas, as poses, as falsidades, os dotes dos decotes, o pouco cérebro, o sex appeal, as amigas, as dissimulações, os beijos de pornochanchada, as pernas esguias, compridas e abertas, sempre.

Eu não faço parte. Me falta quietude pra ser serena e impetuosidade pra ser agressiva.

Me falta vontade.

Acaba que me tornei o morno que engasga na goela, que não desce nem regurgita. Acaba que acabo me questionando muito, esperando muito do mundo, das mudanças, do que vem depois de você. Acaba que acabo com meu sossego pensando que está errado, que não era pra ser assim, que a vida é uma merda fedida. Acaba que acabo comigo e com tudo o que faz parte de mim, mesmo externamente.

As pessoas correm e todas elas passam junto com as horas que também se vão. Eu arrumei um banquinho escondido que me deixa ver tudo, ver tanto, até me cegar. Eu fecho meus olhos e respiro grande, deixo invadir os vasos, quero que exploda tudo. Eu não falo mais em primeira pessoa, porque agora somos terceira.

Você aqui, eu aí. Vocês sendo nós. Pluralidade que é pra não correr o risco de eu me esquecer. Eram mesmo distante as horas, mas elas iriam sempre estar lá, assim como nós mesmos aqui, ou lá, de novo.

Fiquei pensando - do meu banquinho inventado - que podiam mesmo correr todas as pessoas, e passar. Pra você, que importa, finalmente permanecer, não tem outro jeito, só esperar.

Que passem os outros então. Que corram, que se atropelem, que dancem músicas sem melodia té o sol raiar, que comam comida sem gosto até se empanturrar, que vivam mentindo como foi até hoje até não se reconhecerem mais. Que se danem.

Temos metros múltiplos de cinco suficientes pra vida inteira. Vamos caminhar.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Que saudade, crianças! Desculpem a desnaturação, se cuidem e muitos beijos.


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Domingo, Maio 06, 2007

EM TODOS OS CANTOS DE TODAS AS COISAS



"...while I'm gone just be a fly on the wall, you know I'm thinking about you."
[thirsty merc. chicletinho e radiofônico, mas uma graça.]


.::. Eu não tenho medo de você.

E essa foi a primeira coisa que eu consegui pensar, enquanto os outros tantos carros passavam pelas curvas dos arredores e me faziam envergar numa verdade besta, ingênua e tênue, mas quase promíscua pra quem está assim, tão longe.

Eu caio em calafrios gigantes, troco todas minhas noites pelos seus dias de espera, de gratidão, de acúmulo de ânsias, e rodeios e trações turbulentas de quente e de frio, de mim e de você.

Eu levanto e cambaleio porque estou torta. Nem fria, nem morna e muito menos morta. Viva e latente esperando passar o amargo pra engolir o doce espesso, mesmo que ele ainda esteja, de alguma forma, cítrico e salgado, perdido na minha ou na sua boca tão distantes.

Não era pra ser assim, e eu sei. Você sabe que nada disso dura muito em discernimentos de terceiros que não assimilam, acham absurdo e fecham os ouvidos, os olhos, a mente pra nossa verdade de mentira, pra nossa brincadeira de casinha moderna, à cabo. Mas a verdade é que eu pouco me importo com conclusões que não me pertencem, que não vão procriar ruídos agudos nos meus ouvidos depois.

Não que eu chore menos, ou sofra só um pouco. As coisas sempre foram e sempre vão ser o fim do mundo pra mim que é pra eu ter mais vontade ainda de viver a cada vez que eu levar à ferro e fogo e a vida simplesmente continuar.

O futuro titubeia nas quinas de uma verdade sólida como gelo, que água gelada em mim, em você e no meio tempo que passa para um dia ser amanhã e não ontem, pra um dia sermos nós e não eu e você.

Acontece que alguma coisa lá no fundo grita forte e estridente, que é pra eu não me aquietar. Que é pra eu não pensar que a calmaria significa solução e que o caos precisa ser turbulento. A dor mais profunda que eu consigo ter, de olhos fechados, é o silêncio da sua ausência, aquele vácuo profundo que berra a todos pulmões que você não está aqui.

Foi até fácil pensar, por um instante, em deixar tudo pra trás. Os dias, as noites, as tardes, as madrugadas e os momentos que não se contam, os que não têm nomenclatura. Podia, até, fechar os olhos com força e esquecer tudo por um segundo. As palavras, os toques, os gostos, os cheiros e as certezas de quem não duvida.

Foi até convincente forjar um desvio de memória, de conduta, pra tentar ser mais leve e, como tudo até hoje, simplesmente te deixar passar.

Mas você ficou justamente pra me provar que, à essa altura, é impossível tentar bancar a dissimulada, e viver menos você.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ótima semana, minhas crianças!


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Domingo, Abril 22, 2007

NA PRATELEIRA DE LÁ



"Só porque disse que de mim não pode gostar, não quer dizer que não tenha que reconsiderar."
[marisa que, aqui, não aparece faz tempo.]


.::. As coisas vêm e voltam. As coisas vão e ficam. E voltam. Não era à nada disso que eu me referia quando fui embora. Não era pra você voltar só porque, lá no fundo, eu acabei ficando.

Todos os dias, acordar é um parto. Sair do quente do meu inconsciente pra dar vazão à esse mundo aí de fora, todo cheio das coisas que eu não quero fazer, transbordado do que eu não suporto mais ver. Mas a gente continua. Continua porque desistir é muito feio, é fraqueza, e vamos combinar que num mundo desses, não dá pra ser fraco.

Só que alguma coisa aconteceu naquele dia. Eu desliguei o telefone e, dentro de mim, eu sabia que doía demais porque, depois daquilo, não ia doer mais. Eu não ia mais ter que medir todos os passos, todos os sentimentos, todos os choros, risos e gozos numa fôrma imaginária. Eu não ia mais ter que usar como base de comparação uma coisa que eu criei bonita, mas que estava fazendo de mim uma pessoa tão feia.

Mas não, é lógico que não foi assim. Não foi, porque as coisas todas sempre acabam por tomar rumos que eu duvido. Me pergunto quem não duvidaria. É uma tristeza que não cessa, junto com uma alegria que existe, mas lateja fraco, palpita baixinho, morna. A dor é sempre aguda.

Os dias continuam passando, as horas pesando, a nossa vontade de conseguir, de chegar lá e não sucumbir, sucumbindo. Todas as vezes na vida que eu falei em absolutismos eu sabia que estava mentindo porque, pra mim, tudo sempre é imediato, porque eu não tenho a mínima paciência de não ser mimada. É sem pensar, porque eu penso demais. É o fim do mundo, porque quem pensa muito só pensa em merda.

Mas sempre, sempre, cinco minutos depois, tudo passa. Nunca menos e raramente mais do que isso, cinco minutos, e tudo vai embora porque é assim, as coisas têm que passar, os dias têm que mudar, os ares têm de ser novos e a vida continua, com ou sem qualquer um.

Só que esse sempre foi e ainda é o seu problema. Não ser o um que não faz falta, não ser a noite perdida num canto de um balcão qualquer, não ser o beijo de hálito gelado, tesão quente e vontade limitada. O seu problema, é ser problema sem solução. É ser vontade pra mais de anos, é ser virtude pra uma vida inteira, é ser idealizado porque há tanto tempo eu, você e o mundo que nos cerca, separados, esperamos tanto.

E, embora seja muito arriscado, não há como negar que a minha felicidade está vinculada a você, veiculada em você. Seja lá quando você vier trazendo-a à tira-colo.

Pra mim, é difícil aceitar e entender que eu tentei te deixar pra trás, como todo o resto, mas não consegui. É difícil olhar os fatos, comprovar as dificuldades, ter preguiça, sentir cansaço, doer, arder, ferver e, mesmo assim, não conseguir te colocar dentro de um prazo.

Seu prazo de validade não venceu em cinco minutos, mas por você, o meu gênio durão, egoísta, fugaz e sempre tão irritantemente unilateral, apodreceu faz tempo.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Boa segunda, boa semana. E alegria, alegria, crianças.


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Domingo, Abril 08, 2007

ELE FICOU POR LÁ



"...before i've arrived, i can see myself coming."
[é brega, mas eu gosto de robbie williams.]


.::. Pensando bem, não era exatamente à isso que eu me referia quando falava de amor. Não era à uma coisa doída, unilateral, pesada e ressentida. Não era, nem de longe, uma conversa sobre arrependimentos e, nem, nenhuma lágrima caía. Pensando bem, quando eu esperava tantas outras coisas do amor, eu, ainda e simplesmente, não compreendia.

As meninas estão aí. Estão aí todas elas como sempre, correndo, fugindo, ficando. Estão todas virando mulheres no meio do caos diário, da eterna vontade de não mais precisar correr por ter tanto medo de tudo, a eterna vontade de ficar onde as mentiras são para o bem de verdade, e as verdades só sabem fazer feliz.

Fazia um ano já. Um ano e ainda mais um pouco.

Eu passava segura e distante de tudo o que cortou um elo porque, se não havia mais conectividade, não havia, tampouco, motivo para se manter, então, qualquer espécie de relação. Mas as coisas na vida da gente voltam à qualquer momento. De repente, de sopetão, do nada, alguma coisa palpita forte lá embaixo, na boca do estômago.

Era pra eu estar rindo de tudo isso já. Era pra eu pensar que as coisas tinham se acertado e que isso tudo era certo.

Mas o caminho foi abrindo na minha frente: a reforma tinha acabado, a pista tinha crescido, fecharam o lugar das nossas confissões mais secretas, abriram um novo restaurante fantástico que nenhum de nós - sendo um nós - chegamos a conhecer. Eram muitas coisas juntas, ao mesmo tempo, contando pra mim vez após vez que a vida tratou de seguir seus rumos mesmo sem eu estar ali, perto de você.

A gente andou tanto aquele dia que o rumo se perdeu. Eu me perdi de você, mas as coisas todas estavam lá, eternizadas bregamente na minha cabeça - e tão somente nela.

Ainda estava lá a pracinha de bairro, com os cachorros todos, o guardinha, os bancos, as árvores, flores, cantinhos e tudo mais que fizesse dalí um lugar romântico ao qual eu nunca tinha prestado a mínima atenção antes porque, antes, o mundo lá fora não importava muito. Só que, agora, o mundo aí fora é tudo o que eu tenho pra me lembrar de tudo.

Ela chorou três litros de lágrimas tristes de verdade na minha frente e eu, simplesmente, não soube o que dizer. Fiquei parada tentando usar alguma eloqüência pra explicar que ela não precisava chorar por ele. Ele não mereceia, ele não sabia, ele era só mais um babaca, só mais um cara que mente, que some, que liga pra manter quente, pra não perder a possibilidade sempre que tiver vontade. Tentei falar que ele era só mais um homem, como são todos os outros, e que, um dia, ela acharia alguém que não ia mais fazer ela se sentir assim.

Quando eu percebi, éramos as duas babacas em prantos. Chorando por todos os fantasmas do passado que não mais estão aqui mas que, também, nunca vão embora de vez.

A pracinha, a avenida, as ruazinhas, as lanchonetes, os lugares de segredo, o meio fio, os cachorros, tudo tão diferente. Mas tudo continuava lá.

E dessa vez, quem foi embora fui eu. Porque, afinal de contas, se a vida andou sem mim, não faz sentido nenhum eu parar por alguém que eu, em algum momento, resolvi deixar pra lá.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Bom dia do chocolate amanhã, crianças.


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Sábado, Março 31, 2007

A MAIOR PARTE DE MIM



"... and it's not hard to grow when you know that you just don't know."
[cannonball do damien rice. só porque é muito bonitinha a música.]


.::. Os anos passaram pela minha janela.

Essa seria uma boa frase pra começar um texto saudosista, de um dia de aniversário onde as coisas todas magicamente mudam de lugar, onde os problemas se resolvem e as dúvidas não existem mais.

Infelizmente, não é assim.

As coisas não passam pela nossa frente, pela nossa vida, macias e imperceptíveis. Muitas vezes, e normalmente, ir além delas machuca e, na hora, a gente não entende exatamente o porquê.

Hoje eu faço vinte e um anos. Vinte e um. E fico repetindo esse número mentalmente como um mantra sem fim de um iógue numa cachoeira de incertezas qualquer. Vinte e um. Quanta coisa aconteceu nessas duas décadas e um, quantas vezes eu gritei de tristeza, sorri de alegria, me confundi no gozo e no pranto e virei essa mulher inteira dos meus pedaços, cheia dos meus vazios. Virei essa mulher que ri e chora muito de tudo, porque vive até a última pulsação das coisas, porque sempre bebe até o último gole.

Tantas foram as vezes que eu superestimei tanto tudo, que eu achei que não dava mais, que já tinha vivido tudo o que era pra mim. Quanta bobagem.

Bobagem porque de todas as minhas tragédias de um dia, o máximo que me ficou foi a lição de que ser hiperbólica como só eu sei, pode, no máximo, me render um estilo, jamais um final. Nada acaba só porque pra mim sempre é um caso de vida ou morte.

Mas os meus exageros me fazem bem, me fazem escrever, me dividem com as pessoas que, por um motivo ou outro, lêem as babaquices que eu prolifero mundo à fora. Ter coragem de falar o que muitos pensam no quartinho escuro seguro da consciência me rendeu grandes amigos, me fez conhecer pessoas incríveis. É inexplicável.

Os vinte, esses sim, passaram voando por mim. Sabe aquelas brisinhas boas que despenteiam, mas não a ponto de descabelar? Passaram gostosos, cheios de informação pra eu absorver de um só vez. E acabaram rapidinho porque tudo o que é bom dura pouco pra caralho. Os vinte passaram inteiros e a minha mania de boca suja não foi embora junto com eles.

Tanta coisa, tanta gente, tanto medo acumulado esperando a maturidade finalmente chegar e, quando ela finalmente chega, eu ainda me sinto imatura e quero o colo da minha mãe, o abraço da minha amiga, o beijo na testa do meu primo, o amor do cara que foi embora há três anos e nunca mais voltou.

E enquanto eu espero por tudo isso, por um mundo cheio de certezas onde acordar vai render uma gargalhada e nada mais vai valer uma tristeza, a vida vai passando. Sem perceber, eu vou passando junto com ela porque, felizmente, apesar de eu esperar a felicidade, eu nunca deixo de ser feliz. E nem vou.

Eu continuo sendo essa menina boba, que descobre todo dia que não sabe da missa a metade, mas que se joga, e se fode, e, no final, se diverte. O meu inferno astral acaba hoje, porque hoje começa a minha nova primavera. E eu olho pros lados procurando motivos pra uma felicidade de festa, de hoje, momentânea, mas percebo que as minha maiores razões de sorrisos estão bem aqui, comigo: do meu lado e dentro de mim.

A verdade é que a minha maioridade já começou e, apesar de tudo, não poderia haver sensação melhor.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Parabéns pra mim e tra la la.
E sim, hoje sou eu mesma na foto.
Beijos, crianças.


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Sábado, Março 10, 2007

O MELÔ DA CARETINHA



"... life, it thought me to die. so it's not hard to fall, when you float like a cannonball."
[é uma pena que fizeram essa música do damien rice virar tão bunda. mas ainda assim, vale à pena.]


.::. Eu ando em círculos tortos tentando achar o equilíbrio que eu preciso pra não desmoronar no meio fio, sozinha. Ficando tonta por tentar entender, pela milésima vez, o que me segura tão fundo no chão, que deposita vinte toneladas nas minhas costas e eu não consigo voar.

Tento achar culpados, xingar os meus e os seus medos, reprimir todos meus impulsos assassinos por todas as pessoas que eu sou obrigada a odiar simplesmente por não poder amar. Tento sofrer menos por tudo no mundo, mas a vida me envolve de verdades o tempo todo e é difícil sorrir pras desgraças quando a sobriedade é parte inerente do meu todo. Encarar a vida de frente, com todas as merdas que cagam gostoso na minha cabeça todo santo dia, não é fácil. Viver não é fácil, nem bonito e nem me dá tesão muitas vezes.

E eu choro sem saber o porquê enquanto a vida acontece lá fora. Tanta gente desgraçada por coisas de verdade e eu, ainda presa às dúvidas atrasadas de tudo que não se explica, não consigo definir porque tudo fica tão aguado ao meu redor. Eu fico parada olhando tudo acontecer comigo, tudo acontecer com os outros. Eu choro sabendo que o mundo não é bom, que crianças morrem arrastadas por sete quilômetros presas a um carro em movimento. Choro pensando que é um adulto, que provavelmente nunca foi criança, que dirige esse carro. Choro sabendo que muitas outras crianças vêem seus pais morrerem numa guerra de adultos e que elas não pediram pra estar lá, mas estão.

Os meus problemas são tão pequenos. As minhas dores são tão precisas.

Mas olhar ao meu redor me perturba e dói saber que viver machuca. Só que viver é tão bom, apesar de tudo isso, que mesmo no dia mais difícil de muitos, de todos, de tantos, eu não consigo entender, nem por um instante, a coragem do suicida.

Ter coragem de ser covarde.

Nunca mais ver o sol nascendo, nunca mais sentir o cheiro do mar, nunca mais acordar amassado porque perdeu a hora, nunca mais trocar o almoço saudável por um chocolate bem grande e gorduroso, nunca mais ter medo de altura, nunca mais abraçar um amigo, nunca mais olhar nos olhos da sua mãe, nunca mais se apaixonar, nunca mais sentir o quente da boca de outra pessoa na sua nuca, nunca mais sofrer, nunca mais querer tanto uma coisa com tanta força que o universo conspire, mesmo, a seu favor, nunca mais errar, nunca mais amar, nem odiar, nunca mais escrever o que sente, nunca mais sentir.

Desistir da vida é olhar de frente pro nunca mais.

E por mais que doa, por mais que seja injusto, por mais que eu chore e que a minha sensibilidade excessiva cause em mim muitas outras coisas que não só alegria ou amor, eu não quero desistir das sensações - as boas, as ruins e as idiotas - nunca. Eu não quero desistir dos finais definitivamente felizes ainda, mesmo que, esses finais tenham vindo, até agora, só pela metade.

Eu ando em círculos tortos tentando achar um jeito de enxergar as coisas com menos precisão pra eu não precisar tanto de motivos exatos pra continuar caminhando. E, ainda que, minha vida titubeie aqui ou ali, tudo o que eu posso fazer por mim mesma, no final das contas, é fingir que a vertigem não enjoa, e seguir em frente.

Pra mim, espertos não são os suicidas de póstuma, aqueles que maquiam a realidade com seus entorpecentes-amigos, e matam a vida de pouquinho em pouquinho só porque não têm coragem de fazer isso de uma vez, como os de véspera.

Sábio, mesmo, é Johnnie Walker, que há anos mata um mundo de covardes, mas continua andando.
[Rani Ghazzaoui]


.::. No inferno astral dos trinta dias que antecedem o aniversário.
Acho que o meu lance é não ficar velha, crianças.
Uma beijoca.


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Sábado, Fevereiro 24, 2007

MINHA CERTEZA NÃO É CERTA



"...Pois tudo o que se sabe do amor/ É que ele gosta muito de mudar/ E pode aparecer onde ninguém ousaria supor..."
[adriana calcanhoto, na voz de marisa. é de apertar o repeat. incrível.]


.::. Na minha frente havia dois caminhos. E eram, os dois, floridos.

A vida inteira não me faltou despudor e desprendimento de abandonar a metade do que quer que fosse, para me completar do que quer que me enchesse mais por aí a fora. Não me faltou coragem de tentar de novo, mesmo quando ardia por dentro e aquilo que batia sozinho, no escuro, pedia pra eu parar, por favor.

Fantasiada de carência, a minha liberdade passeava folgada por toda parte.

Ouvindo Marisa Monte em notas doídas e compassadas. Comparadas a Chico Buarque, tristemente profundo, desafinado e verdadeiro. Se Chico fosse afinado, seu samba seria a perfeição, e há de se convir que muita gente já derrama litros de emoções com a imperfeição, imagine então, com o contrário. Chico emociona porque tem a verdade errada das coisas; Marisa dói, porque é bonito e, beleza demais, machuca.

Procurando bem, todo mundo tem pereba, só a bailarina que não tem.

E tanto tempo passou desde quando era fácil depositar as culpas e os fracassos na vontade de ter afago de quem quer que fosse. Afago pra chamar de seu. Faz tempo que a minha vontade de cafuné virou vontade de quebra cabeça, sem frestas, sem furos, nem espaços por onde pudesse fugir a minha metade torta.

Enquanto o tempo passava, a minha certeza de uma só metade ficou perdida no meu quebra-cabeça completo de peças sem encaixe.

Mas eles são dois. Dois, e apenas dois, de tantos que falam comigo todos os dias, dentro do meu cérebro apressado nas ruas de São Paulo. São eles que andam comigo nas ruas arborizadas dos Jardins e pelo fedor calorento da yakisoba da Avenida Paulista. Andam comigo - e em mim - aonde quer que eu vá, de lá pra cá. Andam de fora pra dentro de mim, e saem de mim ainda mais fortes gritando paródias pelo mundo.

O poeta é um fingidor.

E da hora que eu acordo, até o último frame de segundo em que meus olhos se mantém abertos, o radar sensível que - por alguma razão - se instalou dentro de mim, capta as nuances e armazena. Sou um arquivo ambulante de coisas pela metade, mas a verdade é que, mesmo em pedaços, a minha mágoa é inteira porque, quando o mundo inteiro grita as desilusões de todas as pessoas no seu ouvido, acaba-se sofrendo um pouco por cada uma delas, também.

Sofrer vocês é sofrer a minha eterna dúvida de não saber o que é melhor pra mim.

Começo coisas e paro pela metade não porque eu não queira ver o final feliz se estampar no meu rosto desacreditado. Interrompo o gozo no meio porque, pra mim, a aflição dos novos começos atropela a calmaria do que já é meu.

Não é que eu não ame você, é só que eu não tenho certeza.
Os Strokes têm razão.

Mas a minha racionalidade se perdeu justamente onde eu a encontrei. Naturalidade demais me rendeu infelicidade, mas quando resolvi ser simetricamente certeira, perdi a emoção.

Finjo, então, ser dor. Aquela que sinto de verdade.
E vou.

No estreito do meio das decisões, esperando não haver escapatória, ignorando a visão das laterais, curvada, escondida, cardiacamente apressada por um final que, nem eu mesma, poderia palpitar.

Na minha frente há dois caminhos. E são, os dois, floridos.
Eu continuo sem buquê.
[Rani Ghazzaoui]


.::. E o carnaval passou pra vida poder voltar ao normal, crianças.
Welcome aboard de novo!


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Domingo, Fevereiro 11, 2007

ELA NÃO VAI PARAR



"Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino prá lá ..."
[devia ter uma lei no mundo, obrigando todos os homens terem, ao menos, um "quê" de chico buarque.]


.::. Felicidade é uma coisa estranha.

Estar feliz, eufórica, fora de si por alguns minutos gigantescos do dia, sorrir pro nada, ficar linda com qualquer roupa. Deus, como é estranho.

Ela olhou pro espelho encantada com a imagem refletida e fez força. Tanta que quase chorou de verdade. Mas nem mesmo a força conseguiu fazer com que ela enxergasse a si mesma naquela imagem marcada por lápis, rimeis e sombras. Era por debaixo das cores vibrantes que se escondia a mulher que ela guardava tanto no colorido pra poder desabrochar um dia, sem cor, no romance preto e branco que ela sonhava quando fechava os olhos de supercílios.

Dançava desleixada de propósito, pra forjar a emoção inata aflorando por todas as células do seu corpo penso, no meio da multidão de mulheres padronizadas, dançando pé direito-pé esquerdo, suas blusas balonê, suas pulseiras exageradas, seus sorrisos precisamente moderados até a vodka subir pra cabeça arrependida das meninas perdidas.

Ficou pensando, por um tempo, que talvez ela fosse a única das mulheres a gastar muito mais do que as 24 poucas horas de um dia pensando em bobagens. Mas descobriu que, por mais bem resolvida que seja a mulher, por mais pose, por mais que o salto seja quinze e agulha, por mais que o decote não esconda nem a emoção, por mais que o cabelo seja tão liso que deslize os medos, por mais que os olhos sejam tão marcantes que deixem as inseguranças pra depois, enfim, por mais que fossem lindas, seguras e bem decididas, eram ainda assim, mulheres.

Dançava ao ritmo da melodia que desconhecia, mas se entregava às vibrações dentro dela dizendo que, se estava feliz, que assim fosse, que assim estivesse, que não procurasse tanto pêlo em ovo porque, uma hora, acabaria por achar, mesmo, uma peruca inteira. E não era por medos inteiros que, agora, ela estava feliz.

O sem cor, não necessariamente, significava a felicidade - pensava ela -, apoiada pelo blues da tristeza que ela ouvia todas as noites. O azul das vozes doídas e profundas. Ela não agüentava mais sofrer profundo esperando o dia do escuro quentinho chegar.

Dançava por horas seguidas dentro da sua cabeça amargurada pela falta de ritmo das coisas, pela melodia apagada das pessoas, pelos sons perdidos nos silêncios que faziam o mundo girar ao contrário e as pessoas se olharem torto, tanto.

E foi no canto da pista, olhando ao redor dela mesma que ela descobriu que viver não emocionava sempre, mas emocionava muito. E que o importante não era o espetáculo central, as grandes luzes e os passos simétricos. Simetria demais era chato e ela precisava de emoção à flor da pele para continuar rodando.

Dançava circulando sua alegria fugaz, então. E agradecia baixinho dentro de si que os frios na barriga fossem, assim mesmo, atípicos. Viver de borboletas no estômago poderia causar enfarto do miocárdio, e ela, ela ainda precisava rodopiar muito.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Crianças, boa volta às aulas. E bem vindos, bixos casperianos.


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Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

SINTO MUITO, MAS NÃO SINTO NADA.



"Já não sei mais porque/ Em ti eu consigo encontrar/ Um caminho, um motivo, um lugar/ Pra eu poder repousar meu amor"
[los hermanos. eles sim sabem o porquê.]


.::. Não tem sido fácil.

Nenhuma das coisas que eu faço, por fazer, por continuar, por não poder parar de escrever uma história, mesmo que picada, para poder chegar onde é fresco e, no final do dia, você vem. No final do dia você vem de verdade.

É no trânsito sempre que você aparece pra mim. Aparece no metrô, na escada rolante, no caos dos restaurantes no horário do almoço, no meu banho pela manhã, na festa, no bar e na novela das oito.

Tanta gente, tanta confusão, tanta coisa. Eu deixei de sentir tanta coisa por aí à fora porque, lá fora, é feio, fedido e sujo, e juro, já deu no saco ter que me sentir um saco de lixo fazendo a caridade de recolher entulhos por ai. Não dá mais tesão sentir tesão fugaz.

Os dias passam lerdos pela necessidade que a gente tem, agora, de se arrastar, também, para o final das escolhas que vão deixar de ser um monte de vontades misturadas e acumuladas para se tornarem funcionais, pontuais e palpáveis, finalmente. A gente se esfrega forte no chão que é pra não ter que voltar pro fundo do poço nunca mais. A superfície está rasa e cheia de oxigênio esperando pelo respiro, de qualquer forma.

Mas é estranho acordar de manhã e conviver, todo santo dia, com o reflexo me contando que, aquilo que se vê, é uma casca vazia. É difícil manter uma conversa de mais de três frases com alguém que exala testosterona, quando nenhuma virilidade do mundo é capaz de vencer a batalha contra os super-poderes, as super-habilidades e o super-espaço do super-homem, não o da capa azul marinho e sunguinha vermelha bem a la babado-bee, mas sim aquele que cresceu devagar dentro de mim, durante todos esses anos.

Difícil seria explicar pra mim mesma tantas certezas abafadas pela lucidez de uma vida regrada, linear e sem emoção. Tantas vezes tentei abrir a boca pra explicar pra meio mundo o porquê de o meu mundo ser melhor agora, ainda que com essa metade de mundo entre a gente. Acabava de boca mole e garganta seca porque a felicidade não é exatamente uma coisa bem recebida por quem não vai desfrutar dela.

Os dias têm sido chatos, as noites longas, os banhos frios, o olfato nulo, a visão turva, o tato preciso... e sozinho.

As coisas passam coloridas por mim, mas não conseguem brilhar o suficiente pra ofuscar o que berra fosforescente lá no fundo. Colorido por colorido, escolho o bom e velho preto e branco que, inclusive, encaixa melhor com a melancolia. Se for pra sofrer, que sofra bonito.

Deixo que eles passem todos por mim, então. Deixo meus olhos se fecharem , meu coração estancar um pouco do sangue, minhas mãos se aquietarem onde eu possa pensar melhor em você. Deixo meu semblante de gargalhadas exageradas se acalmar num sorriso breve e lateral, tristemente esperançoso.

Sofrer a falta de você dói tanto que me anestesia da dor.

Não tem sido fácil, eu sei. Mas - sem sentir nada por te sentir tanto - eu decidi esperar por aquele dia em que, no final, você vem. De verdade.
[Rani Ghazzaoui]


.::. Ai, a minha falta de tempo!

Crianças, preciso agradecer todo mundo que tem posto texto meu nos profiles de orkut, nos blogs, nos flogs...
Enfim: à todos, muito obrigada, voltem sempre, uma beija e tchá!


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